“A Inquisição”, de G. Testas e J. Testas

Iniciei nesta semana o livro A Inquisição, de G. Testas e J. Testas. A obra é magnífica e precisa ser lida com todo o cuidado, principalmente pela circunstância inegável de que os autores não tentam antecipar o objeto de estudo aos elogios ingênuos de quem busca um revisionismo cômodo e ilusório da doutrina católica. “Doutrina” porque o estudo é inseparável da vivência medieval. As heresias, outrora limitadas geograficamente e facilmente identificadas pelos trejeitos de seus possuidores, foram então combatidas no seio cristão em detrimento do pagão, não cristão, desincumbido de preocupações doutrinárias, ainda que pressionado a seguir os costumes majoritários. O imoral, portanto, não tinha espaço. Ocorre que a obra A Inquisição é utilizada como instrumento de revisionismo histórico, no sentido de amenizar a tratativa inquisitória, suas condenações e suas formalidades intrínsecas na análise das provas, o que a mim parece ser um erro incontornável. Ora, é justamente a realidade dos fatos (e não sua amenização premeditada) que faz da inquisição verdadeiro esquema processual que antecede ao penalismo moderno, seja na coleta de provas, seja na forma pela qual a condenação por fim era proferida. Um dos capítulos, o qual irei comentar em separado, trata historicamente do processo inquisitivo, o qual claramente influenciou o processo penal atual e, ao invés de condenar deliberadamente, método recorrente no período medieval, antes serviu para abalizar as condenações e a busca da verdade. A inquisição serviu para impedir as condenações desmotivadas e sem respaldo probatório, impedindo também que cardeais atuassem à revelia do sentimento papal. Os excessos de fato ocorridos foram excessivos na perspectiva atual. À época, significou o alívio em face da barbárie do absolutismo monárquico, convergente muitas vezes ao secularismo e outras vezes mais submetido aos caprichos dos governantes contrários à ordem cristã. De início, os autores fazem questão de registrar também que os inquisidores sofreram resistência da população, principalmente pelos métodos de averiguação herética. Ora, nada mais sadio que dentre um povo buscar pela heresia que se confirma e que permite, inclusive, penitências brandas, educativas e espirituais. Mas como, se a heresia era uma preocupação da Igreja? A resposta é simples: estava sujeito à inquisição somente os declaradamente cristãos. A inquisição levou à fogueira os teimosos e perversos, mas devemos antes nos precaver de antecipar aos estudos o conceito atual da inquisição, aquele em que “milhões de pessoas foram queimadas vivas”. Não há erro mais grotesco… e apenas não é tal erro pior do que aquele que tenta fazer da inquisição uma fantasia de beleza descomunal, um exercício mais puro das virtudes espirituais. O livro registra, e também ensina. Se lemos como alunos, aprendemos como meros amadores sufocados pela balbúrdia em torno da “Idade das Trevas”. A correlação entre a inquisição e o período pós-Revolução Francesa pode ser feita pelos critérios atuais: se a preocupação é o número de cadáveres, a inquisição comparada às revoluções modernas foi brincadeira de criança.

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