Uma breve história da Reforma

Geoffrey Blainey em “Uma breve história do mundo”:

A Igreja Católica se reexaminou criticamente após Lutero e Calvino terem erguido suas bíblias em sinal de protesto; proibiu os principais abusos, alguns dos quais não foram tão freqüentes quanto Lutero havia argumentado. A venda de indulgências por cobradores profissionais de receitas foi reprimida pelo Concilio de Trento em 1562. Os bispos não podiam mais ficar ausentes de suas dioceses por longos períodos, a música e a liturgia, quase tão diversas quanto as do protestantismo, foram mantidas sob controle. A nova arquitetura barroca, que floresceu principalmente na Espanha e nas Antilhas Espanholas, tornou-se uma nova afirmação de fé dentro de um catolicismo rejuvenescido e disciplinado. Seminários foram abertos para treinar o jovem clero. Novas ordens religiosas trouxeram propósito à Igreja. Os jesuítas e os capuchinhos juntaram-se às antigas ordens católicas, enviando missionários às novas terras.

Após 40 anos, a maré virou contra os protestantes. Na Europa central, a maioria dos governantes, acreditando que todas as pessoas deveriam pertencer a uma religião da escolha deles, começou a perseguir os protestantes: praticar uma fé dissidente era praticar traição. As base dos protestantes estavam agora confinadas ao noroeste da Europa: à Escandinávia, onde sua vitória era total, à Inglaterra e à Escócia, à maioria dos principados do norte da Alemanha, à Holanda e a certas cidades e cantões da Suíça. De todas essas terras, a fé católica foi banida. Da mesma forma em terras católicas, e estas contavam com a maioria da população da Europa, o culto de qualquer outra fé foi banido.

As primeiras décadas da Reforma se assemelharam aos primeiros anos do Islã: os reformadores dependiam ao mesmo tempo da espada e da palavra. A mensagem de Lutero não poderia ter conquistado um grande território em ambas as margens do Báltico sem o apoio de príncipes e de regimentos. Calvino teve sucesso somente porque foi apoiado pelos governantes da república suíça de Genebra. Na França, sua doutrina, fracassando em conquistar o monarca, começou a perder suas bases fortes no sul e no oeste do território. Em Paris, no dia de São Bartolomeu, em 1572, aproximadamente 20 mil protestantes foram massacrados. Enquanto os protestantes tinham a tendência de centralizar o poder na maioria das terras onde tinham sido vitoriosos ou onde os governantes deixaram que fossem vitoriosos, eles também iniciaram uma corrente democrática. O calvinismo criou um sistema de governar a igreja que garantia influência aos membros superiores da congregação. Como o luteranismo, pregava que a Bíblia, e não a Igreja, era o tribunal de apelação de última instância, e todos os cristãos devotos e inteligentes podiam apelar para a Bíblia. No calvinismo, as pessoas comuns tinham mais influência do que em qualquer congregação católica.

No final, os protestantes não fizeram nenhum avanço ao sul dos Alpes ou ao sul dos Pireneus. Seu triunfo estava nas distantes margens do Atlântico. Enquanto a Espanha se recusava a deixar que judeus, muçulmanos e protestantes emigrassem para suas novas colônias, Inglaterra e Holanda permitiam que os dissidentes protestantes partissem para as novas colônias americanas. Em Boston e outras cidades da região da Nova Inglaterra, a Reforma Calvinista alastrava-se em chamas ardentes. O surgimento dos Estados Unidos, sua cultura característica, seu fomento inicial de debates intensos e sua democracia recente provavelmente devem tanto aos reformadores protestantes quanto a qualquer outro fator.

Inicialmente, a Reforma parecia ser um golpe para as mulheres. Provavelmente, as únicas instituições do mundo ocidental nas quais as mulheres tinham poder de próprio direito eram o convento e a monarquia. As mulheres administravam os conventos femininos e, quando o convento tinha propriedades valiosas na cidade, a mulher que estivesse encarregada desse bem tinha um poder ainda maior; assim, em Zurique, a abadessa do convento beneditino ajudava a administrar a cidade. O fechamento dos poderosos conventos na maioria dos Estados que eram agora protestantes indiretamente reduziu o poder das mulheres. Havia só uma compensação: a maioria das igrejas protestantes acreditava que o máximo de pessoas possíveis, homens ou mulheres, deveriam ler a Bíblia, e isso levou à abertura de mais escolas que ensinassem a ler e a escrever.

A taxa de alfabetização das mulheres começou a crescer com firmeza. A Prússia, uma base luterana, tornou a educação compulsória para os meninos e meninas em 1717. Na cidade holandesa de Amsterdã, em 1780, um extraordinário número de 64% das noivas assinaram a certidão quando se casaram, enquanto as outras desajeitadamente marcavam com uma cruz o lugar onde sua assinatura de assentimento era exigida. Na Inglaterra, cerca de 1% das mulheres sabia ler no ano 1500, mas esse número havia aumentado para 40% em 1750. Tardiamente, os países católicos acabaram seguindo essa tendência revolucionária. A Igreja russa, ao contrário, voltou suas costas para a alfabetização. Nenhuma igreja cristã em nenhuma outra nação tinha tantos devotos quanto a Igreja Ortodoxa na Rússia, mas seus sacerdotes tinham pouca educação e muitos eram mais habilidosos em recitar de memória, ou de esquecimento, do que em ler as escrituras. A autoridade do sacerdote foi estabelecida porque poucos em sua congregação podiam ler a Bíblia. A Bíblia completa, com Antigo e Novo Testamento, só se tornou acessível livremente na atual Rússia após 1876.