O estranho elogio dos católicos apostólicos aos ortodoxos russos

Em âmbitos diversos, e sem eu querer definir quem está com a razão ou não, recentemente deparei-me com elogios sinceros dispensados à Igreja Ortodoxa Russa por parte de católicos apostólicos, quando da adoção expressa do Estado Russo à ortodoxia cristã (no sentido institucional) enquanto norte moral irrefutável, a mesma outrora proclamada por Dostoievski e combatida infantilmente por Tolstói na época dos czares. Estariam os católicos romanos caindo no conto do vigário de que a Igreja Ortodoxa Russa hoje é um dos braços fortes da Igreja Católica Apostólica Romana? Parece-me que sim. Ao menos é certo que foi abandonado o discurso de que as igrejas ortodoxas representaram o germe teórico da Reforma Protestante, principalmente no que se refere à desconfiança perante a autoridade papal:

Orthodox traditionalists, on the other hand, are not only justified for separating from Churches or Bishops which violate the dictates of Holy Tradition, but are required by the Holy Canons to do so. Any Church (or Bishop) which preaches heresy places itself in danger; and those who see that danger, whether laymen or clergy, must separate from it. We see, then, the basic and fundamental difference between Roman Catholic and Orthodox traditionalists. Traditionalist groups in the Roman Catholic Church are obliged to violate the ultimate authority in their Church to be where they are. We Orthodox traditionalists, however, must heed the ultimate authority in the Church to be where we are. And herein lies one of the most important differences between the Latin and Orthodox Churches in general: the Latin Church’s appeal to the authority of the Roman See and the Orthodox Church’s dependence on the authority of the wholeness of ecclesiastical tradition, the very Body of the Church.

Por isso a alegação recorrente de que a tradição ortodoxa é impossível de ser desmembrada sem a anulação institucional de sua Igreja, não obstante vincular a Tradição à própria natureza sagrada do corpo clerical.

Seria um sentimento basicamente ecumênico, no sentido de reunificar os credos pela dispensa da autoridade papal?. Desconheço, apesar de imaginar que o ode dos católicos apostólicos perante a autoridade espiritual da Igreja Ortodoxa Russa seja de fato uma inspiração de atuação institucional. Sim, porque é inevitável observar dois fenômenos que ocorrem diametralmente em uma realidade similar: a) a Igreja Católica Apostólica Romana que não soube administrar sua degradação regional pelos movimentos teológicos latinos, surgidos na década de 70, o que ocasionou inclusive campanhas de revisão histórica, as quais considero excelentes; e b) a Igreja Ortodoxa Russa, esmagada pelo stalinismo e obstruída em sua autoridade, nunca extinta das tradições familiares e hoje novamente tomada como a maior e principal instituição religiosa da Rússia, para o desespero dos socialistas de cá.

Seria um sentimento unicista crescente e que teve origem na celebração da Eucaristia de 1995 pelo Papa João Paulo II e o Patriarca Bartolomeu I, em plena Basílica de São Pedro? É bom lembrar que para muitos essa reunião se deu nas vestes de um ecumenismo impossível, principalmente no que se refere às manifestações dos ortodoxos das falas de Bartolomeu I.

O Monergismo e Montfort deles, o True Orthodox contém atualmente um dos compêndios de estudos e análises mais cobiçados no que se refere às motivações de defesa e propagação das tradições ortodoxas. E é por ela em que tradicionalmente Bartolomeu I foi sentenciando como aquele que tentou por meio do ecumenismo aproximar a tradição ortodoxa da autoridade papal:

Is Bartholomew sincere in calling this successor of the heretic Evtyches, a denier of the incarnation of Christ, “much beloved and dear brother in Christ God ”?! Does he really believe that this Monophysite Patriarch and “all the Armenians…are faithful to Christ ”? How can those who deny the incarnation of Christ and make it an illusion, saying that he had no real body, but simply manifested some kind of anthropomorphic form of His Divinity, how can these be a part of the Body of Christ which they deny? Rather, as the Apostle John says, “Every spirit which confesseth not that Jesus Christ hath come in the flesh is not of God. And this is that spirit of the antichrist, which ye have heard that it is coming, and now already it is in the world” [1 Jn. 4:3].

But we have forgotten that it was Bartholomew who confirmed the Joint Statements of the Monophysite-‘Orthodox’ dialogues, who reached such heretical conclusions as:

“[W]e now clearly realize and understand that our two families [Orthodox and Monophysites- editor] have always loyally guarded the same and authentic Christological Orthodox faith, and have maintained uninterrupted the apostolic tradition although they may have used the Christological terms in a different manner. It is that common faith and that continual loyalty to the apostolic tradition which must be the basis of our unity and communion… The two families accept that all the anathemas and the condemnations of the past which kept us divided must be lifted by the Churches so that the last obstacle to full unity and communion of our two families can be removed by the grace and the power of God. The two families accept that the lifting of the anathemas and the condemnations will be based on the fact that the Councils and the fathers previously anathematized or condemned were not heretics….”

Bartholomew is not a man who does not back up his words with actions. Consequently, he has quite concretely manifested the unity of the Ecumenical Patriarchate with the heretical Monophysites through various concelebrations with the heads of that blasphemous group as well. For instance, there was his concelebration with Aram I, Armenian Monophysite Catholicos Patriarch, in 1997(pictured above), or the one with Pope Shenouda of the Coptic Monophysites in 2001 as we read in the Arabic magazine of the Coptic Monophysite Patriarchate, Al-Keraza […].

Sobre o ecumenismo ortodoxo, o também excelente Orthodox Info:

I have set up these pages, and scanned in many of the articles, solely to help raise the level of awareness about a problem that has caused much controversy within the Orthodox Church. I am speaking about ecumenism (and its midwife, modernism). Briefly, modern ecumenism is both a movement and an ecclesiological heresy. It poses a grave threat to the very “pillar and foundation of the Truth” (1 Timothy 3:15) itself—the Church. And it really does matter what the “average layman” thinks about it. I hope this will become more clear as a one’s level of awareness concerning this controversy increases. But more can be said now about the necessity of self-education.

Seria a petição dos católicos apostólicos um clamor unilateral, uma tentativa isolada de conciliar apostólicos e ortodoxos diante talvez de uma fraqueza regional em face da proeminência ortodoxa em território russo? De fato, há necessidade de estipularmos os limites entre Igreja e Estado Russo, muitas vezes imperceptíveis no exato momento em que a legislação segue os preceitos morais definidos pela igreja e em regra aprovados pelos russos. Mas tais limites servem não somente para uma pretensa aprovação do fortalecimento da Igreja Ortodoxa, mas também para delimitarmos se “o Estado Russo também é um Estado Clerical”, termo este comum agora nas principais discussões sobre o tema. Por ora, vislumbra-se nos questionamentos mais pertinentes uma necessidade de sobrevalorizar a necessidade de proteção de Estado à ICAR à luz do que ocorre na Rússia. Por exemplo, a argumentação em regra abrange uma proteção dos estados francês, italiano e espanhol, o que diante das atuais circunstâncias políticas desses três países soa impossível aos ouvidos mais realistas. Por outro lado, essa mesma idealização de uma unificação definitiva entre Estado e ICAR traz em pauta os questionamentos mais comuns, contudo crescentes: não seria essa a constatação de que por uma vertente os católicos apostólicos sucumbiram na Reforma e, hoje, sucumbem também à tradição ortodoxa ao ponto de conclamarem o ecumenismo? Na esteira do que se observa em discussões e apuração desse fenômeno, indiscutível que pende mais aos apostólicos considerar uma unificação, principalmente no que refere à depredação moral institucional.

Não serei criterioso: em muitos dos casos os católicos apostólicos irrefutavelmente imaginam ser a Igreja Ortodoxa [Russa] uma extensão do Vaticano, elogiando-a também em consequência de modelos práticos essenciais. Ingenuidade ou ignorância deliberada? Desconheço se esses mesmos questionamentos e se essa mesma atuação de elogios e apreciações foram importadas do Velho Continente ou se, como já dito, é realmente um sopro de esperança de que a força atual da Igreja Ortodoxa Russa contamine também a apatia da igreja latina.