Sobre a sinceridade – Gustavo Corção

Gustavo Corção, Editorial da revista Permanência n° 7, abril de 1969, Ano II:

“Uma das mais monstruosas deformações de nosso tempo é a que faz da SINCERIDADE a suprema virtude. Ora, a sinceridade não chega a ser uma virtude; é necessária mas não é bastante para a integridade do ato moral. Será, materialiter, uma meia-virtude.

Se definirmos a sinceridade como uma concordância entre a consciência e o ato exterior, ação ou palavra, podemos facilmente mostrar que os grandes celerados da humanidade foram sinceros. Hitler, por exemplo, foi um modelo de sinceridade e de autenticidade. Durante a guerra, evidentemente, teve de mentir e enganar o inimigo; mas antes da guerra disse em palavras dispersas, e no livro que imprimiu, tudo o que contava fazer, e que fez.

Raskolnikoff foi levado a assassinar uma velha por um ditame da sinceridade. Convenceu-se a si mesmo de que sua vida era um bem infinitamente superior ao da vida de uma pobre velha, e com este sistema instalado e transformado em instância última de sua consciência, concluiu que podia matar a velha rica e usurária.

A sinceridade só será boa se vier acompanhada da clara notícia de que precisa um complemento. Normalmente, a consciência é a regra próxima do agir humano, e, portanto, sua consulta é boa e necessária. Mas não é o bastante. É preciso que a consciência se reconheça incompleta e dependente, e obrigada a procurar sempre a regra exterior que vem de Deus, ou pela revelação, para a vida sobrenatural, ou pela experiência humana, e pelos ensinamentos da Igreja, para a lei natural.

A consciência moral que não sabe e não sente que está obrigada a uma regra exterior, ou que julga ter atingido sua plenitude quando prescinde dessa regra e se basta, na verdade atingiu o ponto mais baixo da humana monstrificação. Quando o homem quer ser sua própria lei e seu próprio Deus, só consegue aproximar-se dos modelos atrás citados.”