Sobre a festa da civilização e a festa dos bárbaros

Publicado em 10 de março de 2011.

O carnaval é uma festa popular e não nego. Mas o populismo que determina toda festividade não significa uma automática aceitação das caracterizações animalescas do público festivo. Em outras palavras, o carnaval tupiniquim é essencialmente bárbaro, servindo de amuleto turístico a chacotas no exterior. Mario Vargas Llosa disse certa vez que, se o Brasil quer ser levado a sério, que elimine então o carnaval. Escândalo. Como eliminar a festa que cativa anualmente a ralé ao pão e circo? Impossível. Llosa não conhece a complexidade da civilização brasileira. Em outro norte uma jornalista afirma que o Carnaval não é originalmente brasileiro e que se tornou, ao fim, um gasto estatal dispensável. Escândalo. A jornalista revela o óbvio mas paga o preço por retirar do povo feliz sua felicidade anual.

As consequências podem ser mais graves. A mera constatação de que o carnaval vienense exige etiqueta, cultura, reverências e cortejos nobres já imputa ao carnaval brasileiro certa subjugação intelectual, porque não se compara a rudeza do carnaval daqui com o formalismo histórico e civilizado de lá. São dois mundos distintos, água e óleo que definem belamente o abismo que há entre a festa da civilização e a festa dos bárbaros.

Os noticiários também não perdoam. Em Portugal, o carnaval brasileiro é “um misto de propagação de toda sorte de doenças e exploração governamental do populismo da festa”; na Espanha, limitam-se a afirmar que “as fantasias são realmente belas, mas contrastam com a destruição anual do meio urbano”; na França, uma comparação entre “o antes e o depois dos carnavais europeu e brasileiro”. No primeiro não se via sujeira, e os banheiros públicos limpos como dantes; no segundo, a degradação tal qual o nível intelectual daqueles que lá colaboravam.

São as consequências da comparação cultural, algo que define por séculos os limites intransponíveis que submetem uns a outros, dos quais são geradas as hierarquias da civilização. Existe quem diga não haver culturas superiores: em época de carnaval, tais humanistas silenciam-se ou pela vergonha, ou por estarem ocupados.