Anúncios

A Páscoa [pagã]

Escrito em 20 de março de 2007.

Quando ainda ateus e agnósticos procuravam o sentido da vida em Rousseau, os cristãos protestantes, em uma rivalidade excessiva perante o catolicismo, buscavam os motivos pelos quais determinadas festividades tinham sua origem pagã. De fato, o questionamento do paganismo cristão foi e é uma preocupação cristã, elencada em alguns milhares de livros sobre o assunto e inacessíveis por estas terras. O ateu [ou agnóstico] que se preocupa com a origem pagã das festividades cristãs o faz por um sentimento de combate ativista à religião, não obstante imaturo, ainda que sua argumentação decorra do mesmo nível de estudo que permite frases como “a Igreja matou milhões de bruxas” (sic).

Ora, não há grupo que mais condene e tente esclarecer o paganismo das datas cristãs que os cristãos carismáticos, munidos inclusive de estudos amplamente difundidos pela boca de ateus. Ainda que o estudo decorra de uma preocupação cristã, o ateu [ou agnóstico] quer de todo modo relevar o assunto em um combate ao Cristianismo como um todo. Como combater o Cristianismo com um assunto que é de interesse… cristão? O que não retira, obviamente, o sentido atual atribuído à data, ainda que sua origem seja torpe.

O ateísmo é essencialmente ingênuo, porque falta estudo.

Leis cômicas e o inevitável

A primeira das medidas de uma empresa consolidada é investigar o passado processual de seu futuro empregado; e com as domésticas não será diferente. Se querem transferir ao mero contratante o caráter de empregador (nos moldes do empresariado), nada mais justo que esses novos empregadores tratem agora as domésticas como empregadas em seu sentido jurídico: no risco iminente de serem processados na Justiça Trabalhista, medidas de proteção serão necessárias e o distanciamento relacional entre o empregador (em verdade, uma pessoa qualquer que contrata serviços) e a doméstica é inevitável.

Não critico aqui a atribuição de novos “direitos” às domésticas. Em país que existe Justiça Trabalhista não se deve chorar o leite derramado; é necessário advertir os beneficiados por direitos fictícios, manipulados pelo Estado e criados pela caneta do Congresso, que na seara econômica sua situação é de caos, insustentável. Ou seja, se a atribuição de “direitos” pode ser caracterizada uma “conquista trabalhista”, na atribuição de fatos econômicos as domésticas saem deflagradas no obscuro futuro que lhes aproxima, tal qual ocorreu com os metalúrgicos antes de sua sindicalização completa e nefasta.

Mas o leite que se derrama não é o suficiente: “devemos combater a informalidade!”, dizem os santos juristas trabalhistas. Pois bem, a informalidade não é uma preocupação econômica, porquanto ao mercado o que importa é a adequação entre o serviço prestado e os valores que dele decorrem. É de fato uma preocupação política, estendida às mãos da burocracia jurídica, a qual se externa na infantilidade das teses trabalhistas mais comuns e basilares. Em suma, estamos diante de um paradoxo comum ao mundo jurídico-trabalhista: na tentativa de aproximar “direitos” de uma realidade inexistente, mediante a atribuição vitimista do empregado em face do perverso empregador, cria-se de igual sorte a instabilidade nos serviços, mercado, vida privada. A Justiça Trabalhista se molda no arcaísmo dos coitados, e por isso hoje é considerada uma aberração de Estado sem precedentes.

O que me lembra o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, considerado pela maioria esmagadora dos juristas um “direito” irrefreável do trabalhador e, pelo assalariado, um “direito” pago exclusivamente pelo empregador. O jurista respira direitos estampados na letra de leis cômicas; e não sem motivo os “novos direitos” das domésticas serão abraçados com ardor e paixão por advogados e juízes.

Com toda convicção a autora processual aponta seu dedo ao réu, acusando-o de denegrir seus direitos emanados do nada, fundamentados na quimera da justiça social e proclamados pela burocracia política. Posteriormente, irá reclamar que o mercado não lhe foi justo e que os seus serviços, agora dispensados, são essenciais à manutenção da nação. Embora economicamente decadente e moralmente desfavorecida, a doméstica que usufrui da malandragem da Justiça Trabalhista terá sua renda reduzida e sua vida danificada pela mesma lei por ela elogiada; como os metalúrgicos de hoje, terá o prazer de conclamar o cumprimento dos direitos de caneta e o combate à informalidade, ainda que isso signifique sua extinção gradativa e inevitável.

A mente revolucionária

Excerto dos rascunhos inéditos do livro “A Mente Revolucionária”, de Olavo de Carvalho:

A mente revolucionária é um fenômeno histórico perfeitamente identificável e contínuo, cujos desenvolvimentos ao longo de cinco séculos podem ser rastreados numa infinidade de documentos. Não é um fenômeno essencialmente político, mas espiritual e psicológico, se bem que seu campo de expressão mais visível e seu instrumento fundamental seja a ação política.

Para facilitar as coisas, uso as expressões “mente revolucionária” e “mentalidade revolucionária” para distinguir entre o fenômeno histórico concreto, com toda a variedade das suas manifestações, e a característica essencial e permanente que permite apreender a sua unidade ao longo do tempo.

“Mentalidade revolucionária” é o estado de espírito, permanente ou transitório, no qual um indivíduo ou grupo se crê habilitado a remoldar o conjunto da sociedade – senão a natureza humana em geral – por meio da ação política; e acredita que, como agente ou portador de um futuro melhor, está acima de todo julgamento pela humanidade presente ou passada, só tendo satisfações a prestar ao “tribunal da História”. Mas o tribunal da História é, por definição, a própria sociedade futura que esse indivíduo ou grupo diz representar no presente; e, como essa sociedade não pode testemunhar ou julgar senão através desse seu mesmo representante, é claro que este se torna assim não apenas o único juiz soberano de seus próprios atos, mas o juiz de toda a humanidade, passada, presente ou futura. Habilitado a acusar e condenar todas as leis, instituições, crenças, valores, costumes, ações e obras de todas as épocas sem poder ser por sua vez julgado por nenhuma delas, ele está tão acima da humanidade histórica que não é inexato chamá-lo de Super-Homem.

Autoglorificação do Super-Homem, a mentalidade revolucionária é totalitária e genocida em si, independentemente dos conteúdos ideológicos de que se preencha em diferentes circunstâncias e ocasiões.

Recusando-se a prestar satisfações senão a um futuro hipotético de sua própria invenção e firmemente disposto a destruir pela astúcia ou pela força todo obstáculo que se oponha à remoldagem do mundo à sua própria imagem e semelhança, o revolucionário é o inimigo máximo da espécie humana, perto do qual os tiranos e conquistadores da antigüidade impressionam pela modéstia das suas pretensões e por uma notável parcimônia no emprego dos meios.

O advento do revolucionário ao primeiro plano do cenário histórico – fenômeno que começa a perfilar-se por volta do século XV e se manifesta com toda a clareza no fim do século XVIII – inaugura a era do totalitarismo, das guerras mundiais e do genocídio permanente. Ao longo de dois séculos, os movimentos revolucionários, as guerras empreendidas por eles e o morticínio de populações civis necessário à consolidação do seu poder mataram muito mais gente do que a totalidade dos conflitos bélicos, epidemias, terremotos e catástrofes naturais de qualquer espécie desde o início da história do mundo.

O movimento revolucionário é o flagelo maior que já se abateu sobre a espécie humana desde o início dos tempos históricos.

A expansão da violência genocida e a imposição de restrições cada vez mais sufocantes à liberdade humana acompanham pari passu a disseminação da mentalidade revolucionária entre faixas cada vez mais amplas da população, pela qual massas inteiras se imbuem do papel de juízes vingadores nomeados pelo tribunal do futuro e concedem a si próprias o direito à prática de crimes imensuravelmente maiores do que todos aqueles que o ideal revolucionário promete extirpar.

Mesmo se não levarmos em conta as matanças deliberadas e considerarmos apenas a performance revolucionária desde o ponto de vista econômico, nenhuma outra causa social ou natural criou jamais tanta miséria e provocou tantas mortes por desnutrição quanto os regimes revolucionários da Rússia, da China e de vários países africanos.

Qualquer que venha a ser o futuro da espécie humana e quaisquer que sejam as nossas concepções pessoais a respeito, a mentalidade revolucionária tem de ser extirpada radicalmente do repertório das possibilidades sociais e culturais admissíveis antes que, de tanto forçar o nascimento de um mundo supostamente melhor, ela venha a fazer da História humana inteira um gigantesco aborto.

Embora as distintas ideologias revolucionárias sejam todas, em maior ou menor medida, ameaçadoras e daninhas, o mal delas não reside tanto no seu conteúdo específico ou nas estratégias de que se servem para realizá-lo, quanto no fato mesmo de serem revolucionárias no sentido aqui definido.

O socialismo e o nazismo são revolucionários não porque propõem respectivamente o predomínio de uma classe ou de uma raça, mas porque fazem dessas bandeiras os princípios de uma remodelagem radical não só da ordem política, mas de toda a vida humana. Os malefícios que prenunciam tornam-se universalmente ameaçadores porque não se apresentam como respostas locais a situações momentâneas, mas como mandamentos universais imbuídos da autoridade de refazer o mundo segundo o molde de uma hipotética perfeição futura. A Ku-Klux-Klan é tão racista quanto o nazismo, mas não é revolucionária porque não tem nenhum projeto de alcance mundial. Por essa razão seria ridículo compará-la, em periculosidade, ao movimento nazista.

Por isso mesmo é preciso enfatizar que o sentido aqui atribuído ao termo “revolução” é ao mesmo tempo mais amplo e mais preciso do que a palavra tem em geral na historiografia e nas ciências sociais presentemente existentes. Muitos processos sócio-políticos usualmente denominados “revoluções” não são “revolucionários” de fato, porque não participam da mentalidade revolucionária, não visam à remodelagem integral da sociedade, da cultura e da espécie humana, mas se destinam unicamente à modificação de situações locais e momentâneas, idealmente para melhor. Não é necessariamente revolucionária, por exemplo, a rebelião política destinada apenas a romper os laços entre um país e outro. Nem é revolucionária a simples derrubada de um regime tirânico com o objetivo de nivelar uma nação às liberdades já desfrutadas pelos povos em torno. Mesmo que esses empreendimentos empreguem recursos bélicos de larga escala e provoquem modificações espetaculares, não são revoluções, porque nada ambicionam senão à correção de males imediatos ou mesmo o retorno a uma situação anterior perdida.

O que caracteriza inconfundivelmente o movimento revolucionário é que sobrepõe a autoridade de um futuro hipotético ao julgamento de toda a espécie humana, presente ou passada. A revolução é, por sua própria natureza, totalitária e universalmente expansiva: não há aspecto da vida humana que ela não pretenda submeter ao seu poder, não há região do globo a que ela não pretenda estender os tentáculos da sua influência.

Se, nesse sentido, vários movimentos político-militares de vastas proporções devem ser excluídos do conceito de “revolução”, devem ser incluídos nele, em contrapartida, vários movimentos aparentemente pacíficos e de natureza puramente intelectual e cultural, cuja evolução no tempo os leve a constituir-se em poderes políticos com pretensões de impor universalmente novos padrões de pensamento e conduta por meios burocráticos, judiciais e policiais. A rebelião húngara de 1956 ou a derrubada do presidente brasileiro João Goulart, nesse sentido, não foram revoluções de maneira alguma. Nem o foi a independência americana, um caso especial que terei de explicar em outro lugar. Mas sem dúvida são movimentos revolucionários o darwinismo e o conjunto de fenômenos pseudo-religiosos conhecido como Nova Era. Todas essas distinções terão de ser explicadas depois em separado e estão sendo citadas aqui só a título de amostra.

 

John Scott

John Scott é um dos cristãos preferidos pelos teólogos liberais quando a finalidade do discurso é imputar a ideia de que nem todos seguem o rebanho. Scott é comumente considerado um “liberal” no sentido atual da palavra: cristão subjetivista e praticamente da subversividade autodeclarada, aquele que desmente a mensagem salvífica e que despreza a teologia sistemática. Tal como ocorre com Leon Tolston – sobre o qual são atribuídas características liberais inexistentes -, John Scott continua a ser alvo daquilo que no passado significava o retorno ao “Evangelho puro e simples”, hoje em verdade uma anomalia irreconhecível e mero jargão de um descontentamento que tem outras e escusas origens.

John Scott, em seu livro Crer é Também Pensar, escreveu:

“Assim, pois, em nossa proclamação do evangelho, temos que nos dirigir à pessoa toda (mente, coração e vontade) com o evangelho todo (Cristo encarnado, crucificado, ressurreto, soberano, sua segunda vinda e muito mais). Deveremos argumentar com sua mente e apelar fervorosamente a seu coração para que mova a sua vontade, estando nossa confiança depositada no Espírito Santo de começo a fim. Não nos é dada a liberdade de apresentar Cristo parcialmente (como homem mas não como Deus, sua vida e não sua morte, sua cruz mas não sua ressurreição, como Salvador mas não como Senhor). Nem o temos o direito de pedir uma resposta parcial (da mente mas não do coração, do coração mas não da mente, ou da mente ou do coração mas não da vontade). Não. Nosso objetivo é ganhar o homem todo para o Cristo total, e para isso é necessário o completo consentimento de sua mente, coração e vontade.

Oro insistentemente que Deus levante hoje uma nova geração de apologistas cristãos, pessoas que comuniquem a mensagem cristã, tendo uma absoluta fidelidade ao evangelho bíblico, e uma inabalável confiança no poder do Espírito, combinada com um entendimento profundo e sensível às alternativas contemporâneas do evangelho; pessoas que se relacione com as demais com vivacidade, ardor, autoridade e propriedade; pessoas que façam uso de suas mentes para ganharem outras mentes para Cristo.”

É possível dizer que somente a sensibilidade às alternativas contemporâneas do Evangelho permite a John Scott a rotulação liberal, ainda que mais à frente entendamos que essas alternativas não podem se desvencilhadas dos fundamentos cristãos inafastáveis e ortodoxos. De igual maneira, no decorrer de sua obra é perceptível que a crítica de John Scott se atrela justamente ao cristão que deliberadamente abdicou de proclamar o Evangelho com sua mensagem, naquilo que se observa na salvação alheia à Ressurreição, ou do sangue de Cristo desprezado em detrimento de suas benfeitorias sociais e de amparo aos pobres.

Ora, essa é a prática pela qual a Teologia Liberal [hoje em seus últimos suspiros de morte] conseguiu abraçar modelos doutrinários distintos. Bastou o estudo mais aprofundado de seus principais personagens para que fossem esquecidas as autoridades com as quais se amparavam os discursos de reflexão espiritual. Se Tolstoi foi esquecido e agora tido apenas por um grande intelectual anárquico (para isso é necessário também expor a anarquia capitalista, para o desespero dos tais), outros personagens, às centenas, rebaixam-se a meros ícones.

Em 2009, escrevi:

“E também [disse Fernando Pessoa] que se o que há de lixo moral e mental em todos os cérebros pudesse ser varrido e reunido, e com ele se formar uma figura gigantesca, tal seria a figura do comunismo, inimigo supremo da liberdade e da humanidade.

Como ocorreu com Bonhoeffer em sua teologia da soberania divina; tal qual Nietzsche na negação do socialismo; Dostoiévski na pré-psicanálise da mente espiritual; René Girard no mimetismo vitimicista, Fernando Pessoa não mais será citado nos âmbitos da alma piedosa. Trata-se do fenômeno da personalidade utilizável aos fins do ativismo, se dele emanam os odores da revolução.

John Scott entra para a lista infindável dos autores cristãos que foram denegridos pela perversidade teórica da Teologia Liberal. Ora, se hoje é ainda um dos autores mais lidos pelos cristãos, o é por reafirmar que o cristianismo precisa emergir de uma apatia oriunda do ativismo histérico tanto liberal quanto evangélico, se o que temos é a análise dos movimentos evangélicos americanos e que influenciaram os movimentos brasileiros. Ou seja, o elogio dos cristãos liberais a John Scott parte de uma influência direta da ignorância de suas obras, talvez no mero efeito retórico de seus principais títulos.

De fato, “Crer é Também Pensar” traz o peso de uma reflexão imediata da realidade evangélica contemporânea, contudo sem anular [do contrário, reforçando] a validade da fé  em Cristo e da evangelização cristã.

A valorização primordial da propriedade

O conceito de ganância atrelada à propriedade remonta às teses helênicas e, conjuntamente, à argumentação filosófica do naturalismo em sua essência fundamental: a igualdade precede a propriedade, diz-se. Richard Pipes já nos avisa que o conceito patrimonialista está atrelado ao desenvolvimento da sociedade como civilização constituída, se propriedade é o termo utilizado a toda e qualquer faculdade individual em sua livre aquisição e transação, seja intelectual, seja de facto; a civilização desenvolve-se a partir do conceito de liberdade, que culmina invariavelmente à destituição do Estado como gerenciador das relações privadas.

Diz Pipes que a liberdade não inclui o suposto direito à segurança pública e ao sustento (tal como é sugerido nos slogans liberdade de necessidade e o direito à residência), o que infringe o direito dos demais cidadãos, uma vez que são eles que terão que pagar por tais direitos. Estes são, na melhor das hipóteses, uma reivindicação moral, e na pior, se reforçados pela autoridade pública, um privilégio não merecido.

Platão em sua visualização limitada de civilização, em nome de Sócrates, proclamou a sociedade ideal, posteriormente rechaçado em Política, de Aristóteles. Este, refutando o igualitarismo proprietário, ressalta: as posses permitem que o homem ascenda a um nível ético superior, dando a eles a oportunidade de serem generosos. A liberdade consiste no uso que é dado à propriedade.

Inicia-se a derivação da Caridade, a partir da “filosofia da generosidade” aristotélica, concepção que veio a alicerçar os preceitos cristãos da Idade Média, tal qual a prevalência da Reforma como a exaltação do indivíduo em face do coletivo. Interessante, contudo, a tese do filósofo russo Vladimir Soloviev à caridade cristã, esta que subentendia a valorização primordial da propriedade para que, conseguinte à ética e amorosidade, seja repartida aos demais o essencial à existência, porquanto não há caridade sem propriedade. E Carlyle, em Medieval Political Theory, acerca dos primeiros teóricos da Igreja, sentencia que a propriedade privada era na verdade mais uma instituição disciplinatória que tencionava refrear e neutralizar a índole viciosa dos homens.

A propriedade privada, como antecedente da liberdade ocidental, instiga o homem inevitavelmente à Responsabilidade.