Antidemocracia

Logo após a leitura de O Século do Nada, de Gustavo Corção, peguei-me repensando acerca da excomunhão do [ex-]Padre Beto. O ato nos serve de grande ensino, principalmente se queremos abalizar os limites pelos quais o Estado conseguiria então revisar uma decisão estritamente religiosa, pautada no cânone e, inclusive, elogiada por protestantes. Sim, a comunidade protestante, em observação ao ato de excomunhão de Beto, relegou para si também o desfecho das decisões que tentam refrear a corrupção do pastorado patentemente neopentecostal. Dar-se-ia então o respaldo nos interesses seculares que interferem na sanidade espiritual, porquanto não nos faltam exemplos de como a “nova teologia”, a “revisão espiritual dos intelectuais da fé” tem adestrado instituições inteiras ao silêncio ensurdecedor. De sorte que Beto, o excomungado, tergiversa na sua atribuição espiritual e insiste, mediante declarações em palestras e encontros, que fora injustiçado por uma “decisão antidemocrática”. Ora, a democracia na hierarquia espiritual, ainda que se entenda que o sacerdócio é individual e intransferível, a democracia que permitiria ao néscio a utilizar seu cargo para a difusão de suas loucuras, essa democracia merece ser considerada como um discurso modernista, contrário à vivência cristã e inevitavelmente deletéria à espiritualidade. A democracia suscitada, então sempre utilizada como uma acusação da perversidade do cristianismo, seria aquela que daria azo ao louco em dizer coisas plenamente anticristãs, dentro do âmbito cristão, cuja autoridade cativa os cristãos. O que seria então o ato antidemocrático, argumentado por Beto? A mera reprovação devidamente fundamentada, respaldada no bom-senso e na intransigência do apóstolo Paulo aos falsos profetas sempre presentes, e que sempre brotam dos sentimentos mais pueris e inocentes. Corção denunciou o falso pacifismo, aquele que em nome da paz realizou acordos com o nazismo e que ignorou a militarização antecedente à guerra. Por que haveria os cristãos de ignorarem o purismo insensato dos comunistas que nos púlpitos escarram sobre a autoridade de Cristo, utilizando-o como um ativista político de “mudança em direção ao Reino de Deus na Terra”? Nesse ponto, o cristão sempre deve desconfiar dos discursos sociais, maquiados na fertilidade imaginativa de que cabe ao cristão, além de propagar as Boas Novas, também propagar a redistribuição de renda e a consciência política. O cristão submetido a esse prisma ativista merece acompanhamento permanente e constante para que se registre a possibilidade quase iminente do afloramento das loucuras socialistas. Iminente conquanto o mero interesse do cristão ao discurso social, quando mistura o sangue de Cristo com a groselha assistencialista, já nos indica sua fraqueza de espírito e o andar dúbio de sua visão da mensagem do Evangelho. Utilizam a carta de Tiago e revelam a opressão do dominador, e esquecem que o César de nossos tempos é o Estado que tenta, a todo custo e modo, tributar, impedir e dificultar qualquer manifestação religiosa. Não só querem dar a César o que é de César, mas fazer do cesarismo o provedor máximo da caridade outrora uma deliberação da consciência individual.  Sobre a faceta democrática desses “cristãos sociais” é que recairá também a responsabilidade desse teatro que cresce exponencialmente por todo o Ocidente, porque é deles que emana a petição por mais Estado, ainda que isso signifique o prejuízo à sua fé. A apostasia (essa palavra deveria ser mais utilizada) de Beto veio dos fatos, mas tem seu valor simbólico: a inevitabilidade da confusão espiritual quando o cristão tenta sobrepujar ao Evangelho a sordidez da popularidade assistencial.