Do jovem consciente

A minha observação arredia do fenômeno coletivo, na desconfiança perante qualquer movimento que se institui em reivindicações abstratas, implica no sentimento natural de desprezo à juventude que se diz consciente. “Consciência de quê?”, é a pergunta me vem à mente. Isso porque a consciência juvenil se propaga não só enquanto elogio ao ativismo, mas também no esclarecimento político eminentemente vinculado às petições de ordem, as quais trazem à juventude o caráter da inversão hierárquica com pitadas convictas de uma sociedade mais justa e igualitária. A juventude consciente pede porque “necessário”, fim de papo.

Os protestos atualmente se desvincularam da exigência política de redução em R$ 0,20 na passagem de ônibus em São Paulo, redução pleiteada pela maioria submersa na sombra obtusa do Movimento Passe Livre, o qual conclama “uma vida sem catracas”. Na ordem dos acontecimentos, pede-se ao mesmo tempo, em mesmo tom, um transporte público de qualidade mas também gratuito, inteiramente monopolizado pelo Estado e administrado pelo povo. Apesar de claramente ignorado pela maioria, a juventude consciente, organizada com os pés fincados nos gritos politicamente corretos (porque belos e “incontestáveis”), propõe também a perfeição do sistema público de saúde, a educação pública de qualidade e o fim da corrupção. Estamos diante do oásis existencial. Se a consciência juvenil é a consciência política, não sem as reivindicações possuem uma conotação ridícula proposital. Confundem a inocência das crianças com a imaturidade dos adolescentes.

Se a consciência juvenil é pautada pelos assuntos políticos incontestáveis, porquanto protegidos pela áurea da pureza igualitária, de igual sorte que contestá-los na via econômica é trazer para si o ofício da represália também política e que rasteja nos limiares das ideologias de esquerda. A juventude consciente carrega a bandeira da esquerda por uma necessidade de amparo discursivo. O ultimato do jovem consciente é ser ouvido e, mais ainda, ser levado a sério.

Na economia afirmo que “o transporte gratuito, monopolizado pelo Estado, é economicamente impossível”, ao que recebo as adjetivações mais espúrias do discurso de vítima. No campo moral poderia afirmar que “o transporte gratuito está atrelado à expropriação da propriedade privada alheia, porque o recurso dos custos é oriundo do imposto que decorre da renda outrora produzida”. Absurdo! Ensinam então que a idealização do transporte gratuito – por que não também do papel higiênico? – decorre de uma necessidade inevitável do homem urbano, por isso totalmente alheio às regras de mercado.

O jovem consciente, não obstante convicto de sua missão política, então anula os problemas econômico e moral numa perspectiva que deflagra a rejeição inevitável. Porém é desse mesmo fenômeno que surge a expectativa juvenil de uma perspicácia intelectual invejável, porque em tese minoritária e não conformada com aquilo que aí está. O sentimento de excepcionalidade oriunda do ativismo causa ao jovem o orgulho mais tenro que também se forma da excepcionalidade intelectual, ainda que o ativismo e a intelectualidade sejam opostos indissociáveis.