Duas reformas: o medievalismo que lhes falta

No banco dos réus da deturpação histórica do cristianismo medieval estão os protestantes, isso é inegável. Mas a deturpação se justifica não só no aspecto meramente político, devendo por bem ser considerada também uma extensão do descontentamento e da desconfiança que genuinamente emana da fé. Mas existe nisso a necessidade de estipularmos dois momentos distintos da Reforma: o primeiro, eminentemente vinculado à Igreja de Roma e que pressupõe não a ruptura, mas a tentativa luterana de renovação do trato católico dos assuntos espirituais; segundo, a expansão de movimentos independentes à própria Reforma, por esta também considerados movimentos heréticos e contrários ao espírito cristão – e pelos católicos também considerados movimentos reformados. Se estamos a falar da mera dissidência, o critério analítico da reforma sofre de um estigma simplificador incompatível com a natureza conciliatória do início reformista, ainda que se tenha a ruptura completa em Calvino e Knox. Disso, considerar a “sola scriptura” uma heresia é adentrar no campo não somente da Reforma, mas de todos os movimentos paralelos à Igreja Romana. A unidade completa e insofismável do cristianismo até a Reforma Protestante é um mito que se estende do absurdo à fantasia.

Assim, a idealização “da igreja traída pelos subversivos reformistas” toma os ares da contrariedade da unicidade cristã pela autoridade papal, o que de fato foi amplamente difundido em Calvino. Ora, mas os ortodoxos tiveram o mesmo sentimento de separação histórica e definitiva, conquanto considerados inicialmente o germe do espírito separatista da Reforma, à luz de sua influência patriarcal. Antes ignorados, hoje são tomados como exemplo à decadência da Igreja de Roma na Europa numa tentativa católica de reaproximação eclesiástica. Sim, porque se o “problema central ortodoxo” é a negação da autoridade papal nos assuntos espirituais, de igual sorte o “problema central reformado” é a negação não somente do papado, mas da “instituição Igreja Católica Apostólica Romana”, em um aprofundamento negativista que descambou na criação de frentes independentes de evangelização protestante, contudo reunidas nos fundamentos e princípios ditados na Reforma. Do que se conclui que a negação da autoridade papal não é o principal nexo institucional de separação entre reformados e católicos, à luz dos fundamentos da cisma ortodoxa que veio a proclamar a relativização do papado.

Na evidência de que foi o protestantismo o principal meio de propagação, por exemplo, da perversidade da Santa Inquisição, em oposição e ignorância aos registros históricos e na criação da mitologia inquisitiva – aquela que fez da Inquisição a assassina de milhões (sic) -, também a eles foi concedida a formulação estrutural da Teologia Liberal, hoje alastrada como câncer nas denominações latinas. É fato que foi de reformados donde se ressaltou a elaboração da “doutrina relativista da autoridade bíblica”, principalmente no que concerne à negação não somente da autoridade, mas também dos fundamentos cristãos milenares e pacificados na tradição católica. No que se vincula a Teologia Liberal a alguns dos fundamentos reformados, fica evidente que liberais se sobressaíram justamente em um dos principais pontos doutrinários do catolicismo, a saber, a negação da Bíblia enquanto único caminho existente entre revelação divina e homem pecador: “sola scriptura, a Palavra se interpreta pela Palavra”.

A base discursiva da Teologia Liberal emana da experiência espiritual pessoal e subjetiva em detrimento da letra bíblica, o que implica necessariamente na negação sumária da “sola scriptura” na formulação das teses teológicas. É certo que faltou na Teologia Liberal o apelo à tradição apostólica da Igreja de Roma, forma pela qual seu enfraquecimento se mostrou eminentemente um afrouxamento teológico e, consequentemente, a decadência teórica. Mas tal aspecto não retira o mesmo cerne discursivo dos liberais, os quais mesclaram a exaltação da subjetivação espiritual com a relativização do pressuposto reformado “sola scriptura”.

A seguinte ressalva é comumente apresentada: a relação da Teologia Liberal com a negação da “sola scriptura” em nada corresponde à negação da “sola scriptura” feita pela Igreja Romana, uma vez que esta já mantinha o alicerce da tradição apostólica e aquela, sequer possuía tradição. O que é verdadeiro. Entretanto, no que nos conduz o estudo do liberalismo teológico até os dias de hoje, a ramificação de duas vertentes aparentemente distintas não pode ignorar sua origem comum em um dos fenômenos mais combatidos pelos reformados calvinistas, justamente por denegrir paulatinamente a Tradição Cristã (que não ignora os grandes filósofos medievais) nos escombros relativistas. O calvinismo foi o antagônico premente do subjetivismo teológico, principalmente pela observação dos Tratados e pela delimitação doutrinária que circundava as Escrituras. Por isso os teólogos liberais atualmente com ênfase criticam a teologia calvinista, na tentativa de atribuir na “sola scriptura” a conotação do exclusivismo pré-moderno, decorrente da famigerada vinculação do calvinismo ao desenvolvimento do “espírito capitalista” [cito aqui a expressão consagrada em Weber] e movimentos puritanistas.

O tema nos oferta um entendimento mais amplo e esclarecido das atuais tendências da teologia liberal, principalmente em território latino, onde a facilidade da propagação das heresias teologicamente existencialistas é diretamente proporcional à ignorância dos protestantes dos fundamentos cristãos medievais. No que pesa a teologia liberal ter se infiltrado definitivamente no entendimento protestante [principalmente arminiano] do mundo, é certo que a acusação da permanência do liberalismo teológico enquanto aparente teologia merece seu peso sobre os ombros das denominações protestantes. Não todas, isso é certo. Ainda há reformados que se prezam à rigidez doutrinária, oriunda diretamente do estudo aprofundado da teologia, esta negada pelo subjetivismo como o diabo foge da cruz.

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Um adendo pertinente à discussão: Leonardo Boff e outros hereges, quando e uma vez excomungados, não podem ser incluídos enquanto representantes institucionais da Igreja de Roma. Assim como a exclusão do corpo de membros é nas denominações também uma proteção da sanidade tradicional, a excomungação delimita à heresia sua consideração doutrinária e teológica, as quais não merecem qualquer relevância teórica. Como os traidores de qualquer movimento tradicional, aqueles que lhes dão trela agem em detrimento da autoridade papal e institucional que alegam respeitar e, disso, merecem o total prejuízo da confissão. Sem eu considerar o incauto, talvez seja por esse motivo que figuras da estirpe sejam mais bem ovacionadas por… protestantes.