No que capitalistas e socialistas concordam

Publicado em 16 de novembro de 2010.

*Faria hoje uma única alteração, substituindo “capitalismo” pela palavra que delimita e elimina do imaginário marxista o estereótipo criado e mantido por Marx: o “mercado”. Se o “mercado” pode ser entendido pela simples relação de troca voluntária (qualquer que seja), cresce a desvantagem discursiva daqueles que utilizam o termo “capitalismo” como um sinônimo do mal material supremo ou de uma ganância genérica, vinculada à denúncia do consumo, lucro e propriedade. A luta contra o consumismo nos dias que correm não tem fundamento e é jargão politizado que mascara tendências mais extravagantes, e portanto mais histéricas. 

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Se há um consenso que reúne e fundamenta toda e qualquer teoria econômica desde o século XVI, impelindo reformas político-econômicas, perfazendo a imaginação de um mundo imaculado onde seus habitantes estariam subjugados à perfeição moral e igualitária, construindo a mentalidade do Progresso Eterno, é aquele que exclui ou penaliza o indivíduo que, podendo, não produz; e, apto ao trabalho, implora por regalias permanentes de ordem financeira.

A censura a tal comportamento, degradante em suas premissas filosóficas e impensável no âmbito econômico, é de tamanha pertinência sociológica que sequer nos regimes de insistência anti-meritocrática, estancados na mera objetivação da força de trabalho, as regalias econômicas eram vistas como de saudável sustentabilidade e submersas no brocardo marxista da paridade entre trabalho e produto, labor e obtenção inafastável de seus resultados, ainda que destituídos da concepção do lucro e investimento capitalistas.

Se no Capitalismo “não há almoço grátis”, no Socialismo “não há comida para quem não trabalha” no que se refere às rações alimentares rateadas àqueles que participavam do “processo revolucionário industrial”. Se no Capitalismo o trabalhador é visto como partícipe na construção econômica de geração de riqueza, no Socialismo o “proletário“ é agente atuante na manutenção perpétua do progresso igualitarista, no qual são escamoteadas as condições que viabilizam o crescimento do processo revolucionário.

Tal realidade de regalias pagas por seus concidadãos se concebe em tamanha destrutividade social que sequer o indigente, como indivíduo que geralmente está mergulhado em decadências pessoais e vícios de toda sorte, é definido em paridade para com aquele que tem os meios de sustento próprio, mas que não o faz por saber que outrem, impelido pelo Estado, prover-lhe-á subsistência. A mendigagem, do contrário, é geralmente tida como decorrente de fatores externos que retiram do inapto qualquer chance de labor e subsistência, porque o mesmo se encontra incapaz de coadunar sua atual condição produtiva com as condições minimamente exigidas pelo mercado.

O desprezo inevitável ao viciado considera, antes, a performance de hábitos socialmente reprováveis e que são, à sociedade, exemplos a não serem perseguidos; quando menos, indivíduos a serem amparados por atividades caridosas individuais. O indigente, ainda que menosprezado, dificilmente será tratado como agente que se submete às rédeas do Estado para auferir benefícios esparsos, pois que, do contrário, é ele ignorado até mesmo nas concepções essenciais do estatismo assistencialista. O indigente é economicamente inócuo, e basta a provisão de meios que estejam relativos à sua capacidade produtiva para que, como em um relance de virtude, superados os vícios, a mendigagem seja imediatamente abandonada e tida como passado de vergonha a nunca mais ser vivenciada.

Opostamente, o indivíduo que se beneficia do assistencialismo estatal é antes menosprezado não por sua real incapacidade de manutenção de subsistência, mas pelo real entendimento de que, não laborando, ter-se-á em mãos as verbas providenciadas pelo sujeito produtivo, que fora anteriormente coagido pelo Estado a transferir de seus rendimentos valores ao beneficiado. Este, observado pela sociedade como um edema, faz-se constantemente a célula do processo cancerígeno que perpetua na sociedade toda sorte de discrepâncias não somente políticas, mas também de cunho moral.

O desprezo pelo beneficiado por programas de assistência estatal não é em vão: ele há de ser socialmente execrado e naturalmente julgado por seus próximos tal qual aquele que vergonhosamente usufrui das benesses do labor alheio, visualizado como a decadência personificada que com cinismo particular exige respectivos direitos ausentes de deveres. Esse processo, que está em sua fase originária e que ainda não encontrou ressonância na opinião majoritária, começa somente agora a se alastrar para o que parece ser um dos poucos pontos possíveis de reunião de movimentos anti-coletivistas, os quais se antes eram sequer rememorados, atualmente estão em expansão exponencial.

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Os habituais críticos do cristianismo

G. K. Chesterton:

“Os habituais críticos do cristianismo não estão realmente fora dele. Encontram-se em estado de reacção contra a tradição religiosa. Não conseguem ser cristãos nem deixam de ser cristãos de uma vez por todas. Continuam a viver à sombra da fé, mas perderam a luz da fé. O anti-clericalismo destes homens transformou-se numa atmosfera; uma atmosfera de negação e de hostilidade da qual não conseguem escapar: Queixam-se de que os eclesiásticos andam vestidos de eclesiásticos, como se fôssemos muito mais livres se os polícias que nos seguem ou nos apanhem andassem vestidos à paisana. […]

Ora, a melhor relação que podemos ter com o nosso lar espiritual é vivermos suficientemente perto para o amarmos. A segunda melhor, porém, é vivermos suficientemente longe para não o odiarmos. O melhor juiz do cristianismo é um cristão, o segundo melhor juiz será, por exemplo, um confucionista. O pior juiz é o cristão mal formado, que gradualmente se transforma num agnóstico mal disposto, enredado até ao fim numa batalha cujo começo nunca compreendeu, afectado por um tédio hereditário, já fatigado de ouvir o que nunca ouviu.”

Church and state

One Theology:

On the other side of the spectrum, Constantinianism is characterized by an unmitigated fusion of church and state, such that the two basically become one. Proponents of this approach view civil government as a vehicle of God’s redemptive purposes in the world, and thus they believe that public policy should be an extension of the divine will. The magisterial reformer John Calvin is a great example of this outlook. For Calvin, the state is to be the mouthpiece of the church; the government is established in order to enforce the laws and commands of God.

Overall, I find both of these options to be unsatisfactory. Separatism does not take the Great Commission seriously enough. Christians are called to be “salt” and “light;” we are summoned to bear the very image of Christ in this world. In doing this, we are to draw all people to the living God. How can we accomplish this if we withdraw from the world, out of sight from the societies and cultures that God so badly desires to redeem?

At the same time, Constantinianism is far too optimistic; it simply does not take into account the depravity and sinfulness of humankind. Because political systems are run by fallible human beings, political systems will never be able to perfectly carry out the will of God. Power tends to be prone to corruption and thus is easily polluted. Historically, when church and state have been intimately wedded, and thus when the church has been endowed with a great deal of political power, the church has often fallen prey to coercion, manipulation, and outright violence. Furthermore, civil laws and legislation alone do not have the ability to transform hearts and renew minds; only the Spirit of God can truly change a person from within and thus procure true redemption.

Based on my general dissatisfaction with these two historic approaches, I would like to offer a third option: The “Christian engagement model.” Like separatism, the Christian engagement model emphasizes the importance of the church being holy and set apart. However, contrary to separatism, we do not withdraw from society, but engage every aspect of it. Like Constantinianism, this model stresses the need to dramatically impact the world for Christ. However, we do this through means of influence and persuasion rather than through coercion, control, and force. Christians are called to engage every area of human life with the gospel of Christ Jesus. Therefore, in opposition to the current landscape, Christians must have a voice in the marketplace; we must make our mark in the public square. The kind of compartmentalism that the privatization of religion demands is psychologically unhealthy and downright damaging to human society. Thus, the Christian engagement model calls for Christian voices in mathematics, philosophy, the arts, the sciences, politics and every human discipline imaginable.

Leszek Kołakowski traduzido

Apesar de me faltar experiência no ofício, darei início a uma série de traduções do fenomenal Main Currents of Marxism, de Leszek Kołakowski. O livro é um primor no estudo do marxismo e tenho em mãos sua edição completa, a qual se divide em The Founders, The Golden Age e The Breakdown, outrora lançados em três estudos distintos, mas complementares perante o entendimento exímio de quem era e o que representou Marx, seus teóricos e políticos. A profundidade da obra e sua complexidade teórica não afasta a objetividade discursiva de Kolakowski, forma pela qual Main Currents é não somente um estudo, mas também um manual de avaliação histórica e de percepção dos caminhos políticos assumidos pelos estados contemporâneos.

Minha leitura não seguiu a ordem disposta no compêndio, sendo que The Breakdown, na análise do Stalinismo e da decadência teórica do marxismo, foi a minha primeira imersão em um mundo de avaliação não somente honesta, mas também inevitável feita por Kolakowski dos fatos inerentes à decadência soviética oriunda dos inescrúpulos totalitários da época. De forma que as traduções não irão seguir uma estrutura linear dos argumentos expostos no livro; antes, serão trechos principais por mim extraídos de cada capítulo, com explicações adicionais em caso de necessidade extrema.

Longe de ser apenas mais um antimarxista assumido, Kolakowski transborda em cada palavra a honestidade de seus estudos, no que se observa em The Golden Age, onde se situa a avaliação da era dourada dos teóricos marxistas então sufragados pela corrupção completa das revoluções de Poder. Interessantemente, adentrar ao campo da decadência teórica do marxismo é como espelhar a situação atual do mundo latino, o qual não conseguiu se desvencilhar das consequências políticas que emanaram também da corrupção do espírito e da [tentativa de] eliminação da ansiedade religiosa. Ao final, Kolakowski não nos deixa esperançosos, e talvez nisso esteja a beleza da realidade histórica de suas advertências.

Francis Arinze

Assim como o discurso de um estudante negro privilegiado sobre o branco, por imposição do Estado, tem seu respaldo na famigerada “justiça social”, então disposta a imputar a brancos e orientais a responsabilidade que não existe, de igual forma na Igreja de Roma a escolha de um papa negro, africano e reafirmador do Concílio Vaticano II se fundamenta na supressão da tradição mediante a escolha de uma nova liderança que seria, para todos os fins, um subversivo revolucionário e adepto das políticas mais modernas. O eurocentrismo papal é a nova acusação. Que Arinze seja então requisitado, não pela cor de sua pele, menos ainda por representar um símbolo ideológico de renovação meramente política, mas por sua pertinência nas palavras e no espírito de suas intenções.

Sobre a festa da civilização e a festa dos bárbaros

Publicado em 10 de março de 2011.

O carnaval é uma festa popular e não nego. Mas o populismo que determina toda festividade não significa uma automática aceitação das caracterizações animalescas do público festivo. Em outras palavras, o carnaval tupiniquim é essencialmente bárbaro, servindo de amuleto turístico a chacotas no exterior. Mario Vargas Llosa disse certa vez que, se o Brasil quer ser levado a sério, que elimine então o carnaval. Escândalo. Como eliminar a festa que cativa anualmente a ralé ao pão e circo? Impossível. Llosa não conhece a complexidade da civilização brasileira. Em outro norte uma jornalista afirma que o Carnaval não é originalmente brasileiro e que se tornou, ao fim, um gasto estatal dispensável. Escândalo. A jornalista revela o óbvio mas paga o preço por retirar do povo feliz sua felicidade anual.

As consequências podem ser mais graves. A mera constatação de que o carnaval vienense exige etiqueta, cultura, reverências e cortejos nobres já imputa ao carnaval brasileiro certa subjugação intelectual, porque não se compara a rudeza do carnaval daqui com o formalismo histórico e civilizado de lá. São dois mundos distintos, água e óleo que definem belamente o abismo que há entre a festa da civilização e a festa dos bárbaros.

Os noticiários também não perdoam. Em Portugal, o carnaval brasileiro é “um misto de propagação de toda sorte de doenças e exploração governamental do populismo da festa”; na Espanha, limitam-se a afirmar que “as fantasias são realmente belas, mas contrastam com a destruição anual do meio urbano”; na França, uma comparação entre “o antes e o depois dos carnavais europeu e brasileiro”. No primeiro não se via sujeira, e os banheiros públicos limpos como dantes; no segundo, a degradação tal qual o nível intelectual daqueles que lá colaboravam.

São as consequências da comparação cultural, algo que define por séculos os limites intransponíveis que submetem uns a outros, dos quais são geradas as hierarquias da civilização. Existe quem diga não haver culturas superiores: em época de carnaval, tais humanistas silenciam-se ou pela vergonha, ou por estarem ocupados.

Confusão

O folclore universal do agnosticismo tem sua relação íntima com a crença espírita, esta que é uma manifestação essencialmente latinizada, com suas peculiaridades regionais, nas quais é possível delinear também um certo “brasileirismo”. Ainda que o conhecimento gnóstico seja o conhecimento mágico e místico (portanto, contrário à teologia cristã medieval), oriundo das superstições pagãs que denegriram três séculos de Cristianismo, é plenamente possível afirmar que o agnosticismo contemporâneo se limita à religião por mera displicência. O sujeito que afirma ser agnóstico e ao mesmo tempo um ansioso pelo conhecimento (à luz do que se lê em vários artigos agnósticos americanos) ignora e abdica do estudo que decorre do entendimento da cosmovisão a que se proclama. Ora, pode mesmo o sujeito afirmar que “seu agnosticismo” não se reconhece no passado e que é uma invenção moderna, um jargão, um apelido deformado sem qualquer fundamento. Contudo, mais interessante é observar que esse mesmo agnosticismo irreconhecível emana do sentimento espírita do mundo, o qual tenta ser religião sem Religião mediante a crença destituída de Fé naquilo que se limita à CaritatisÉ possível dizer que no espiritismo restou o que há de menos cristão e o que há de mais moderno: a caridade pela indulgência e a negação da religião por meio da neutralidade espiritual e, portanto, sem qualquer responsabilidade teórica. Mas se a caridade por si só não basta para a manutenção da fé cristã, no quê se dizem cristãos os espíritas também declarados agnósticos? Ora, se o espiritismo segue toda a estrutura espiritualista pós-moderna (como acontece com o esoterismo ocidental), não é de espantar que também coadunem conceitos antagônicos e contraditórios. A confusão é o germe do niilismo, e não há nada mais moderno que a confusão espiritual.