Ainda a caridade

A renúncia papal nos oferta também a reafirmação evangélica das figuras mais comoventes, aquelas com as quais a igreja cristã evangélica se identifica e que pode ser resumida na pândega dos grandes pastores americanos. Se a ICAR possui em seu rol de hereges figuras como Gesézio Darci e Carlos Christo, cultuados pelas razões mais evidentes e que nos direcionam ao caminho mais fácil – o esoterismo naturalista -, de igual forma a comunidade evangélica sustenta o peso de Rick Warren e de movimentos tais quais o Movimento Evangélico Progressista e Missão Integral, estes que vincularam o socialismo ideológico à mensagem salvífica, obviamente que no ardor pop da caridade e do igualitarismo econômico. Da renúncia observam-se várias frentes evangélicas de condenação a Bento XVI, no que a distorção aos feitos da igreja medieval usufruem de sua popularidade, principalmente nas denominações carismáticas. Disso é possível observar a discrepância da maturidade evangélica das denominações brasileiras em comparação às denominações europeias, as quais minguam ano a ano. Não seria a decadência da comunidade protestante europeia justamente o espírito reformado em evitar a inovação desnecessária e destrutiva, ainda que isso incorra na extinção comedida da denominação? Na atualidade, a denominação que preza pela simplicidade está fadada ao descaso.

É certo que o cristão evangélico, imbuído de um senso crítico perante a atual catástrofe teológica reformada, irá se debruçar no movimento que condena não só a teologia, mas a práxis cristã milenar em uma tentativa de inovação da renovação protestante, descaracterizando-a por completo mediante a inserção de elementos sofismáticos.

Movimentos progressistas, que têm sobre si o discurso genérico da caridade e dos feitos da bondade, clamam pela juventude e a juventude, apta a não se caracterizar enquanto apoiadora da distorção teológica, abraça apaixonadamente a causa que tem por alicerce o mesmo erro da chamada “heresia universalista”, melhor lembrada pelas obras da Teologia da Libertação. Que ao menos tenha ciência o cristão evangélico adepto desses movimentos que sua crítica à heresia de católicos é de um contrassenso inevitável. Se ao menos reconhecessem que trilham o caminho mais comum e ordinário de uma “revolta velada” às instituições, os jovens teriam então apenas uma única preocupação: estudar o que lhes indica ser um caminho aparentemente mais cristão, apesar de possuir integralmente o espírito anticristão de seus teóricos mais influentes.

Por isso a leitura de Nietzsche se difunde nesses meios como uma “renovação intelectual” que teria por intenção principal a reflexão anti-ortodoxa da crise evangélica. Em nome da crise, reconhecendo que os movimentos evangélicos caminham para a pulverização inevitável, utilizam-se de certos personagens históricos da filosofia, política ou teologia substabelecidos no discurso de que o oposto é o verdadeiro, e a aberração é a santidade perdida. Não desprezo Nietzsche, o qual possui reflexões interessantíssimas, principalmente porque as suas ideias não seguiram os critérios lineares da filosofia comum – a uma conclusão, ao invés de tomar por superada a questão suscitada, Nietzsche retornava a ela, desmentindo seu próprio raciocínio. Desconsidero sim o jovem cristão que o toma como o maior dos cristãos (“porquanto o seu anticristianismo reflete a hipocrisia religiosa de sua época”, é o que se diz), no que se atesta a leitura parcial de sua obra ou, melhor dizendo, a inexistência de sua leitura senão por aquilo que se propaga pela boca de liberais. O amor dos cristãos liberais a Nietzsche, adeptos de movimentos de influência marxista, tem seu motivo esclarecido justamente no anticristianismo do autor, ou, na melhor das hipóteses, na “denúncia” nietzscheana da “falsidade do cristão como seguidor de Cristo”.O cristão liberal não sobrevive sem o sentimento anti-institucional.

Obviamente que o “cristão” nietzscheano citado não é ele próprio o cristão revolucionário, mas o cristão antigo, ainda adepto da teologia [reformada ou medieval] e que por isso não se compatibiliza ao status quo do perfil elementar do jovem esperançoso nas coisas que não importam, aquele que visitou comunidades carentes somente após se deparar com a sedução do discurso político mesclado e mascarado de Evangelho. Ou seja, a caracterização mais básica da falsificação secular da caridade cristã, a qual admite por vezes a substituição da Fé pela mera exteriorização das obras.

A conclusão que se tem parte do pressuposto de que essa faceta cristã não perdura sem inobservância do anonimato. É a histeria ela mesma o amparo da teologia dissolvida na política, corroborada pelos discursos sociais e que culmina no pietismo palpável, porém irrelevante, não obstante convincente.