Breve histórico do inevitável

Ao tempo em que as críticas ao cristianismo contemporâneo partiram do “excesso religioso”, tem-se atualmente que os grandes perturbados por tal excesso ou são cristãos protestantes ou, ainda mais intrigante, ex-cristãos que observaram nas denominações protestantes o máximo possível da repressão espiritual. O discurso antirreligioso, abraçado por cristãos e ex-cristãos, partiu de uma tentativa já previamente derrotada de desvinculação da fé e religião, forma pela qual a religiosidade seria uma inclinação à hierarquia da Igreja Católica e ao reconhecimento da teologia [e vivência] medieval. Por isso é regra no discurso antirreligioso que, não obstante a denúncia às denominações protestantes, também haja a denúncia à eventual opressão da Igreja nos períodos antecedentes ao renascentismo, não pela conclusão oriunda dos estudos histórico e teológico da Era Medieval, mas do clichê de um pretenso esclarecimento da “barbárie medieval”. O sintoma primordial (e também primitivo, no sentido de que não se ampara em análises pretéritas) de qualquer descontentamento com a religião pode ser melhor analisado no descontentamento natural da adolescência. O adolescente, então devidamente elucidado da opressão religiosa mediante influências externas, ainda que um cristão ativo na denominação, assume para si a prática de se distinguir da maioria, o que nas denominações protestantes significa adotar a expressão “Jesus Cristo não é religião”.

A naturalidade desse sintoma primitivo não deve ser considerada uma fragilidade de caráter, nem mesmo a priori uma fraqueza intelectual; é o germe inevitável de um caminho árduo de duas vias indissociáveis e percorrido pela maioria, eu inclusive: a primeira, que conduz ao estudo mais aprofundado do fenômeno e que implica na reafirmação da fé cristã e no aprofundamento da vivência cristã após o abandono desse discurso; a segunda, que conduz à descrença na proeminência da fé sobre os “fatos religiosos”, ainda que incorretos, os quais bem se resumem na supracitada denúncia à Era Medieval. Desse caminho, agora já amparado na fraquejo intelectual, o cristão então se afasta da fé cristã, porventura se tornando um cristão inapto a qualquer relacionamento com Deus e, por fim, um ex-cristão que assim se declara com as benesses da “elucidação” emanada da maturidade adolescente. Nesse trajeto é comum que o ex-cristão, uma vez não acanhado em se declarar como tal, continue ainda vinculado à espiritualidade divina. A chama da fé já não existe, mas o discurso espiritual ainda se faz presente. Sem Cristo, mas espiritual, afirma não ter as amarras da religião, no que a expressão “Jesus Cristo não é religião” se transmuta em “Deus não é religião”. Nesse encontro com a anulação completa da fé, cristão já não é mais e de antemão perdura sob a volatilidade das modas espirituais, inclusive o agnosticismo contemporâneo, em nada relativo ao agnosticismo dos primeiros séculos.

O ponto central dessa caminhada reflexiva é o que define também o abandono dos sentimentos antirreligiosos da adolescência e a imersão completa na fé cristã, ou seja, o amadurecimento do germe das dúvidas birrentas da pré-juventude, as quais foram ou são posteriormente melhor abalizadas nos limites da maturidade. Por isso, o ex-cristão é visto pelos cristãos, por diversos meios, como alguém que não conseguiu superar a fase das dúvidas convictas da adolescência, o imaturo que não percebeu que a vivência denominacional é um adendo diminuto ao Evangelho. Isso pode ser melhor observado não só perante ex-cristãos, mas também nos cristãos que hoje, ainda apegados à imaturidade de antes, continuam a proclamar que “Jesus Cristo não é religião”, apesar de plenamente religiosos. A questão, portanto, não é a prática religiosa em si considerada, mas sim o discurso antirreligioso, o qual hoje vem em uníssono.

Nesse quesito o cristão antirreligioso está no mesmo patamar do ex-cristão que, não obstante ter abandonado o cristianismo, ainda persevera na espiritualidade genérica. A diferença substancial, contudo, reside nas circunstâncias posteriores: se eu, por exemplo, analiso o pentecostalismo e concluo que o movimento é dúbio e teologicamente esclerosado – no que reside justamente o orgulho pentecostal na medida em que a teologia é desprezada -, de igual sorte sentencio ao ex-cristão que sua caminhada espiritual irá no futuro encontrar o obstáculo da negação completa de toda manifestação espiritualizante.

Por isso que o ex-cristão posteriormente tornado ateu, ou agnóstico, submete-se constantemente ao abismo da dúvida da adolescência, obviamente que infectada de todas as suas fragilidades conceituais. De maneira que o ateu ex-cristão não consegue mais dissociar o seu trajeto decadencial da própria fragilidade, e por isso termina por sempre relembrar e associar suas dúvidas mais elementares (e ainda corriqueiras) à imagem dúbia da instituição outrora simbolizada na vivência cristã. O cristão que perseverou nesse trajeto, ainda que tendo negado Deus temporariamente, consegue facilmente identificar essa situação, entretanto hoje sabido de que a reafirmação denominacional na própria crítica ao cristianismo é sintoma basilar da fraqueza espiritual. E, como consequência, o ateu ex-cristão costuma por abandonar inclusive o esclarecimento teológico, ainda que intencionado em refutar as doutrinas milenarmente discutidas.