Tolerância e verdade universal

No Perspectivas:

A noção de tolerância sofreu uma mutação: até há pouco tempo, a tolerância significava a aceitação do direito dos outros a ter opiniões diferentes da nossa; e hoje significa a exigência de conceber as opiniões dos outros como sendo igualmente válidas em relação à nossa. Ou seja, o conceito actual de tolerância implica a ausência da verdade; e “a verdade para mim” é considerada tão válida como a verdade para qualquer outra pessoa.

Este novo conceito de tolerância implica uma mudança radical em relação à discussão de ideias, ou melhor, implica a eliminação do conflito e do contraditório inerentes à discussão de ideias, mediante a imposição do silêncio em relação a qualquer reclamação de verdade. Esta mudança do conceito de tolerância significa também o enfraquecimento da racionalidade do discurso e do diálogo, tornando-se então, a tolerância, intolerante e socialmente perigosa. O novo conceito de tolerância, que prevalece na nossa sociedade, reflecte uma situação de indigência intelectual das elites actuais — ou então é propositadamente imposta aos cidadãos pela razão que se segue:

A ideia de uma verdade universal é absolutamente necessária ao combate a qualquer tirania. A democracia e o Direito Positivo formal e processual, entendidos exclusivamente em si mesmos, não podem resolver este problema do combate à tirania ou a um qualquer totalitarismo.

E essa ideia universal de verdade só pode surgir através da discussão crítica que coloque em causa cada uma das visões particulares de verdade, e que as confronte criticamente. Por isso, o novo conceito de tolerância é uma forma de se implementar progressivamente uma nova forma de totalitarismo ou uma tirania por intermédio da validação igualitarista da opinião de todos e de cada um.

O laicismo, que está por detrás da implementação cultural deste novo conceito de tolerância, é hoje a antítese do secularismo de há apenas 30 anos; o laicismo transformou-se numa ideologia dogmática e absolutista, na medida em que nega que tenha certezas dogmáticas como qualquer outra religião política.

A verdadeira tolerância, sendo o respeito pela diferença, não significa o desrespeito pela verdade objectiva.