A valorização primordial da propriedade

O conceito de ganância atrelada à propriedade remonta às teses helênicas e, conjuntamente, à argumentação filosófica do naturalismo em sua essência fundamental: a igualdade precede a propriedade, diz-se. Richard Pipes já nos avisa que o conceito patrimonialista está atrelado ao desenvolvimento da sociedade como civilização constituída, se propriedade é o termo utilizado a toda e qualquer faculdade individual em sua livre aquisição e transação, seja intelectual, seja de facto; a civilização desenvolve-se a partir do conceito de liberdade, que culmina invariavelmente à destituição do Estado como gerenciador das relações privadas.

Diz Pipes que a liberdade não inclui o suposto direito à segurança pública e ao sustento (tal como é sugerido nos slogans liberdade de necessidade e o direito à residência), o que infringe o direito dos demais cidadãos, uma vez que são eles que terão que pagar por tais direitos. Estes são, na melhor das hipóteses, uma reivindicação moral, e na pior, se reforçados pela autoridade pública, um privilégio não merecido.

Platão em sua visualização limitada de civilização, em nome de Sócrates, proclamou a sociedade ideal, posteriormente rechaçado em Política, de Aristóteles. Este, refutando o igualitarismo proprietário, ressalta: as posses permitem que o homem ascenda a um nível ético superior, dando a eles a oportunidade de serem generosos. A liberdade consiste no uso que é dado à propriedade.

Inicia-se a derivação da Caridade, a partir da “filosofia da generosidade” aristotélica, concepção que veio a alicerçar os preceitos cristãos da Idade Média, tal qual a prevalência da Reforma como a exaltação do indivíduo em face do coletivo. Interessante, contudo, a tese do filósofo russo Vladimir Soloviev à caridade cristã, esta que subentendia a valorização primordial da propriedade para que, conseguinte à ética e amorosidade, seja repartida aos demais o essencial à existência, porquanto não há caridade sem propriedade. E Carlyle, em Medieval Political Theory, acerca dos primeiros teóricos da Igreja, sentencia que a propriedade privada era na verdade mais uma instituição disciplinatória que tencionava refrear e neutralizar a índole viciosa dos homens.

A propriedade privada, como antecedente da liberdade ocidental, instiga o homem inevitavelmente à Responsabilidade.