Um diálogo sincero sobre o ambientalismo

Quando escrevo sobre meio ambiente, automaticamente sou servido por algumas manifestações de desalento perante meu ceticismo nas causas ambientalistas. Assumo que a minha impaciência em lidar com o assunto corrobora também as frases de máximas muitas vezes irrelevantes, mas que tendem a minimizar especulações sobre qual seria de fato a minha preocupação perante um dos assuntos que mais incitam atualmente paixões, ofensas e reflexões. Disso, a recomendação feita por um leitor faz todo o sentido. Disse ele:

“Talvez por eu trabalhar numa ONG eu não vejo a coisa pelo lado que você vê. Há sinceridade e honestidade na maior parte das causas ambientalistas mas não significa que eu referendo como querem os ideólogos. Concordo com você quando você diz que o ambientalismo é ‘ideologia’, mas discordo quando você fala que todo ambientalista age de má-fé. Não concordo com essa visão principalmente porque ela reduz o problema da destruição ambiental. Ao mesmo tempo sou liberal, reconheço que o ambientalismo ideológico destrói a riqueza da nação sempre visando o bem de macacos e papagaios e não dos seres humanos. Temos de lidar com o assunto sempre na vontade de discutir até que ponto o ambientalista ajuda ou prejudica a sociedade, essa é a minha preocupação”.

Não me recordo em afirmar que todo ambientalista age de má-fé. Do contrário, o mero questionamento das causas ambientalistas já implica no questionador o norte maléfico daquele que indiretamente deseja O Mal da Humanidade. Ainda que eu assim afirmasse, de certo atribuiria a má-fé também à ingenuidade da maioria ambientalista. O mundo é ambientalista, exceção é quem os põe de mãos atadas perante os benefícios ou malefícios da prática.

Por isso, é essencial entender que quando falo de “ambientalismo” falo não só da mera prática preservacionista, mas sim do ativismo político, regido na ideologia, conquanto fundamentado em uma estrutura persuasiva muito além do próprio ambientalismo. O que isso significa? Significa que grande parte daqueles que visualizam uma crítica aos ambientalistas atribuem sua causa à preservação, enquanto que os outros, ora, os outros são aqueles que querem viver na selva de pedra. As consequências dessa visão são sempre evidentes, pois que incessantemente de acordo com a imagem maléfica do sujeito que não somente obscurece os ímpetos do ambientalista, mas que posteriormente influencia, no debate, as motivações ideológicas por trás das aparências. Portanto, a sequência catastrófica do que tento impor em todo e qualquer diálogo no assunto não é assumido pelo ambientalista, uma vez que de início sua estratégia seria desvincular seus atos das ideologias por mim expostas, retirando-se posteriormente de qualquer politização apta a corroer sua sinceridade e macular a honestidade de seus argumentos.

Veja, leitor, que a discussão proposta corrobora não a utilidade óbvia e benéfica do meio ambiente (afinal, nunca fiz ode à extinção de macacos, como sugerido outrora por outros leitores); opostamente, a discussão a que proponho envolve o desvendo categórico da ideologia que abraça firmemente a defesa aparentemente inocente do ambiente natural. O impasse e as desavenças se iniciam no exato momento em que o ambientalista tem seus motivos postos em dúvida, uma vez que majoritariamente, diante da população, o ambientalista carrega a imagem da autoridade política, e não somente de autoridade científica. Enquanto autoridade científica, questionar seus motivos eminentemente políticos tem o condão de antecipar que a ciência proposta pelo ambientalista é, no mínimo, probabilista. Ou seja, se acompanho em um debate a sinceridade e honestidade do sujeito, é inevitável que em algum momento eu o questione acerca de suas motivações essenciais, aquelas pelas quais a defesa do meio ambiente extrapola as afirmações com base no método científico para adentrar ao campo das emoções preservacionistas e do paganismo pós-moderno. Disso, não há escapatória. O ambientalista é obrigado a assumir que defende não somente a preservação, mas “os motivos pelos quais a natureza deve ser preservada”. Se o argumento anterior se vinculava automaticamente ao aquecimento global, hoje encontra-se substanciado na divinização do meio ambiente e na demonização do homem urbano.

Duas frentes de discussão são abertas, portanto: a primeira pode ser concebida na coletivização da consciência natural, algo muito similar ao universalismo biológico de Avatar; a segunda pode ser alocada à tendência crescente do ambientalismo ideológico em implorar ao Estado as medidas que o indivíduo desrespeita. A primeira opção não tem respeito senão pela atribuição espiritualista dos discursos ambientalistas e a segunda, sequer é lembrada nos discursos mais inocentes e sinceros. Quando afirmo que o ambientalismo não sobrevive sem a coerção do Estado, escorre entre os dedos do sincero sua pretensão de salvação profética porque esclarecido a ele o fundamento da política que norteia, principalmente, seus argumentos mais básicos.

Novamente, temos duas propostas a serem seguidas: ou o ambientalista assume que sua defesa do meio ambiente é necessariamente estatista, por isso sempre encostada nas políticas afirmativas de educação ambiental, mediante taxação, impostos, penas e regulamentações, ou assume que sua defesa do meio ambiente segue critérios éticos suficientes a afastar qualquer subjetivismo. Nesse caso, a discussão dificilmente envereda ao caminho do salvacionismo meramente profilático e paradoxal, havendo em regra um consenso inevitável de que se o homem está na natureza, participa então das mesmas justificativas de preservação atribuídas à fauna e flora. Do que percebo, a única desavença possível é se um dos questionadores argumenta que o homem, ora, está acima da natureza [posição a qual concordo].

Contudo, reafirmo o que disse em 2009:

“Improvável o ambientalista observar o recinto filosófico como filosofia em si mesma, produção unilateral, individualista e exercício destituído do coletivo. Somente se pressupõe ambientalista aquele que exerce os ímpetos ativistas, o que factualmente exclui qualquer conclamação intelectual; o ambientalismo clama pelo coletivo, e somente nele subsiste. O coletivo ambiental, este é o aforismo da eupatia pensativa e simulacro das tendências de matula”.

Acrescentaria tão somente que a coletivização ambientalista, a mesma que tende à educação compulsória, somente pelo Estado mantém sua seriedade. Ao leitor acima citado, ficam então algumas das minhas constatações: a sinceridade e honestidade não afastam a dissimulação que ao menos tende a negar a coerção e regulamentação de Estado, assim como o ambientalismo meramente reflexivo, não ativista, não tem espaço nas investidas atuais de conscientização ambiental. Ambos agem de boa-fé e creio de fato que a honestidade nos argumentos perdura no trajeto que vai da escatologia ecológica à equiparação de todos os seres enquanto unidos por uma força imaterial, não obstante inteligente.

Apenas não queira ser levado a sério se a sua ambição existencial é salvar dos humanos os curiangos-do-banhado.

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