A caridade

Alguns leitores questionam sobre o que escrevi há algum tempo: “Nesse ponto, o cristão sempre deve desconfiar dos discursos sociais, maquiados na fertilidade imaginativa de que cabe ao cristão, além de propagar as Boas Novas, também propagar a redistribuição de renda e a consciência política. O cristão submetido a esse prisma ativista merece acompanhamento permanente e constante para que se registre a possibilidade quase iminente do afloramento das loucuras socialistas. Iminente conquanto o mero interesse do cristão ao discurso social, quando mistura o sangue de Cristo com a groselha assistencialista, já nos indica sua fraqueza de espírito e o andar dúbio de sua visão da mensagem do Evangelho.” A frase desagradou a alguns poucos e a outros muitos acabou por gerar a dúvida  acerca desse interesse no social.

Não costumo dar explicações sobre o que escrevo. Penso que se as palavras são claras, e se não trouxe ali enredo folclórico algum, cabe ao leitor deduzir o óbvio ou, melhor, tentar adequar o discurso à sua visão particular, como nos romances. Mas acho por bem esclarecer que a dubiedade, o andar capenga do cristão interessado nas questões sociais se dá por uma fraqueza conceitual. O caráter, nesse ponto, é mero detalhe e não interfere na decadência espiritual. Isso porque por vezes o cristão interessado no assistencialismo o faz respaldado na imagem pietista que acompanha a caridade de Estado. Em regra, o cristão ao mesmo tempo em que implora por caridade também implora para que o Estado assuma uma posição de ativismo assistencialista.

Heraldo Barbuy, na magnífica obra Marxismo e Religião, esclarece que o caráter religioso do discurso marxista interfere diretamente na visualização das virtudes cristãs. Por isso é que, em sendo indissociável esse “sentimento de consciência social” da mensagem messiânica propagada pelo marxismo, o cristão interessado nas questões sociais se veja obrigado a atuar não somente na prática, mas também na difusão e propagação da “importância de nos preocuparmos com as questões sociais”. Em sendo uma estrutura de pensamento inerente à sociologia, atrelada às ciência sociais (as quais são academicamente inúteis), não raro vemos juristas, psicólogos, literatos e intelectuais de toda estirpe apaixonados pela práxis da caridade compulsória. Não faço aqui reducionismo: o trato humano no âmbito profissional costuma cativar humanistas das mais diversas formas, inclusive quando o “sentimento pelas questões sociais” significa infectar com o discurso socializante a fé cristã e, disso, todo o compêndio teológico que serviu para evitar a deflagração dos erros que emanam da valorização das virtudes do homem. Se entende o cristão que as virtudes são justamente a exteriorização do Espírito, impossível vinculá-las ao mérito humano que, pela Queda, traz consigo os vícios do inevitável pecado.

Porém as “preocupações com as questões sociais” negam a contradição homem-Espírito, pelo que transfere ao homem os benefícios da caridade por si só considerada, ou seja, a caridade que emana de um dever obrigatório de conserto e manutenção social. Se alguns alegam que esse sentimento vem da tentativa de instauração, pelo homem, do Reino de Deus na Terra, frase comumente utilizada por liberais e outros demagogos, digo eu que para além desse sentimento há também a frivolidade do dever cívico de difundir o amor cristão por meio da caridade que se pretende obrigatória e, pior, meramente humana. Ora, não nos foi dado o dever de difundir “as obrigações da caridade”, ou de explicar ao mundo a nossa finalidade humana, mas sim de espalhar o Evangelho enquanto missão indissociável da própria espiritualidade. Se a caridade individual, o amor cristão, se o perdão decorre do sangue de Cristo, o contrário não é verdadeiro: a caridade pela caridade, mediante uma “conscientização” meramente humana e pietista, por vezes nega o Evangelho quando cuidar das viúvas significa adestrá-las também à conscientização política e social.  Ora, essa é a perversão maior e mais danosa ao Evangelho; é a paixão e excitação do erro humano, do orgulho e perversidade intrínsecos do humanismo. O dever caritativo cristão é prática anônima, obviamente contrária ao ativismo da conscientização. O cristão que entende ser necessário conscientizar a caridade, automaticamente contradiz o anonimato e antecipa ao Evangelho o discurso social. Espiritualmente, nada significa.