Cético e milagres

Gustavo Corção, A Ordem, Julho de 1958.

“O que mais entristece e irrita na atitude do cético em relação ao milagre não é a incredulidade, por teimosa que seja em face das evidências. De certo modo, eu diria que o homem católico mais depressa simpatiza com o incrédulo, com o homem que defende o reduto intelectual de qualquer rápido assentimento, do que com a credulidade fácil que traduz negligência intelectual. Se me permitem o paradoxo, direi que nós somos terrivelmente incrédulos, porque temos cristalizado e bem definido o nosso sistema de crenças. A rigor, o católico é o homem que não acredita  numa imensidade de  coisas  em  que  todos  acreditam. Não  é pois a incredulidade que mais nos afasta do homem que não crê em milagres; é antes uma posição puramente intelectual e puramente metafísica, antes de ser uma atitude de Fé teologal. O homem que não acredita em milagres se apresenta geralmente como indivíduo mais racional, mais raciocinante e até mais razoável do que o homem que acredita. No íntimo, está convencido de ser mais inteligente ou pelo menos de ser mais fiel aos dados da pura inteligência contra as armadilhas dos dados emocionais. Ora, o que acontece é exatamente o contrário. O homem infenso ao mistério e ao milagre é justamente aquele que não tem olhos lavados para a profundidade do ser, para as riquezas da realidade, para o que há de extraordinário na simples existência do mais ordinário dos seres (…) Dizia Santo Agostinho que o hábito de ver embota a inteligência e torna vis as coisas. Essas almas rotineiras usam  a  parte cartesiana da  razão, a  parte  quadriculada do  espírito, e estão convencidas de que todo o espírito, toda a alma humana e toda a realidade do universo cabe no magro diagrama que não é senão o esqueleto do real. Não vêem o que o poeta chamou a lágrima das coisas, e que poderia ter chamado também o riso das coisas. Não vêem a novidade permanente de todos os seres contingentes pendurados na fonte viva que lhes garante a existência. Para o olhar do poeta, do metafísico e do místico não há senectude, não há repetição essencial e mecânica dum universo montado como imensa relojoaria: eles vêem a origem absoluta escondida, e vêem no frêmito da contingência uma perpétua ressonância do ato criador.”