Igor Westphal, o idiota útil

Há tempos não lia uma entrevista qualquer que me instigasse perder alguns minutos de escrita. Mas o caso é exemplar. O Idiota, de Doistoévski, é obra que se tem enquanto construção perfeita do personagem fictício. Se o escritor novato tiver por limite literário a ingenuidade grotesca de Príncipe Míchkin, estará em boas mãos. A [teórica] dissimulação do autor ante suas crises epilépticas mescla-se com a perspicácia da ignorância ameninada, então claramente infantil. A infantilidade do personagem percorre a grandeza da narrativa: são indissociáveis e permitem ao leitor adentrar no mundo do honestamente ingênuo, da pureza de coração que não se sabe inventada.

Igor Westphal é um contemporâneo idiota útil. Ao ser rechaçado por sua graciosidade, justamente por considerarem o acadêmico um preconceituoso racista, Igor se debruça prontamente perante a estrutura discursiva que encorajou sua inefável sentença. Ou seja, Igor, considerado racista, bajula o martelo que lhe vai à cabeça na esperança de que venham a entregar-lhe a carta de absolvição. Westphal portanto não se rende ao constrangimento. Mais vale sua reputação no status quo do academicismo engajado.

Na entrevista, diz o útil:

“O meu único intuito foi que as pessoas conversassem sobre aquele tema. Estimular o pluralismo de idéias. Pessoalmente, creio que a referida foto tem muito mais a ver com a chacota que o grupo de humor nigeriano quis fazer da situação de pobreza extrema fruto das tentativas de secessão por meio de guerras civis entre etnias diferentes e pelos séculos de exploração britânica, independência tardia e democracia instável. “

Como qualquer acadêmico limitado na percepção vitimista da história, a mesma percepção unanimemente ensinada nas escolas fundamentais, Igor explica que a pobreza extrema da Nigéria é fruto do imperialismo britânico. Não cita Sani Abacha, creio eu, por uma total independência ideológica. Evidentemente que Igor não se preocupa com detalhes pequenos da caminhada democrática nigeriana, principalmente se o detalhe é justamente o financiamento comunista aos generais que lá fizeram o dever de casa.

Continua o nosso personagem dostoiévskiano:

“A guerra deles é justíssima, mas eles pensaram nisso quando resolveram empregar a violência, o ódio e a difamação como meios para isso? Que tipo de exemplo de sociedade inclusiva eles querem dar?”

Igor quer nos trazer o sentimento de nobreza que acompanha o rebanho dos ofendidos, não somente respaldando a revolução que acomete a mente de qualquer adolescente, mas também nas explicações que abraçam a famigerada “sociedade inclusiva”. Igor, o idiota útil, pelo seu próprio discurso, nos fornece dados inequívocos de que ele próprio participa do descalabro moral que perdura sobre a loucura da esquerda acadêmica. Porém agora ele, o alvo, tenta de todas as formas trazer para si a conscientização propagandeada por seus opositores.

Continua o conscientizado Igor:

“Mesmo que vocês continuem nessa empreitada covarde o tempo que for, eu não vou deixar de ouvir Emicida, Rashid e Projota, não vou me afastar dos meus amigos negros e mestiços, nem vou deixar de me relacionar com alguma menina por ela ser negra ou mestiça como eu já fiz várias vezes. Eu não vou perder a confiança sobre a pessoa que eu sou nem um segundo. Ao usar o ódio, a ameaça e a violência, vocês deslegitimam tudo aquilo que foi conquistado em termos de “igualdade de fato” por outros grupos negros que não enxergam a vida como “nós” e “eles”. É uma covardia o que fizeram comigo.”

A tática de Igor é querer se juntar aos detratores por meio da identificação do fim almejado. É querer dizer que seus algozes formam uma frente radicalizada da estupidez, contudo ainda estúpida. Westphal talvez não tenha tomado nota sobre as circunstâncias que fazem de seu ato uma bandeira política, substanciada na “coletividade” similar aos belos campos de mamíferos que perduram na antidemocrática Nigéria. Certo é que, não obstante a minha crítica a qualquer patrulha intelectual, Igor se mostra injustiçado não só pela brincadeira ofensiva (porque ofende uma minoria inqualificável, um ícone, uma simbologia de pobreza oriunda da “opressão dos brancos imperialistas”), mas também por coadunar inocentemente com o caráter lunático do esclarecimento ideológico.

O idiota útil moderno, claramente ligado às características do personagem de Dostoiévski, é pior ainda que a estirpe que lhe deu a fama. Esta, no passado, assumiu sua função deletéria perante o grande teatro democrático das repúblicas socialistas. Igor, do contrário, bate o pé e faz biquinho: sou como eles, mas não quero ser por eles julgado. Ora, ainda lhe resta tempo para perceber que a coerência de qualquer discurso contrário à histeria conscientizada vai do liberalismo clássico ao conservadorismo cristão.

Igor, decida-se.