“Então o que mais eu procuro?”

A fragilidade de Tolstói diante de sua batalha interna, que envolvia necessariamente Deus e a razão da existência, pode ser melhor lembrada em Uma confissão, de 1882. Na fraqueza de sua tendência suicida, Tolstói encontrava em Deus o seu sustento e a estrutura de sua felicidade. No niilismo crescente das motivações da vida, Tolstói retoma a fé outrora perdida pelos motivos por ele justificados na observação do clérigo ortodoxo. Como que cambaleando entre a busca em Deus e a busca por sua negação, o escritor russo pendia ora na perseverança em Deus, ora no desespero espiritual completo, decorrente de frustrações constantes em achá-Lo nas preces que fazia em privado. O que se segue, contudo, é o desfecho:

“Nesse momento olhei para mim mesmo, para o que ocorria dentro de mim, e lembrei-me de todas aquelas centenas de mortes e ressuscitações que já me aconteceram. Lembrei-me de que só vivi quando acreditava em Deus. Nesse momento, assim como antes, disse para mim mesmo: quando sei que Deus existe, eu vivo; basta esquecê-Lo e desacreditá-Lo que eu morro. O que são essas ressuscitações e essas mortes? Eu não vivo quando perco a fé na existência de Deus; teria me matado há muito tempo se não tivesse uma vaga esperança de encontrá-Lo. Pois eu só vivo, realmente vivo, quando sinto e procuro por Ele. “Então o que mais eu procuro?”, gritou uma voz dentro de mim. “Aqui está Ele. Ele é aquilo sem o qual não se pode viver. Ter consciência de Deus e viver é o mesmo. Deus é a Vida.

‘Viva em busca de Deus e então não haverá vida sem Deus’. E, com mais força do que nunca, tudo se iluminou ao meu redor e essa luz não me abandonou mais.

E me salvei do suicídio. Não poderia dizer quando nem como ocorreu essa reviravolta. Da  mesma forma como imperceptível e gradualmente se aniquilava dentro de mim a força da vida, até que eu chegasse à impossibilidade de viver, à interrupção da vida e à necessidade de suicídio, essa força vital voltou para mim do mesmo modo imperceptível e gradual. Mas o estranho é que aquela força que voltou não foi nova, mas aquela antiga que me instigava no início de minha vida. Voltei tudo ao mais antigo, àquilo que pertencia à infância e à juventude. Voltei à fé naquela Vontade que me gerou e deseja algo de mim; voltei àquilo quando o principal e único objetivo de minha vida era me aperfeiçoar, isto é, viver de acordo com essa Vontade; voltei a acreditar que posso encontrar a expressão dessa Vontade naquilo que toda humanidade produziu para se guiar no decorrer dos séculos que se perdem de vista, ou seja, voltei à fé em Deus, no aperfeiçoamento moral e nos mandamentos que transmitiram o sentido da vida. Só com uma diferença: naquela época tudo isso foi aceito inconscientemente, e agora eu sabia que não podia viver sem isso.”