Heresia e o [ex-]padre Beto

A heresia é um ato declarado e de entendimento público naquilo que fundamenta o trato cristão às coisas cristãs. Por isso a heresia somente se dá no campo doutrinário, que acaba por se estender também ao campo da teologia quando essa mesma teologia decorre da doutrina inserta nas Escrituras. A utilização equivocada do termo “heresia” se dá mais por um reflexo da famigerada “obscuridade medieval” do que de uma análise se o absurdo outrora pregado decorre ou da mera opinião ou de uma tentativa [in]direta de alteração doutrinária; o revisionismo teológico que se instaurou nas correntes liberais do cristianismo. Significa dizer que a declaração herética é assim considerada por se tratar de uma gravidade que interfere na própria vivência cristã e que culmina na disseminação de sentimentos de afastamento do homem de Deus e do Evangelho. Por esse mesmo motivo é que a idealização do “evangelho místico”, baluarte da Teologia da Libertação, bem como da renomeação [mística] de “natureza criada” para “a Natureza enquanto entidade”, são tendências teológicas que se já enfraquecidas também perseveram nos seminários cristãos. Ainda que tentem proclamar a aparência de mero “entendimento universal do divino”, não sem motivo tais gracejos contrários ao espírito cristão têm sido considerados também como uma motivação doutrinária e de influência teológica. Ou seja, nisso está a heresia, porquanto incentivadora da formulação doutrinária estranha aos Evangelhos e que tem sua origem muitas vezes no gnosticismo dos primeiros séculos. O retorno intermitente, mas permanente, das heresias gnósticas se dá por uma readequação conceitual que costuma andar pelos menos trilhos da universalização indistinta da mensagem evangélica em detrimento da Redenção de Cristo. A luz ao fim do túnel, a mesma luz que cativa as mentes tendentes à frivolidade gnóstica, se mostra então o desfiladeiro que conduz o cristão à negação da doutrina fundamental e da fé, à tergiversação da mensagem salvífica e, por fim, à rejeição de toda e qualquer doutrina respaldada no Evangelho. Se a heresia antes demonstrava um manifesto subversivo meramente periférico e irrelevante, depois é considerada a doutrina mesma que irá substituir uma visualização ultrapassada da Ressurreição de Cristo em nome dos novos aspectos que a igreja primitiva antes não conseguia mensurar.

O trato dessa instigação herética costuma acompanhar o sujeito que munido da autoridade também fornece a idealização do “homem sensível aos problemas atuais”. Beto, ainda que considerado padre excomungado, deve ser considerado ex-padre naquilo que lhe apraz em seu orgulho herético, não obstante contaminado pelas ideologias. A censura por ele sofrida merece ser vista pelo ângulo da defesa doutrinária e não somente pela defesa da manutenção da autoridade que acompanha o cargo. O primeiro dos pedidos de todo propagador de doutrinas estranhas é manter antecedente ao nome o cargo que lhe sustentava a palavra de influência. A excomunhão também tem seu caráter pedagógico.