Disenlightenment Age

A tese segunda a qual a ciência de Galileu corroborava a superstição anticientífica ganha força em O Século do Nada, de Gustavo Corção, principalmente pelo espaço que vem sendo dado à análise contemporânea de desconfiança do Iluminismo. Corção, na década de 50, antecipou portanto uma corrente histórica que, se ainda ignorada nas academias brasileiras, já bem conseguiu definir que Galileu não foi condenado por suas afirmações científicas, mas pela atribuição religiosa ao heliocentrismo enquanto única tese verdadeira, principalmente em afronta direta à Igreja de Roma no que concerne ao método aristotélico, à época vigente. Inclusive por afirmações doutrinárias, a repreensão ao heliocentrismo foi clara, uma vez que Galileu a afirmava [extracientificamente] ser a única explicação viável para o cosmos, o que já à época parecia ser uma constatação absurda. Na dica de que o heliocentrismo antes demonstrava seu teor de eminente confronto, Galileu foi condenado não por seus estudos científicos, mas por suas opiniões relativas à doutrina, por vezes subsidiadas em teses científicas, sobre a qual não lhe cabia qualquer palavra.

500 anos depois, o cientificismo, conquanto tentou atribuir à ciência o caráter de entidade supramaterial, foi elevado às categorias da fé e da defesa da Ciência enquanto estrutura de pensamento, ação e  moral. Nesse sentido, a ciência com “c” maiúsculo tem seu motivo: a entidade científica transformada em autoridade por si só e os cientistas, transformados em baluartes do progressismo indefinido e submersos na autoridade humana que se conhecia somente no âmbito religioso. O cientificismo é por muitos considerado anticiência e, por outros, uma estrutura discursiva indissociável do ceticismo contemporâneo. Assim como ocorre com diversos movimentos que avocam os interesses de um grupo específico, ainda que seus discursos sejam antagônicos, o cientificismo proclama a ansiedade da comunidade científica ao tempo em que imputa aos cientistas características marcadamente ativistas. A idealização do “cientista eminentemente ateu” ganha força não só pela destreza do discurso – “todo cientista é ateu e, se não declarado, não o faz por uma opressão religiosa” -, mas também pela destreza da imagem do cientista que, para além da ciência, é também um intelectual ávido ao “Conhecimento”. Sim, o conhecimento transformado em entidade, e como tal objetivado na elevação metafísica de busca de per si, a qual se origina na divinização da intelectualidade e da desmistificação dos mistérios aos poucos revelados. Ou seja, gnoseologia. O cientificismo trava cogitações básicas ao ativismo político, mas não só: também instiga ao homem médio a necessidade de atrelar o conhecimento à própria existência e à causa máxima da vontade intelectual e do desejo virtuoso do aprimoramento individual.

Mas a situação exposta por Corção é mais grave, pois cativou e continua a cativar os corações de presbíteros, padres, pastores e bispos. O Século do Nada é uma gigantesca denúncia à infiltração lenta e degradante da neutralidade moral, em certas circunstâncias corroborada pela neutralidade a que se pretende a formulação científica enquanto explicação máxima da metafísica. Corção então nos avisa: a Igreja não foi enganada pela dissimulação doutrinária de Galileu, travestida em proposições de ciência, ao tempo em que se questiona se a condenação de Giordano Bruno foi deveras excessiva, mas não se a condenação não deveria ter ocorrido. Enquanto cristão declarado, Bruno alegou doutrinas estranhas no alicerce do método científico, na revisão doutrinária que não lhe era concernente e afirmou, em teor doutrinário, argumentos aparentemente científicos contudo contaminados pelo universalismo hermetista.

A excomunhão do Padre Beto deve ser entendida pelas lentes apresentadas por Corção.