O tal Sonegômetro – 180 bilhões de reais não desperdiçados

Talvez em uma concorrência velada com o famoso Impostômetro, o tal Sonegômetro deve ser analisado enquanto vertigem da “justiça social” não implementada, dos valores não arrecadados por motivos considerados terríveis. A chamada é crucial: “Isto é a média de quanto o Brasil está perdendo com a sonegação de impostos”. Pergunto-me o que de fato quiseram dizer com a expressão “o Brasil está perdendo”. O Estado brasileiro é o Brasil? Recursos privados não transferidos à ineficiência da burocracia? O mistério da frase segue piamente a ideia de que os impostos sonegados em verdade são valores que não foram aplicados para o bem do povo, justiça social e igualitarismo – quem sabe, também para evitar o aquecimento global.

A causa que se pretende nobre nasceu na esteira do manco guiado pelo cego: o Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional. É regra no mundo jurídico que o Procurador do Estado, então lecionando a arquitetura tributária brasileira, traga para si não somente as virtudes dos hospitais e escolas públicos já construídos, mas também a incumbência em revelar aos leigos acadêmicos o motivo pelo qual o Brasil é o que é. Como mágica surge a sonegação, no estrito molde do tal Sonegômetro, inclusive no que concerne a “quanto o Brasil está deixando de ganhar”. A expressão é propositalmente vaga, porque mergulhados na idealização de que o Estado tem por finalidade política os interesses da coletividade. Em uma peça jurídica, não sabendo o Procurador o que discutir, inevitável que se lance as pérolas dos interesses coletivos e da vontade popular. O tiro é certeiro.

Ao que concluo que os números do Sonegômetro devem ser visualizados pelo seu oposto, ainda que ausente qualquer fonte. Neste exato momento, 180 bilhões de reais deixaram de construir “5.152.292 casas populares de 40m2”. “Um absurdo, como são perversos esses empresários!”, e bondoso é o Estado. Neste exato momento, 180 bilhões de reais não foram desperdiçados e inutilizados em programas assistenciais cujos gastos não foram por mim autorizados. 180 bilhões de reais que estão sendo agora bem aplicados pelo empreendedor da esquina.