Dawkins também comemora o Natal

Seguindo no caminho contrário de seus colegas, os quais denunciam toda e qualquer festa religiosa como uma imposição coercitiva, anualmente Richard Dawkins publica e republica artigos que justificam sua aptidão às festas religiosas; não somente o Natal, é de se constar (por festa, entenda qualquer manifestação festiva religiosa, não somente o Natal, não somente a Páscoa judaica). Por óbvio que a justificativa de Dawkins segue o padrão meramente pragmático em definir “festa religiosa” a festa que decorre de uma tradição de fé e de reunião familiar, circunstância que causa estranheza ainda àqueles que tentam separar as datas festivas de seu simbolismo religioso. Acalentado e ainda não tão enfático na briga contra as festas religiosas, Dawkins deixa em aberto o motivo de sua tolerância amplamente contraditória aos motivos de sua luta ideológica contra as manifestações de fé. Por qual motivo, ao tentar invalidar a religião, Dawkins também tenta validar suas datas festivas?

No Washington Post, explicou Dawkins:

“Like many of my Christian friends, I am not overly fond of the commercialization of Christmas. I bristle at seeing decorations any time before Thanksgiving and this year I’ve been particularly annoyed with a car advert that has hijacked one of my favorite secular holiday songs. However, I let all that fall away and think about being with my family and spending time laughing, telling stories, and watching the joy of Christmas shine through the eyes of my niece Quincie.

Christmas belongs to anyone who wants it, and just because I gave up believing in a god doesn’t mean I gave up believing in the love and joy of family. I did not give up the joy of celebration with my abandonment of the absurd. So to my religious and non-religious friends, I wish them all a Merry Christmas or a Happy Hanukkah from the heart and I hope they take it with the true spirit with which I give it – that of the spirt of humanity – something we can all celebrate.”

“Christmas belongs to anyone who wants it” poderia ser categorizada com uma frase de delinquência intelectual, mas sua proposta antecede a dissimulação aparente. Sim, porque se estamos falando das festas religiosas, e das festas que são motivadas pela estrita convicção religiosa, falamos do seu legado de influência histórica, familiarmente amparada pela fé mutuamente proclamada e baseada unicamente em um liame entre a religião e seus símbolos. Dawkins bem sabe que a tarefa de desestimulação das tradições religiosas foi tentada oficialmente somente nos estados totalitários do Século XX, forma pela qual o plano sucumbiu em seu próprio aparato utópico.

A tática é utilizada somente pelos ateus iniciantes no ofício. Raríssimo, portanto, observar um ateu militante que tenha em sua agenda a invalidação das tradições festivas oriundas da religião, nas quais se observa a externação mais evidente da educação religiosa no seio familiar. No máximo, teremos a observação recorrente de que certos símbolos seculares então apregoados foram retirados de tradições festivas pagãs, como a tão conhecida árvore de Natal, no que temos a direta relação entre a tentativa dos cristãos em eliminar dos templos religiosos a figura da árvore natalina para a inserção definitiva da cruz de Cristo. Mas esse “ataque” é insuficiente e tímido, pois que não tenta a priori desacreditar a festa religiosa; tenta antes alocar a festa à sua mutabilidade cultural, não obstante não ter qualquer efeito sobre a fé que circunda a comemoração tradicional. Opostamente, é a cruz de Cristo que vem incomodando a festa que lhe é devotada, ao que temos as recentes discussões sobre se é possível em espaços públicos, no que refere ao Natal, estar presente a cruz enquanto símbolo religioso. É possível haver Natal sem Cristo e sem cruz?

Essa é a preocupação também de Dawkins, o que se revela em outros artigos que visam justificar sua participação do Thanksgiving americano, ainda mais cristão que o Natal universalmente ocidental. Porém, a tentativa de Dawkins em retirar o simbolismo religioso das festas tradicionalmente religiosas é perceptível quando para sua comemoração ele também se utiliza da falácia do amor que norteia as festas, seguido da reunião familiar que ampara de igual forma a fé cristã em todas as manifestações comemorativas. Se evidentemente não é esse um detalhe bastante para que se suporte uma comemoração religiosa (tal qual qualquer comemoração ocorrida dentro de templos e santuários), Dawkins nos deixa ao sabor do último tempero da cartilha: seria a participação no Natal de um não cristão realmente um ato de mero contentamento, algo que se limita à beleza e à simpatia de um encontro familiar e do prazer da boa conversa?

Pelos critérios mais rígidos, é possível dizer que o Natal de Dawkins é simulacro tal qual qualquer festa que, se religiosa, tem por participante aquele que não compartilha da fé uma vez vinculada às comemorações. Ou seja, o indivíduo que não reconhece a fé debruçada na rememoração de forma alguma compartilha da festa religiosa em si estabelecida, ainda que esteja aos deleites retóricos de uma festa genérica, desincumbida de qualquer alicerce religioso, uma festa por si só existente. Apesar de reconhecê-la, quanto ao Natal é possível afirmar que Dawkins não o comemora e, apesar de usufruir da mesma reunião familiar, não usufrui das motivações de fé que vinculam a família à recordação cristã. Em suma, Dawkins fala do Natal que de fato existe: é Natal somente ao cristão que reconhece a comemoração do nascimento virginal de Jesus Cristo. O que vai além e aquém disso, Dawkins então já nos dá seu motivo: mais vale a festa que seu valor eminentemente religioso. Mesmo ele nos impele a imaginar o desfecho de sua investida: você, não cristão, não comemora e não participa do Natal, apesar de participar da culinária que o acompanha e da família que faz do Natal uma comemoração anexada à fé cristã. “Christmas belongs to anyone who wants it”. Mas o Natal do não cristão se escreve com “n” minúsculo.

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A investigação das origens pagãs das comemorações natalinas não tem efeito prático se proveniente dos ateus justamente porque essa é uma preocupação cristã, que afasta consequentemente a mera utilização dessa investigação para a invalidação do caráter religioso da comemoração natalina. Antes dos ateus militantes lançarem estudos e livros sobre as origens pagãs do Natal, outras centenas de estudos já tinham brotado de seminários e teólogos, e esse é o motivo pelo qual o maior estudo já feito sobre o tema foi feito por um cristão. A utilização desse argumento enquanto estratégia de combate à  religião tem minguado ao ponto de se tornar mera nota de rodapé anualmente publicada. Bem sabem os secularistas que a maior preocupação do cristianismo sempre foi reciclar o valor espiritual da comemorações, tal como das liturgias pós-Reforma Protestante. No máximo podemos dizer que essa preocupação é uma batalha cristã: católicos vs. calvinistas.