Da mulher medieval

A “observação histórica” do texto a seguir não implica na diminuição de seu valor em um dos temas que mais me agrada por estes dias, que é o estudo dos fenômenos sociais na Era Medieval, inclusive no que concerne à condição feminina (faço eu aqui uma referência direta à Condição Humana, de Hannah Arendt). De maneira que a citação mesma de Hugh Trevor-Roper merece total atenção, principalmente pelo desconhecimento de seus estudos por estas terras, apesar da pertinência. Não obstante o contato com uma única obra, Hugh Trevor-Roper não foi por mim citado em minha monografia universitária apenas e tão somente por um problema de mesquinhez linguística: referido autor não se acha traduzido em livrarias, sequer especializadas, e por isso citá-lo em língua estrangeira seria trazer a paixão nacionalista mais rude do professorado que exige a língua paterna, traduzida e juramentada. Apenas ressalto o seguinte: achar-se anti-modernista, puritanista ou medieval não seria hoje uma virtude?

Apenas notem que a origem do feminismo em degradar a mulher medieval parte da ideia mesma da insubmissão não somente feminina, mas a insubmissão genérica e total, a “insubmissão da humanidade”, a qual é lema dos movimentos revolucionários. Em sendo o feminismo um movimento de ingenuidades (ou seja, um movimento que apela para o esclarecimento massivo das mulheres ainda não conscientizadas), de igual sorte sua análise histórica da emancipação feminina ignora que foi na ascensão do homem científico – e não no auge do homem religioso medieval – que a mulher foi denegrida e animalizada. Não serei esperançoso: quando dita por uma feminista, a afirmação de que a Igreja Cristã medieval esfolou mulheres no altar do papado é também uma manipulação discursiva e que por isso deve ser analisada com todo o cuidado. Não serei reducionista ao ponto de considerar toda feminista uma frustrada – aliás, um erro comumente praticado por grande parte de seus críticos -, mas sim que o feminismo atual segue a ordem natural da dialética materialista e do dualismo sexista. “Atual”, conquanto o feminismo do Século XIX surgiu da reafirmação dos valores conservadores ante a degradação da mulher da época, hoje a mulher feminista degradada. A observação final do artigo será por mim melhor abordada quando tiver oportunidade.

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Escrito por Ronald Robson, em lucidez escassa no blog “Ad hominem”:

Se levarmos a sério a distinção prática que Ortega y Gasset faz entre épocas “jovens” e “velhas”, “masculinas” e “femininas”, encontraremos exemplos curiosos no período da história ocidental mais devotada aos sentimentos de humildade e martírio, a cavalheiresca e masculina Idade Média, idealizada tanto por detratores quanto por apologistas. O detrator feminista dirá que em tal período a mulher era submissa e alijada socialmente, com o que ficará confuso se lhe mostrarem a proeminência social de santas e cortesãs, que ousavam ir contra vento e maré, Coroa e Igreja. O apologista cristão dirá que nunca a mulher teve sua nobreza tão cantada em verso e prosa quanto no medievo e que nunca lhe foi mais fácil dedicar-se ao estudo e à “vida do espírito”, e a tratará como tendo uma qualidade tão excelsa, no porte como na educação, com o que ficará chocado se lhe mostrarem uma balada de Arnaut Daniel que fala de uma dama – nobre, ela – que tornou pública a sua decisão de só se entregar ao amante se este lhe beijasse o ânus (V. a balada “Que Raimon ou Truc Malec” na tradução impecável de Augusto de Campos, em Invenção – de Arnaut e Raimbaut a Dante e Cavalcanti).

É que a Idade Média, afinal, muito mais mundanamente alegre do que geralmente estamos dispostos a admitir, foi um período de razoável equilíbrio social entre o “profano” e o “sagrado”, e assim o culto mariano poderia ser vertido de versos litúrgicos latinos para a mais prosaica exaltação da mulher comum na poesia secular, e assim os monges poderiam aos poucos romper a sisudez de sua homofonia, aprendendo com os mestres laicos a polifonia. Ora, a época que viu o surgimento da filosofia de Santo Tomás também viu o surgimento da pândega de um Arnaut Daniel, que nada tinha a ver com a priapéia antiga; não é à toa que os mosteiros eram, antes de mais nada e materialmente, grandes depósitos de livros e cerveja. E, também nesse período, e possivelmente pelas mesmas causas, os papéis do homem e da mulher eram razoavelmente bem compreendidos, a ponto tal que, com um sabor de referência a um ideário já antigo em sua época, podemos ver no Auto da Sibila Cassandra, de Gil Vicente, a dama a brincar em torno dos benefícios e malefícios do matrimônio: ela pode, comportando-se como um moleque, fazer troça de tudo, menos da certeza do seu destino de relicário e fortaleza da pureza, à qual está obrigada por ser, talvez próximo do que postula Weininger, a própria sexualidade, o “eterno feminino” goethiano.

Mas o período das “luzes”, incontestavelmente padrinho de um tipo de sensibilidade inconformista superficial que, se não levou, pelo menos abriu caminho a uma série de confusões similares às da nossa época, começou a trocar o essencial pelo inessencial. É abusivo supor, eu reconheço, mas não chega a ser ilícito imaginar que só assim começaríamos a nos perguntar o quanto a maquiagem está de acordo com a modéstia requerida de uma mulher católica, preterindo questões mais substantivas, como relatou Day Teixeira em seu texto.

(Aliás, é conveniente lembrar que nenhum período foi tão perigoso para uma mulher “emancipada” e solteira quanto aquele de quando se começou a perder de vista o que seja a mulher e a confundir “feminilidade” com submissão normativa, a soldo de puritanismos tanto católicos como protestantes: no fim do século XVI, mulher “emancipada” e solteira, sobretudo se velha, era bruxa e tinha de ir para a fogueira, na quase totalidade dos casos através de tribunais civis, não eclesiásticos, e sob aplausos de luminares da ciência. V. o ensaio “A mania de bruxas nos séculos XVI e XVII”, de Hugh Trevor-Roper, historiador que pode ser chamado de qualquer coisa, menos anti-modernista).