O caráter quase religioso da defesa aos maias

No que se refere ao texto anterior, algumas manifestações me chamaram a atenção. Um leitor questiona: “você fala como se os maias não possuíssem uma herança de milênios”. Outro, intrigado, pergunta: “você não entendeu que os maias possuem até hoje uma influência espiritual?”. De fato, tais questionamentos não devem ser analisados na relação de um fato histórico, arqueológico, meramente de registro de uma civilização já perdida, mas sim por meio do prisma da paixão religiosa e dos limites estabelecidos para a defesa da causa. Ora, a diferença essencial dessa paixão é que, até certo ponto, a defesa religiosa não é assumida, porquanto dissimulada em uma aproximação espiritual necessária à humanidade. Se a estrutura de defesa aos maias segue a estrutura de defesa religiosa, é por meio dessa mesma estrutura em que a defesa aos maias tenta por seu próprio esforço vincular a paixão aos estudos históricos e, por isso, destituídos dos critérios religiosos mais essenciais. É ver que a atribuição histórica aos maias nunca vem desacompanhada de uma afirmação subliminar, praticamente esotérica, dos meios pelos quais os maias deveriam ser respeitados conforme seu legado espiritual. Se o legado é também espiritual, por que relutam em reconhecer que os maias também representam um sentimento religioso e de preenchimento existencial? Precisamente, a representação religiosa parte não de um alicerce teológico milenar, mas sim de uma série de estudos recentes e contemporâneos sobre os mistérios que circundam a cultura maia, o que já é o bastante para que a paixão religiosa seja transmutada em uma paixão pelo livre conhecimento, o conhecimento que no aspecto espiritual tenta trazer à atualidade os valores e costumes indígenas. Ou seja, mesma e idêntica paixão que faz dos indígenas do Século XXI também um exemplo de convivência e de fornecimento dos elementos espirituais perdidos pelo cristianismo, nos moldes discursivos do bom selvagerismo.