John Scott

John Scott é um dos cristãos preferidos pelos teólogos liberais quando a finalidade do discurso é imputar a ideia de que nem todos seguem o rebanho. Scott é comumente considerado um “liberal” no sentido atual da palavra: cristão subjetivista e praticamente da subversividade autodeclarada, aquele que desmente a mensagem salvífica e que despreza a teologia sistemática. Tal como ocorre com Leon Tolston – sobre o qual são atribuídas características liberais inexistentes -, John Scott continua a ser alvo daquilo que no passado significava o retorno ao “Evangelho puro e simples”, hoje em verdade uma anomalia irreconhecível e mero jargão de um descontentamento que tem outras e escusas origens.

John Scott, em seu livro Crer é Também Pensar, escreveu:

“Assim, pois, em nossa proclamação do evangelho, temos que nos dirigir à pessoa toda (mente, coração e vontade) com o evangelho todo (Cristo encarnado, crucificado, ressurreto, soberano, sua segunda vinda e muito mais). Deveremos argumentar com sua mente e apelar fervorosamente a seu coração para que mova a sua vontade, estando nossa confiança depositada no Espírito Santo de começo a fim. Não nos é dada a liberdade de apresentar Cristo parcialmente (como homem mas não como Deus, sua vida e não sua morte, sua cruz mas não sua ressurreição, como Salvador mas não como Senhor). Nem o temos o direito de pedir uma resposta parcial (da mente mas não do coração, do coração mas não da mente, ou da mente ou do coração mas não da vontade). Não. Nosso objetivo é ganhar o homem todo para o Cristo total, e para isso é necessário o completo consentimento de sua mente, coração e vontade.

Oro insistentemente que Deus levante hoje uma nova geração de apologistas cristãos, pessoas que comuniquem a mensagem cristã, tendo uma absoluta fidelidade ao evangelho bíblico, e uma inabalável confiança no poder do Espírito, combinada com um entendimento profundo e sensível às alternativas contemporâneas do evangelho; pessoas que se relacione com as demais com vivacidade, ardor, autoridade e propriedade; pessoas que façam uso de suas mentes para ganharem outras mentes para Cristo.”

É possível dizer que somente a sensibilidade às alternativas contemporâneas do Evangelho permite a John Scott a rotulação liberal, ainda que mais à frente entendamos que essas alternativas não podem se desvencilhadas dos fundamentos cristãos inafastáveis e ortodoxos. De igual maneira, no decorrer de sua obra é perceptível que a crítica de John Scott se atrela justamente ao cristão que deliberadamente abdicou de proclamar o Evangelho com sua mensagem, naquilo que se observa na salvação alheia à Ressurreição, ou do sangue de Cristo desprezado em detrimento de suas benfeitorias sociais e de amparo aos pobres.

Ora, essa é a prática pela qual a Teologia Liberal [hoje em seus últimos suspiros de morte] conseguiu abraçar modelos doutrinários distintos. Bastou o estudo mais aprofundado de seus principais personagens para que fossem esquecidas as autoridades com as quais se amparavam os discursos de reflexão espiritual. Se Tolstoi foi esquecido e agora tido apenas por um grande intelectual anárquico (para isso é necessário também expor a anarquia capitalista, para o desespero dos tais), outros personagens, às centenas, rebaixam-se a meros ícones.

Em 2009, escrevi:

“E também [disse Fernando Pessoa] que se o que há de lixo moral e mental em todos os cérebros pudesse ser varrido e reunido, e com ele se formar uma figura gigantesca, tal seria a figura do comunismo, inimigo supremo da liberdade e da humanidade.

Como ocorreu com Bonhoeffer em sua teologia da soberania divina; tal qual Nietzsche na negação do socialismo; Dostoiévski na pré-psicanálise da mente espiritual; René Girard no mimetismo vitimicista, Fernando Pessoa não mais será citado nos âmbitos da alma piedosa. Trata-se do fenômeno da personalidade utilizável aos fins do ativismo, se dele emanam os odores da revolução.

John Scott entra para a lista infindável dos autores cristãos que foram denegridos pela perversidade teórica da Teologia Liberal. Ora, se hoje é ainda um dos autores mais lidos pelos cristãos, o é por reafirmar que o cristianismo precisa emergir de uma apatia oriunda do ativismo histérico tanto liberal quanto evangélico, se o que temos é a análise dos movimentos evangélicos americanos e que influenciaram os movimentos brasileiros. Ou seja, o elogio dos cristãos liberais a John Scott parte de uma influência direta da ignorância de suas obras, talvez no mero efeito retórico de seus principais títulos.

De fato, “Crer é Também Pensar” traz o peso de uma reflexão imediata da realidade evangélica contemporânea, contudo sem anular [do contrário, reforçando] a validade da fé  em Cristo e da evangelização cristã.

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