“A razão daquele ódio” – Gustavo Corção

Em “A descoberta do outro” de Gustavo Corção:

“A racionalização do mistério da iniqüidade é uma iniqüidade. O mundo que não é do Cristo, que não vive o mistério da Fé, perde também a consciência sobrenatural do mal (…) os pagãos apóstatas dos tempos modernos reduzem toda a tragédia humana a conflitos íntimos ou a problemas econômicos. Não há nenhuma tragédia, mas mal entendidos; não existe ódio, mas ressentimentos e recalques. Os autores contemporâneos, quando escrevem romances ou dramas, têm um imenso trabalho, apelam para mil finuras, procuram o concurso de mil circunstâncias, antes de consentirem na realidade brutal do ódio. Estão longe da grandeza de Shakespeare e da clara simplicidade da Branca de Neve. A filha do rei Lear tinha ódio; a rainha madrasta tinha ódio. É verdade que parece fácil explicar, até para uma criança, que a razão daquele ódio era a inveja; mas é justamente a clareza desse motivo, ou antes sua escuridão, que falta em nossa mentalidade apegada ao psicologismo dos conflitos internos. A inveja não é um conflito psicológico, mas um pecado mortal, uma ofensa dirigida para fora, atirada em cima da Suma Objetividade, através da face do próximo. […]

‘Se não fordes como as criancinhas não entrareis no reino dos Céus’. O mundo moderno não quer ser como as criancinhas para as quais o tempo só existe como a regra dum brinquedo e como a ordem duma féerie. Nunca houve tamanho massacre de inocentes como neste tempo de muitos Herodes. O século que diz ter entronizado a criança, que mais livros escreveu sobre testes, sobre psicologia infantil, sobre doutrinas de aprendizagem, tiradas, aliás, de experiências feitas com cachorros, na verdade, na verdade mesmo, odeia a criança.”