Intelectuária

J. O. Meira Penna em “A Ideologia do Século XX”:

“Mediante a exploração do mercado mundial, a burguesia tem dado um caráter cosmopolita à produção e ao consumo de todos os países. Com grande mágoa dos reacionários, ela puxou de sob os pés da indústria a base nacional onde se sustentava. As antigas indústrias nacionais foram destruídas ou estão sendo continuamente destruídas. São suplantadas por outras indústrias cuja introdução se converte em questão vital para todas as nações civilizadas; por indústrias que já não empregam matéria-prima indígena mas matérias-primas oriundas das regiões mais longínquas do mundo; indústrias cujos produtos não só se consomem no próprio país mas em todas as partes do mundo. No lugar das antigas necessidades, satisfeitas com produtos nacionais, surgem necessidades novas que reclamam, para sua satisfação, produtos dos países mais afastados e dos clientes mais diversos. No lugar do antigo isolamento e da autarquia das regiões e nações, se estabelece um intercâmbio universal, uma interdependência universal das nações. E isso se refere tanto à produção material quanto à intelectual. A produção intelectual de uma nação se converte em patrimônio comum de todas. A estreiteza e o exclusivismo nacionais tornam-se cada vez mais impossíveis; e a partir das numerosas literaturas nacionais e locais se forma uma literatura universal” .

Adivinhem de quem é essa citação, com ênfase por nós acrescentada! Pois bem, é de Karl Marx. O próprio. Figura no início do Manifesto Comunista de 1848. Chamo particularmente a atenção para a frase sobre a interdependência universal das nações, interdependência que Marx, obviamente, considera irreversível. Quando mantenho que a característica principal de nossa intelectuária esquerdista é a ignorância e a boçalidade, não estou falando em vão. Estou bem certo que a maior parcela “marxista” desta nação nunca leu Marx. Se o leu, tresleu. E se tresleu, tal é a dose de obnubilação emocional que a afeta, que interpretou as idéias justo ao contrário do que demonstra expressamente o texto. Como pode, efetivamente, a teoria da “dependência”, prioritariamente defendida pelos marxistas nativos, se sustentar diante de argumentos tão incisivos, tão claros, tão positivos e tão empiricamente comprovados quanto os dos economistas de variada tendência, inclusive Marx, que anteciparam a internacionalização e privatização irreversível da economia e a coexistência mundial das culturas? 

No contexto da ideologia brasileira que se desenvolveu a partir de 1930 e, mais expressamente, após o fim da II Guerra Mundial, como reflexo dos movimentos de opinião que se registrara na Europa e no que então se convencionou chamar de “Terceiro Mundo” — cabe colocar com precisão o conceito de “dependência” e o de “imperialismo”, ao qual se vincula o primeiro. Atrevo-me assim a abordar o tema que tem obtido enorme circulação, porém mais dirigido ainda do que qualquer outro pelo sopro perverso da ideologia. Faço-o na plena consciência de que, muito embora haja o socialismo em nossa terra sofrido um golpe mortal com os acontecimentos de 1989/91, permanecem seus postulados em estágio subliminal, levantando obstáculos políticos-psicológicos (ou psicossociais, como se diz em outro vocabulário) à desejada abertura da economia brasileira. 

Pois o fato é que o imperialismo e a dependência, como noções teóricas, alcançaram uma enorme importância na vulgata marxista, muito embora não hajam merecido qualquer desenvolvimento na obra do próprio Marx. É certamente um fenômeno que justificaria a observação do velho Marx de não ser e temer os “marxistas”. O conhecimento das escrituras de Marx sobre a matéria relevante é difícil e indigesto. Creio que muito poucos terceiro-mundistas se deram ao trabalho de examiná-las.