Arte moderna e tolerância

Gustavo Corção em O Desconcerto do Mundo:

“A mais humilhada das artes tirou uma desforra completa. Fugiu do internato. Ou do orfanato. Rasgou o uniforme, e andou pelas ruas da cidade descabelada e impudica. Fauvismo, cubismo, dadaísmo, futurismo, orfismo, sincronismo, construtivismo, suprematismo, purismo, surrealismo, pós-cubismo, pós-surrealismo, abstracionismo, concretismo… A história continua a descrever a curva perigosa. E foi nos solavancos e na vertigem da mudança geral de valores e critérios que se realizaram as ofegantes experiências estéticas. É difícil discriminar o falso e o genuíno, o estéril e o fecundo, nessa Babel de tentativas. É difícil saber qual é a parte de todo esse conjunto que terá ingresso, não nos salões oficiais dos juízes carregados dos preconceitos da época, mas naquele salão universal e apoteótico que os anjos contemplam.”

“Passaram-se os tempos. A curva continua, mas agora nós nos habituamos à vertigem. Pode-se até dizer que de tal modo nos habituamos à curvatura da história que até passamos a considerar os solavancos como rotinas. Temos ou apregoamos uma facilidade enorme de aceitar todas as inovações. Temos até vergonha, respeito humano, de demonstrar um sincero ahurissement diante de alguma tela exposta na bienal. Não fica bem manifestar estranheza diante do que é estranho. Escancarada e complacente, a opinião pública aceita tudo. O espírito burguês, vivendo a antítese do fixismo derrubado, tornou-se revolucionário. E a audácia de recusar foi substituída pela audácia de aceitar e de fingir que compreende tudo. E assim, ao farisaísmo de 1870 responde o mundo moderno com um publicanismo de infinita tolerância, que muitos pensam ser uma infinita sabedoria, e alguns ousam pensar que é uma infinita caridade. Quando a forma da música ou da poesia parecer esdrúxula demais, o público tem um moeda desvalorizada para comprá-la, ou uma fórmula para conjurá-la: arte moderna. Nós nos rimos hoje dos críticos que riam de Manet, do pacato Manet, do tranqüilo Manet. Quem se rirá de nós?”