Novamente o Natal

Pululam entre ateus e agnósticos alegações das mais diversas sobre o significado natalino, sua relação pagã ou sua ineficiência em reafirmar a imagem de Jesus Cristo. Como que um gatilho que dispara o desespero das reafirmações, Jesus Cristo, no Natal, novamente é condecorado mera ficção, personagem de lendas, homem como qualquer outro ou, até mesmo, um homem iluminado. Mas essa recorrência na época natalina tem seu motivo evidente: conquanto o Natal é uma festa eminentemente cristã, submetida aos critérios inevitáveis da família cristã, o não cristão se vê então deslocado ante a celebração que lhe traz também bons momentos de prazer. Sim, porque o incrédulo em Cristo quer estar da festa, sem participar da festa. Quer festejar a data sem o Deus que tem a honra; precisa satisfazer a ansiedade festiva mediante a negação de Cristo, ainda que isso signifique negá-lo pelas vias do conhecimento que outrora se tinha na sinceridade religiosa. Nisso, não há via mais sujeita ao constrangimento que o ex-cristão que deseja perverter o sentimento natalino e tergiversar sobre o sentimento familiar inevitavelmente vinculado à rememoração da pessoa de Jesus Cristo. O incômodo é recorrente. A inquietação é sempre retornada às vésperas da festa que não abre espaço a qualquer subjetivismo filantrópico, justamente porque a rememoração não se pauta na futilidade humanista da caridade que se pretende obrigatória, mas na Fé que é sustento da esperança. A união em Cristo, se familiar ou na solidão, é irresistível até mesmo àquele que um dia provou dessa paz indescritível. O esperneio, portanto, talvez nos indique que a loucura do agnosticismo procede da experiência cristã: daí que o agnóstico tenha a mesma base discursiva do irreligioso que um dia abraçou a espiritualidade concreta.

Pois não nego que o agnóstico, subsidiado no sarcasmo amador dos ateus, tenha um dia conhecido a espiritualidade, podendo depois contradizê-la no fraquejo do espiritualismo humanista, com roupagem meramente cristã, tal qual qualquer traquejo espiritual que parasita o cristianismo. Mas não falo somente da religião, pois que a cristandade sustenta a comunhão familiar, a qual é indissolúvel se Jesus Cristo está no centro. Disso é que o agnosticismo sempre nas datas cristãs tende a justificar a comunhão familiar por meio da descaracterização da data, ou na inversão dos motivos pelos quais a comemoração é realizada.

A perda do sentimento cristão é o princípio que se observa entre os indiferentes. Há tempos não via as famílias cristãs tão unidas não só na festividade, mas ao Cristo festejado, o qual não foi esquecido. É esse o clamor secular: que Jesus Cristo seja esquecido, e que a mera comunhão seja respaldo suficiente à ceia natalina. A união familiar em Cristo é ela mesma o alicerce da memória natalina, da Bíblia recitada, da oração sincera e da paz que renega as declarações de paz. A contradição se matura de Natal em Natal: o cristão não pede a paz corrupta, porque a paz de Cristo não necessita ser condecorada. O cristão não implora pela caridade, porque a caridade cristã não aflora somente nos momentos propensos ao conhecimento do público.

O cristão antes da comemoração familiar já na solidão rememora o Evangelho, já antes da festa reverencia o Deus revelado aos homens. Nas festas de Natal, o cristão participa mediante o motivo que antecede a festividade. Significa dizer: a festa pela comunhão familiar, aquela que incomoda o agnóstico, é tão somente consequência da comunhão da alma, solitária, cujos fundamentos são os joelhos dobrados a Cristo. E nisso o desespero do ex-cristão é ainda maior: como pode ele refrear a sinceridade que se demonstra a si mesmo, sem expectadores e cujas palavras de oração são proferidas a um Deus ignorado? Eis então que a paz, esperança e amor vazios são constantemente proclamados, jogadas ao vento e impelidos pela data que não se festeja. Ou ainda, é muito bem festejada, mas ausente o nome de Jesus Cristo nascido em lugar da truculência que pretende reafirmar uma preocupação basicamente cristã.

Não tenho mensagem de Natal alguma, porque desnecessária. Não tenho como expor o sentido histórico e religioso do nascimento de Jesus Cristo, relembrado nesta data, contudo nunca novidade ao cristão sincero. Nestes tempos em que o Evangelho é ora deturpado pelo carisma fajuto das profecias deterministas, ora mascarado com a suavidade e destreza de palestrantes que só enganam a bobos e ingênuos; nos tempos da antirreligiosidade espiritualista, é certo que a mensagem natalina não deve fugir da razão última da celebração, a alegria da família cristã unida sob o Verbo. Por isso, a advertência de Chesterton é sempre atual:

“A verdade é esta: que neste episódio da natureza humana, que é o Nascimento, há um caráter individual e peculiarissímo, psicologicamente substancial que não se pode interpretar como uma mera lenda ou a simples história da vida de um grande homem. Porque não incluía nossas mentes, sistematicamente, para a grandeza, para essa admiração empolada e exagerada dos reis e dos deuses a que, em todas as idades, encontrou propícia a mente humana, senão que é alguma coisa substancial em nós, que nos surpreende de dentro do nosso próprio ser, como se, explorando a nossa habitação espiritual, déramos, de pronto, com um aposento ignorado, até então, do qual saíra uma clara luminosidade. Alguma coisa que, ainda aos mais endurecidos corações, atraiçoa, com uma irresistível atração para o bem. Alguma coisa que não está feita com o que o mundo chamaria “matéria forte”. Alguma coisa que é tudo o que existe em nós de ternura eterna. Alguma coisa que é a palavra quebrada e a razão perdida, que se concretizam e se fazem positivas. Alguma coisa, finalmente, pela qual os reis exóticos vieram de um país distante, porque os pastores deixaram suas correrias na montanha e a noite e a caverna imperaram sós, recebendo algo que era mais humano que a Humanidade mesma.

[…]

Qualquer agnóstico ou ateu cuja infância conheceu um verdadeiro Natal sempre faz dali por diante, goste ou não, uma associação mental entre duas ideias que a maior parte da humanidade deve considerar como distantes uma da outra: a ideia de um bebê e a ideia de uma força desconhecida que sustenta as estrelas.” (Chesterton, The Everlasting Man)

Igor Westphal, o idiota útil

Há tempos não lia uma entrevista qualquer que me instigasse perder alguns minutos de escrita. Mas o caso é exemplar. O Idiota, de Doistoévski, é obra que se tem enquanto construção perfeita do personagem fictício. Se o escritor novato tiver por limite literário a ingenuidade grotesca de Príncipe Míchkin, estará em boas mãos. A [teórica] dissimulação do autor ante suas crises epilépticas mescla-se com a perspicácia da ignorância ameninada, então claramente infantil. A infantilidade do personagem percorre a grandeza da narrativa: são indissociáveis e permitem ao leitor adentrar no mundo do honestamente ingênuo, da pureza de coração que não se sabe inventada.

Igor Westphal é um contemporâneo idiota útil. Ao ser rechaçado por sua graciosidade, justamente por considerarem o acadêmico um preconceituoso racista, Igor se debruça prontamente perante a estrutura discursiva que encorajou sua inefável sentença. Ou seja, Igor, considerado racista, bajula o martelo que lhe vai à cabeça na esperança de que venham a entregar-lhe a carta de absolvição. Westphal portanto não se rende ao constrangimento. Mais vale sua reputação no status quo do academicismo engajado.

Na entrevista, diz o útil:

“O meu único intuito foi que as pessoas conversassem sobre aquele tema. Estimular o pluralismo de idéias. Pessoalmente, creio que a referida foto tem muito mais a ver com a chacota que o grupo de humor nigeriano quis fazer da situação de pobreza extrema fruto das tentativas de secessão por meio de guerras civis entre etnias diferentes e pelos séculos de exploração britânica, independência tardia e democracia instável. “

Como qualquer acadêmico limitado na percepção vitimista da história, a mesma percepção unanimemente ensinada nas escolas fundamentais, Igor explica que a pobreza extrema da Nigéria é fruto do imperialismo britânico. Não cita Sani Abacha, creio eu, por uma total independência ideológica. Evidentemente que Igor não se preocupa com detalhes pequenos da caminhada democrática nigeriana, principalmente se o detalhe é justamente o financiamento comunista aos generais que lá fizeram o dever de casa.

Continua o nosso personagem dostoiévskiano:

“A guerra deles é justíssima, mas eles pensaram nisso quando resolveram empregar a violência, o ódio e a difamação como meios para isso? Que tipo de exemplo de sociedade inclusiva eles querem dar?”

Igor quer nos trazer o sentimento de nobreza que acompanha o rebanho dos ofendidos, não somente respaldando a revolução que acomete a mente de qualquer adolescente, mas também nas explicações que abraçam a famigerada “sociedade inclusiva”. Igor, o idiota útil, pelo seu próprio discurso, nos fornece dados inequívocos de que ele próprio participa do descalabro moral que perdura sobre a loucura da esquerda acadêmica. Porém agora ele, o alvo, tenta de todas as formas trazer para si a conscientização propagandeada por seus opositores.

Continua o conscientizado Igor:

“Mesmo que vocês continuem nessa empreitada covarde o tempo que for, eu não vou deixar de ouvir Emicida, Rashid e Projota, não vou me afastar dos meus amigos negros e mestiços, nem vou deixar de me relacionar com alguma menina por ela ser negra ou mestiça como eu já fiz várias vezes. Eu não vou perder a confiança sobre a pessoa que eu sou nem um segundo. Ao usar o ódio, a ameaça e a violência, vocês deslegitimam tudo aquilo que foi conquistado em termos de “igualdade de fato” por outros grupos negros que não enxergam a vida como “nós” e “eles”. É uma covardia o que fizeram comigo.”

A tática de Igor é querer se juntar aos detratores por meio da identificação do fim almejado. É querer dizer que seus algozes formam uma frente radicalizada da estupidez, contudo ainda estúpida. Westphal talvez não tenha tomado nota sobre as circunstâncias que fazem de seu ato uma bandeira política, substanciada na “coletividade” similar aos belos campos de mamíferos que perduram na antidemocrática Nigéria. Certo é que, não obstante a minha crítica a qualquer patrulha intelectual, Igor se mostra injustiçado não só pela brincadeira ofensiva (porque ofende uma minoria inqualificável, um ícone, uma simbologia de pobreza oriunda da “opressão dos brancos imperialistas”), mas também por coadunar inocentemente com o caráter lunático do esclarecimento ideológico.

O idiota útil moderno, claramente ligado às características do personagem de Dostoiévski, é pior ainda que a estirpe que lhe deu a fama. Esta, no passado, assumiu sua função deletéria perante o grande teatro democrático das repúblicas socialistas. Igor, do contrário, bate o pé e faz biquinho: sou como eles, mas não quero ser por eles julgado. Ora, ainda lhe resta tempo para perceber que a coerência de qualquer discurso contrário à histeria conscientizada vai do liberalismo clássico ao conservadorismo cristão.

Igor, decida-se.