Coerção e liberdade

O libertarianismo enquanto capitalismo anárquico tende a vincular o trabalhador à idealização do labor e também à idealização da opressão. São o oposto do liberalismo clássico. Se a mensagem central é a “ausência de coerção”, de certo que o homem coercitivo, talvez aquele mesmo o grande empreendedor, não teria espaço na utopia justamente por representar a estirpe que conduz as relações econômicas também às relações de dominação. Se, do contrário, imagino que as relações econômicas são coercitivas em algumas formas de contrato e na segurança jurídica (o que implica necessariamente na existência do Estado – sequer ouso discutir os tribunais privados), de igual forma a utopia libertária faz de qualquer coerção uma das características do conservadorismo. Não lhes retiro o motivo; certamente o conservadorismo é coercitivo. O problema maior está em atribuir também aos valores morais o sentido máximo da coerção, prática comum dos coletivistas. Se e quando explico minhas razões sobre o homossexualismo, sem sequer submeter minhas razões a uma solução prática do problema, imagina o libertário que nas razões se exprimem a coerção de opinião, aquela que não necessariamente envolve o Estado. Na imagem da utopia, é possível que os julgamentos morais individuais, sem qualquer relação com o Estado, também sejam resquício e/ou criadores de um ciclo coercitivo insuportável à anarquia. Por isso não raro se observa no libertarianismo a condenação aos julgamentos de valor e à mera opinião acerca de fatos que envolvam os movimentos modernos, como o feminismo. O libertarianismo cai na armadilha comum dos pós-modernistas: se a opinião de valor está inserida na máxima dos julgamentos que devem ser rechaçados, de igual forma o indivíduo enquanto tal não traz sobre si o poder de proferir a opinião de fato coercitiva, ainda que essa coerção seja apenas e tão somente um símbolo retórico de descontentamento em face da liberdade. Ou seja, atado no discurso da opressão, a opinião de valores para libertários e coletivistas corrobora a existência do oprimido, de maneira que a própria liberdade sairia prejudicada; e não haveria pecado maior que trazer à liberdade o risco do ofuscamento. Em nome da liberdade utópica, criamos frouxos que anseiam libertação como qualquer hippie que hoje mendiga esperança em semáforos urbanos.