O desespero insuportável do Natal

O desespero da época natalina, neste dia em que se celebra não somente o nascimento, mas também a rememoração da existência e da paixão de Jesus Cristo, não tem espaço e não é concebido no ideário festivo dos não cristãos e daqueles que imaginam ser Jesus Cristo um mero personagem histórico. Disso, perdeu-se o poder de humilhação, confronto e desconforto do valor simbólico do dia natalino, principalmente no que concerne à mensagem salvífica de Jesus Cristo. Não irei aqui denunciar o consumo e os presentes; ora, os presentes, a boa comida e a reunião familiar é prática milenar justamente daquilo que faz da festa também o local de tradição religiosa. A denúncia ao consumo parte em sua via mais enfática dos protestantes; e não há protestantismo que consiga sobreviver sem a sua origem de valorização das trocas. Mas divago. O desespero do Natal [não obstante os denuncismos anualmente repetidos como que em um ritual meramente discursivo] não está entre os cristãos, os quais utilizam da data tão somente como fundamento de uma convivência familiar – o fazem justamente no motivo pelo qual a rememoração de Jesus Cristo é diária e constante -, mas está entre aqueles que não partilham dessa fé e que não imaginam sequer o que seja sua real comemoração.

Agem no embalo da festa sem motivo, da festa sem o fundamento cristão e da festa sem o alicerce da existência; agem na repetição festiva da falsa mensagem do amor universal e genérico, da dissimulação da vida de virtudes e bondades; agem na necessidade da caridade pela caridade, fomentada pela data e pela festa no espelho da tradição e na sombra da disciplina cristã. Festejam esfomeados nas migalhas da moral cristã, naturalmente negada. O que é essa festa pela qual os não cristãos se movimentam senão em um dia festivo como outro qualquer, mas de fato incrementada pelas frases e atos da benevolência vazia e insossa? O que é essa festa que tenta por todos os modos se aproximar de um cristianismo sem Cristo e da religião antirreligiosa?

Nesta data, o erro maior do cristão é negar a religião no pretexto de uma distância artificial da deturpação promovida pelos lobos. A denúncia deveria ser esta: “vocês, lobos em pele de cordeiro, que falam em nome do Cordeiro, são a negação da religião, falam a religião desvirtuada”. Mas em qual benefício, se o Natal não é mais a festa cristã, porém a festa de todos que influenciados pela tradição cristã juram se aproximar daquilo que os cristãos partilham?

A mensagem natalina é uma só e permanente: vocês que não são cristãos, não participam do Natal e, se imaginam participar na comemoração familiar, ao menos estão submetidos à herança irresistível da fé que condenam. O Natal é festa religiosa para os cristãos; aos não cristãos, é um desespero insuportável, mas que pode ser menosprezado pela ignorância, pela soberba e a pelas frases amorosas porém jogadas ao relento da existência sobre o nada, cambaleante e fraquejada, que anseia a todo momento a substituição do Deus cultuado e amado. O Natal do não cristão é isto: o falso amor e a falsa caridade, proferidos e aclamados pela maioria sem Cristo. O Natal conforme seu motivo, que é Cristo, é loucura e demência para quem deseja que o Natal seja justamente a comemoração vazia do amor e da caridade, que não bastam por si sós. Sim, porque se o desejo é tão somente proclamar amor e caridade, que proclamem nas comemorações de outro nome que não o Natal. O Natal é Jesus Cristo, nada mais. E aquilo para além de Jesus Cristo que também O exclua, Natal não é. É simulação da felicidade que o cristão vivencia constantemente ao ponto de separar um único dia no ano para comemorar o que se comemora internamente todos dias, todos os minutos. Aos não cristãos incorre o dilema de celebrar o incelebrável: como podem suportar o fardo de que se alegram no dia dedicado ao Messias que rejeitam? 

“A verdade é esta: que neste episódio da natureza humana, que é o Nascimento, há um caráter individual e peculiarissímo, psicologicamente substancial que não se pode interpretar como uma mera lenda ou a simples história da vida de um grande homem. Porque não incluía nossas mentes, sistematicamente, para a grandeza, para essa admiração empolada e exagerada dos reis e dos deuses a que, em todas as idades, encontrou propícia a mente humana, senão que é alguma coisa substancial em nós, que nos surpreende de dentro do nosso próprio ser, como se, explorando a nossa habitação espiritual, déramos, de pronto, com um aposento ignorado, até então, do qual saíra uma clara luminosidade. Alguma coisa que, ainda aos mais endurecidos corações, atraiçoa, com uma irresistível atração para o bem. Alguma coisa que não está feita com o que o mundo chamaria “matéria forte”. Alguma coisa que é tudo o que existe em nós de ternura eterna. Alguma coisa que é a palavra quebrada e a razão perdida, que se concretizam e se fazem positivas. Alguma coisa, finalmente, pela qual os reis exóticos vieram de um país distante, porque os pastores deixaram suas correrias na montanha e a noite e a caverna imperaram sós, recebendo algo que era mais humano que a Humanidade mesma.

[…]

Qualquer agnóstico ou ateu cuja infância conheceu um verdadeiro Natal sempre faz dali por diante, goste ou não, uma associação mental entre duas ideias que a maior parte da humanidade deve considerar como distantes uma da outra: a ideia de um bebê e a ideia de uma força desconhecida que sustenta as estrelas.” (Chesterton, The Everlasting Man)