Do ex-padre e excomungado Beto

Roberto Francisco Daniel, antes conhecido como “padre Beto”, hoje não mais padre porquanto excomungado, quer reverter na justiça brasileira um ato institucional fundado no Direito Canônico. É bom que não se lhe atribua mais o cargo que ele desprezou em ofício. Leio na Folha de São Paulo que o ex-padre se justifica na “arbitrariedade da Diocese” e na “ausência do contraditório”; citam seus advogados o “vilipêndio à sua pessoa humana” e a “sujeição da Diocese às leis brasileiras”. Finaliza então o ex-padre, em uma declaração vexatória: “não sei o motivo pelo qual fui excomungado”. A situação é ridícula. O menosprezo de Roberto à Igreja foi por demais tolerado se considerarmos a forma pela qual o ex-padre questionava a autoridade do Vaticano e a validade dos sacramentos. Com a aparência vitimista característica dos padres adeptos de movimentos liberalizantes, Roberto quer se passar pelo criminoso sem crime, aquele que foi perseguido pela instituição tão somente pelas opiniões que respaldam a deflagração do anticatolicismo. Roberto, o ex-padre, deve ser visto como um anticatólico e, à luz das Escrituras, um anticristão. A agenda do ex-padre estava toda formada em vista do fomento de atos contrários à condução sadia daqueles que lhe ofertavam a confiança da crença.

A situação é ridícula porque o ex-padre, não aceitando o desfecho de sua irresponsabilidade, procurou na caneta do Estado a reversão de uma decisão pautada no ordenamento canônico. Não obstante sua maestria em forjar a santidade secular e a falsa humildade dos “intelectuais da fé”, das quais se tem o pietismo de Genésio Darci (conhecido “Boff”) e a luta social de Frei Betto, o excomungado demonstra serviência ao Estado que lhe apraz a luta de classes por ele também difundida. Eis que o ex-padre retorna às origens de sua perversidade e assume definitivamente sua fraqueza diante da Igreja que lhe deu o conhecimento para uma caminhada que subentende o respeito mais básico aos fundamentos cristãos.

O ex-padre Beto é a elucidação máxima da fraqueza moral que acompanha o sacerdócio contaminado pela loucura do marxismo. Mas Roberto não sabe por que foi excomungado, e não sabe o que gerou a decisão acertada de seu afastamento permanente. Apenas sabe que deve ele condenar o conservadorismo enquanto afeminadamente explica os motivos do atraso cristão diante do mundo pós-moderno. A fraqueza de Roberto talvez emane da subversividade de Lebret e da popularidade da retórica anti-Igreja. Que se diga que o ex-padre sequer tem sobre si o espírito dos reformados, porque estes também refutam o relativismo teológico que veio também a contaminar as doutrinas apostólicas pelas vias dos movimentos carismáticos.

A fraqueza de Roberto deve ser vista como a ruptura permanente entre a autoridade cristã e a sobriedade teológica milenar. Na tentativa de se modernizar, acabou por retornar às heresias mais básicas do cristianismo: aquelas que dispensam Cristo em nome do homem e que justificam o pecado em nome da complacência gratuita. Em suas falas, Roberto reclamou que foi tratado como adolescente. Houve de fato um engano: deveria ser tratado como herege e inimigo da cristandade.

“A razão daquele ódio” – Gustavo Corção

Em “A descoberta do outro” de Gustavo Corção:

“A racionalização do mistério da iniqüidade é uma iniqüidade. O mundo que não é do Cristo, que não vive o mistério da Fé, perde também a consciência sobrenatural do mal (…) os pagãos apóstatas dos tempos modernos reduzem toda a tragédia humana a conflitos íntimos ou a problemas econômicos. Não há nenhuma tragédia, mas mal entendidos; não existe ódio, mas ressentimentos e recalques. Os autores contemporâneos, quando escrevem romances ou dramas, têm um imenso trabalho, apelam para mil finuras, procuram o concurso de mil circunstâncias, antes de consentirem na realidade brutal do ódio. Estão longe da grandeza de Shakespeare e da clara simplicidade da Branca de Neve. A filha do rei Lear tinha ódio; a rainha madrasta tinha ódio. É verdade que parece fácil explicar, até para uma criança, que a razão daquele ódio era a inveja; mas é justamente a clareza desse motivo, ou antes sua escuridão, que falta em nossa mentalidade apegada ao psicologismo dos conflitos internos. A inveja não é um conflito psicológico, mas um pecado mortal, uma ofensa dirigida para fora, atirada em cima da Suma Objetividade, através da face do próximo. […]

‘Se não fordes como as criancinhas não entrareis no reino dos Céus’. O mundo moderno não quer ser como as criancinhas para as quais o tempo só existe como a regra dum brinquedo e como a ordem duma féerie. Nunca houve tamanho massacre de inocentes como neste tempo de muitos Herodes. O século que diz ter entronizado a criança, que mais livros escreveu sobre testes, sobre psicologia infantil, sobre doutrinas de aprendizagem, tiradas, aliás, de experiências feitas com cachorros, na verdade, na verdade mesmo, odeia a criança.”

A introdução de O Século do Nada, de Gustavo Corção, e outras considerações

Em O Século do Nada, Gustavo Corção introduz suas ideias à luz de sua obra anterior, A Descoberta do Outro, mediante o aviso que deveria seguir todo escritor de bom-senso:  uma vez publicada, as consequências são inevitáveis. A impessoalidade inexiste em Corção. A beleza de seus relatos está justamente na aproximação com o leitor,  “o amigo desconhecido”, aquele com o qual ocorre o diálogo natural tal como em qualquer romance literário. Aliás, a aproximação também ocorria em Dostoiévski quando o russo, no início de suas obras, questionava o leitor sobre as motivações do personagem. Em O Século do Nada, contudo, e aqui apenas me refiro à introdução da obra, Gustavo Corção tece o bordado dos sentimentos socialistas da época pós-Segunda Guerra. Nisso está a grandeza do escritor que, para além da própria ambição em publicar, reconhece também sua fragilidade no espírito do tempo que o influenciou, para o bem ou para mal. O texto introdutório de O Século do Nada desde logo afasta do leitor os ímpetos de qualquer tese estritamente objetiva. O subjetivismo de Corção está presente, porém não infectado pelo relativismo por ele combatido. A visão de Corção do mundo em O Século do Nada poderia trazer à literatura brasileira o oxigênio necessário e antes preenchido inequivocamente por Mário Ferreira dos Santos. Ambos esquecidos e relegados ao conhecimento de poucos (nisso, vanglorio-me em conhecê-los), Mário e Corção esmagam os sentimentos deletérios dos literatos profissionais de hoje. O esquecimento deles apenas sinaliza o abismo incultural da cultura brasileira e o motivo pelo qual somos hoje dependentes das metáforas de Chico Buarque.

A impressão que nos passa tal introdução inicia o leitor nas confissões que permeiam as grandes obras. Se Corção assume categoricamente que nunca foi combalido às fantasias marxistas, de igual sorte nos informa que a “consciência socialista” poderia ser encontrada por todos os lados; amigos outrora meramente interessados com o social, mas depois preocupados na divulgação das doutrinas socializantes, inclusive pelas vias religiosas. Corção nos indica que A Descoberta do Outro é o relato de sua conversão ao cristianismo, relato deveras íntimo e por isso a ansiedade do autor em não vê-lo publicado. Em O Século do Nada, não obstante sua conversão, eis que ressurge dos padres de sua fé, aquela mesma que o transformara, as pregações oriundas da frivolidade da justiça social e da influência francesa nos quesitos eminentemente comunistas. A cultura francesa já à época trazia nas mesas de discussão o sonho da proeminência igualitária e outras sandices: os dois livros se complementam.

Então, na introdução, o padre Louis-Joseph Lebret é citado, como quem nada quer com um dos grandes nomes da degeneração teológica na América Latina e historicamente um dos responsáveis pela Populorum Progressio, cujo texto mais famoso pode ser encontrado em qualquer lugar:

23. A terra foi dada a todos e não apenas aos ricos. Quer dizer que a propriedade privada não constitui para ninguém um direito incondicional e absoluto. Ninguém tem direito de reservar para seu uso exclusivo aquilo que é supérfluo, quando a outros falta o necessário. Numa palavra, “o direito de propriedade nunca deve exercer-se em detrimento do bem comum, segundo a doutrina tradicional dos Padres da Igreja e dos grandes teólogos”. Surgindo algum conflito “entre os direitos privados e adquiridos e as exigências comunitárias primordiais”, é ao poder público que pertence “resolvê-lo, com a participação ativa das pessoas e dos grupos sociais”. 24. O bem comum exige por vezes a expropriação, se certos domínios formam obstáculos à prosperidade coletiva, pelo fato da sua extensão, da sua exploração fraca ou nula, da miséria que daí resulta para as populações, do prejuízo considerável causado aos interesses do país. Afirmando-o com clareza, o Concílio também lembrou, não menos claramente, que o rendimento disponível não está entregue ao livre capricho dos homens, e que as especulações egoístas devem ser banidas. Assim, não é admissível que cidadãos com grandes rendimentos, provenientes da atividade e dos recursos nacionais, transfiram uma parte considerável para o estrangeiro, com proveito apenas pessoal, sem se importarem do mal evidente que com isso causam à pátria. […] 84. Homens de Estado, incumbe-vos mobilizar as vossas comunidades para uma solidariedade mundial mais eficaz e, sobretudo, levá-las a aceitar os impostos necessários sobre o luxo e o supérfluo, a fim de promoverem o desenvolvimento e salvarem a paz. Delegados às organizações internacionais, de vós depende que perigosas e estéreis oposições de forças dêem lugar à colaboração amiga, pacífica e desinteressada, a favor de um desenvolvimento solidário da humanidade, onde todos os homens possam realizar-se.

Pulando a introdução o leitor se afasta da narrativa emblemática de como e onde se deu a proliferação da mentalidade socialista não só no seio universitário, mas também no ambiente católico que no passado fora o berço do fides em Corção. Como que na plateia do grande espéculo, o autor atesta e não somente alega que ele, ele próprio presenciou a tomada gradativa da academia naquilo que hoje se considera “o jovem conscientizado”. Corção ironiza: não há mais moços, hoje só há jovens. A “juventude” tornou-se a bengala da revolução, inclusive dentro dos monastérios. Página 30:

1De maneira que todo o restante da introdução de O Século do Nada torna-se arquivo autobiográfica da percepção de Corção acerca de vários acontecimentos, inclusive a tomada do Poder pelo militares. Sufocado na crescente dominação dos comunistas em várias instituições de renome e, principalmente, sufocado na verificação in loco de líderes católicos antes debruçados nos sacramentos mas hoje submetidos às causas socialistas, Corção assume para si o papel de tentar desvendar inclusive a sua descrença na sociedade brasileira. Quando dias após a derrubada de Juscelino Kubitschek houve a grande Marcha da Família com Deus pela Liberdade, Gustavo Corção incitou o sentimento amplamente contemporâneo: o Brasil tinha esperança e aqueles sim eram os cidadãos de bem, os quais ainda não tinham sido contaminados pela idealização socialista. A introdução de O Século do Nada permite ao leitor a iniciação sincera de uma das maiores obras brasileiras que se tem conhecimento. Quando imaginamos desde o início um compêndio filosófico alicerçado na objetividade teórica, eis que Corção nos apresenta de cara as suas frustrações mais pessoais e íntimas, porquanto vinculadas à sua experiência cristã e às suas convicções políticas.

Mas volto a Lebret, quando Corção o indica timidamente para depois esclarecer, sem pestanejar, que o dominicano fora quem iniciara a infiltração comunista nos colégios católicos e, consequentemente, nas universidades católicas. De passo em passo Corção entendia que a catástrofe estava formada. Desnecessário aqui esclarecer os motivos de Corção; irei fazê-lo do próprio livro, transcrevendo as partes essenciais. Cabe destacar somente que a introdução de O Século do Nada não apresenta uma obra analítica, mas sim a percepção vivenciada pelo autor, por ele observada e por ele julgada. Repito, é necessário ler a obra com os olhos de quem dialoga com o autor. Ainda, que a obra não se pauta na dialética obrigatória dos acadêmicos, menos ainda na coerência das emoções daqueles que se pretendem hoje grandes filósofos. Como em Chesterton (talvez por isso Corção o cite constantemente), a literatura tem a marca da pena de seu escritor. Escreve Corção:

A avalancha de perversidade e de estupidez se avoluma e se precipita sobre os restos de uma civilização vacilante, sob disfarces e com apelidos de “progresso” e “frutos maravilhosos” do Concílio Vaticano II, que se quis a si mesmo mais “pastoral” do que definidor, dogmático e condenador de erros, começando por emprestar ao termo “pastoral” um significado de tolerância que destoa não apenas da tradição mas de qualquer ideia de reger, conduzir e governar. Se o Concílio tivesse sido realmente tão pastoral como euforicamente prometiam seus padres, teria reservado espaçoso lugar para a denúncia dos mercenários e para os gritos de alarme contra os lobos. Ao contrário disto, tivemos um Concílio otimista, e os resultados não tardaram. A famosa Constituição Pastoral sobre a Igreja e o Mundo Moderno, que um irreverente chamaria Constituição Pastoral sobre a Igreja e o Mundo da Lua, “reconhece agradecida a ajuda variada que recebe de parte dos homens de todas as classes e condições”. Que quererá dizer isto? Que a Igreja agradece aos padeiros e vinhateiros, e que além disso agradece ao mundo a afabilidade com que tolera sua presença e com que proporciona serviços de água e esgoto a suas instituições? Em outra passagem (21) a mesma Gaudium et Spes diz que “a Igreja, embora repelindo de forma absoluta o ateísmo, reconhece sinceramente (sic) que todos os homens, crentes e descrentes, devem colaborar na edificação do mundo em que vivem em comum, e isto requer necessariamente um prudente e sincero diálogo”. E assim se vê que já se consideram peremptos os decretos de Pio XII e João XXlll que severamente proibiam a colaboração dos católicos com os comunistas, como também se vê que cai em desuso e esquecimento a definição do Concílio de Trento pela qual “a Igreja na terra se chama de militante porque está em guerra constante contra três cruéis inimigos: o mundo, o Diabo e a carne. Agora, em vez disso “somos testemunhas do nascimento de um novo humanismo (! ?) no qual o homem fica definido, principalmente, por sua responsabilidade diante de seus irmãos e diante de…”. Se anos atrás entregássemos esse texto a alunos de catecismo elementar, com o claro por preencher, todos imediatamente escreveriam: “Deus”. Ora, não é diante dos homens e de Deus que o “novo humanismo” deve ser principalmente responsável: é “diante dos 43 homens e da HISTÓRIA”!! Está claro que o realce é nosso. Nosso é o espanto, nosso é o estupor, nossa é a preocupação. Frases como estas se diziam em discursos rotarianos, ou diante das pirâmides do Egito, mas nós, católicos, raça humilde e altiva que não reconhece outro senhor senão o Deus dos exércitos, sabemos que a história, com minúscula ou maiúscula, tomada como curso dos acontecimentos ou como o registro deles estudado pelos homens, pode ser julgada, mas não pode julgar coisa nenhuma, e sabemos que não é diante do trono do século XX ou do século XXX que prestaremos conta de nossos atos. As consequências de tais afrouxamentos de doutrina e de redação se traduzirão rapidamente em afrouxamentos morais e disciplinares, e veremos espetáculos espantosos nas casas de recolhimento e de oração. Em 1967, temos em Belo Horizonte e em São Paulo conventos dominicanos e beneditinos que abrem suas portas a falsos estudantes da UNE sob pretexto de retiro espiritual. Nesses dias escrevi: “Ia eu formular um apelo… Mas, quando os religiosos chegam a mentir — e mentir descaradamente, pretendendo que se enganaram, e que tomaram o ajuntamento de moços como um desejo de retiro espiritual — todos os apelos se tornam inúteis e ingênuos demais”. (O Globo, 2 de julho de 1967).

Porém aquela citação inicial de Lebret, como quem nada quer, demonstra-se essencial não só na introdução ao livro O Século do Nada, mas em toda a obra como que na indicação de um germe que contamina todo o corpo. Lebret, famoso nos redutos da teologia liberal, constantemente venerado pelos adeptos da atual “missão integral” (evangélicos inclusos), é em O Século do Nada julgado e condenado, por seus atos, ao descaso dos grandes nomes que saíram da batina para a foice, inundando doutrinas com a malícia do materialismo dialético. A desconfiança de Corção para com os discursos sociais, aqueles pelos quais se baseiam muitos dos discursos meramente caridosos, da caridade sem a virtude cristã, perpassa também no ceticismo cristão perante a fragilidade da retórica socializante.

Ainda que a contaminação seja um fato incontestável, Gustavo Corção a apresenta como uma estrutura delimitada pelas brechas doutrinárias tidas por inofensivas e sem grandes pretensões. Nisso está a maneira sorrateira com a qual a preocupação inicialmente “social” descamba para a preocupação eminentemente política, não obstante atrelada às soluções sociais que seriam, a priori, um dever cristão inquestionável. Inquestionável porque se a caridade emana do sentimento cristão, é ela mesma a caridade que decorre do Espírito e que deve, em nome de Cristo, não ser divulgada. Sim, porque a caridade cristã se faz na sombra e sem alardes, sem autores e no anonimato que afasta o cristão do antigo farisaísmo. Sem citá-lo, Corção se aproxima da máxima de Girard segundo a qual o humanismo corrobora o anticristianismo que se faz cristão, a caridade destituída das virtudes cristãs, a virtude secular que se pretende substitutiva da virtude religiosa. Ou seja, a máxima de que uma das facetas essenciais do anticristianismo é a pretensão de ser mais e além que o Evangelho, não enquanto confirmação, mas sim de negação deliberada da mensagem de Cristo.

O Século do Nada é obra obrigatória para quem deseja conhecer os motivos, causas e consequências da infestação das academias pelo marxismo. A exposição da obra não deixa dúvidas sobre o início tímido das ideias puramente sociais, que tendiam a expor a fragilidade da sociedade excluída, posteriormente tornada a sociedade oprimida e que teria seus flagelos diminuídos pela caridade de Estado. Ao fim, temos a sensação de que nos deparamos com o organograma da substituição da teologia pela política, da seriedade teológica pelas estratégias do discurso socializante, este que perpassa a mente do jovem que se pretende também responsável pelo mundo, pela humanidade… a juventude da missão abstraída na imagem revolucionária e que esconde outros erros, os quais serão por mim abordados em outro momento.