O templo do humanismo

Onde se lê o texto de nossa bandeira, o “templo” da foto acima é um exemplar da chamada Religião da Humanidade, fundada por Augusto Comte. A pretensão do humanismo enquanto movimento político sempre se pautou na substituição da religião sagrada pela religião secular, ao ponto de fazer da metodologia científica uma tentativa automática de aniquilação da metafísica e teologia. É possível dizer que o humanismo de Comte está intimamente ligado ao cientificismo contemporâneo, o qual é mera atribuição discursiva à religião da retórica progressista e tecnicista. Contudo, o esquecimento de Comte pelo ateísmo atual não é sem propósito, porquanto tê-lo em ênfase seria assumir o caráter protorreligioso de um discurso basicamente materialista. Se desde os idos dos movimentos totalitários do final do Séc. XIX é afirmado que a ciência se tornou também uma entidade de afirmações de crença (ou, ainda, a ciência-entidade com “c” maiúsculo), inclusive incorporadas pelos estados, não sem motivo Comte tentou fazer dos métodos científicos aqueles que trariam à falência os métodos teológicos da religião.

Soar como hilária a investida do humanismo comteano não é o bastante: é preciso que Comte seja novamente colocado na pauta das discussões ateístas para que seja relembrada a origem de muitos de seus pressupostos hoje recorrentes. Disso, uma vez que o materialismo ateísta tenta se sobrepor à religião mediante o racionalismo discursivo – ou seja, o racionalismo que não decorre das validações, inclusive filosóficas, mas sim o racionalismo dos truques da lógica -, é factível que Comte tenha seu lugar ou no pedestal do humanismo, ou no caixão das principais discussões.

A aparente vergonha dos humanistas atuais perante o pai do humanismo científico não traz outra conotação senão retirar de seus ímpetos principais o germe da religiosidade. Religiosidade secular, leia-se, mas não menos substanciada na crença que permeia tanto a religião humanista quanto a religião sacra, esta última justificada porque reconhecidamente responsável pela ordem supra-humana e pelo desvendo de sua divindade e teologia. Quando se fala em Comte, fala-se dos fenômenos circulares e inclusivos da retórica ceticista aptos a retirar do ateísta contemporâneo a máscara da antirreligiosidade, vinculando-o a outra espécie de estrutura de crença e de afirmações de autoridade. Em suma, o ateísta comtiano, em espécie o ateísta atual, não sobreviveria em seus pressupostos se fosse a ele transferida a responsabilidade das origens de suas convicções a princípio destituídas de qualquer crença. Por isso Comte nunca é lembrado, e por isso Comte sequer é estudado pela maioria esmagadora dos céticos humanistas.

Atentar a seu nome permite questionamentos também de aprofundamento histórico e biográfico. Claude Henri de Rouvroy será também lembrado. O socialismo terá sua ponta no enredo positivista. O marxismo será explorado enquanto base elementar da moral humanista. O cientificismo será analisado enquanto crença, com a desvantagem de não ter os alicerces da teologia milenar.