Os Maias e o bom selvagem

A atual atribuição aos maias de uma inspiração quase divina de seu legado está intimamente ligada à falácia do bom selvagem de Rousseau, não somente pela idealização profética de seu calendário, mas também pela elevação artificial do primitivismo ante a atual civilização. Isso pode ser melhor observado quando por um fenômeno meramente arqueológico é transferida aos maias também uma conotação de superioridade pagã, moral e tecnológica, não importando se tais caracterizações partem justamente da tentativa contemporânea de elevação do homem selvagem. Certo que esse elogio ao primitivismo não se limita aos maias; consegue ser visto também nos elogios ao primitivismo das tribos africanas. Antes de ser uma estrutura discursiva, o bom selvagem de Rousseau também é uma estratégia de convencimento, poderosíssima no sentido de atribuir falsamente virtudes as quais deveriam ser redescobertas pela humanidade. Mas somente nas falsas virtudes é que se pode também vincular a imagem dos primitivos maias à elevação espiritual, algo considerado sombrio e irrevelado mas adormecido pela cegueira do homem moderno. Mas a “modernidade” a que se referem os elogiosos não é a modernidade humanista criticada por Chesterton, e sim aquela que infere na relação direta entre civilização e cristianismo que por séculos conseguiu afastar a demência e frivolidade do paganismo.