Os hábitos da religião secular

Recentemente adquiri Deus é Vermelho, de Liao Yiwu. A mensagem inicial do livro tende a transferir ao incauto, submergido no liberalismo teológico, talvez a vinculação entre evangelho e comunismo, cristianismo e socialismo, forma pela qual muitos deles teriam o impulso inicial em conciliar o que é inconciliável. Se o engano é proposital, surte efeito imediato quando nos deparamos não somente com relatos sobre como e onde vivem os cristãos na China comunista, mas também como age o Estado chinês na condenação do cristianismo e das práticas religiosas. É certo que a decepção de muito esquerdista, ao se deparar com este livro, venha justamente de sua estrutura: entrevistas entre o autor e demais cristãos, quase em diálogo. Essa estrutura é essencial para que se entenda os fatos narrados no livro, principalmente porque expõem de forma clara e concisa as artimanhas do Estado chinês. Se de um lado agiam na burocracia, de outro utilizavam-se dos discursos de opressão e imperialismo tão conhecidos pelo mundo latino. O comunismo de fato segue uma rotina discursiva insuperável. Porém, não só nos discursos, a religião perseguida (não somente o cristianismo, é de se atentar) submetia-se ao ateísmo de Estado, fruto do ateísmo ideológico, o qual hoje toma os contornos de teoria acadêmica. Isso porque o ateísmo e o culto aos personagens seculares, como Mao, eram prioridades inafastáveis da práxis que visava o adestramento dos movimentos religiosos e que periodicamente se indispunham para com o autoritarismo emanado da Revolução Cultural. A situação caótica, entretanto, demonstrava que em plena China totalitária a igreja se fortalecia e os templos, outrora demolidos a mando de Mao, agora se formavam em casas e becos, quando menos na individualidade do homem religioso – por exemplo, a proibição sob pena de morte daquele que ao menos movimentasse seus lábios em ato de oração. O secularismo e o culto a Mao tentou por sufocar a “superstição e o ópio” da religião sagrada, e os templos da “igreja oficial”, permitida e aprovada pela burocracia, serviam unicamente para reafirmar a proeminência quase divina do líder. Uma vez secularizada, a “igreja oficial” se tornou mero instrumento de reeducação compulsória.

Apesar de não representar grande novidade a quem está a par da Revolução Cultural chinesa, o livro permite que o leitor extrapole os relatos para que se faça uma comparação com os atuais discursos de eliminação das religiões. Conquanto a estratégia contemporânea ateísta esteja ainda em um estágio infantil de filosofia, não obstante na política segue o trajeto dos movimentos substanciados no Estado, ressurgidos no início do Século XX à luz da Revolução Francesa. Por isso, a petição constante do chamado “homem ateu” (a mim o mero secularista) de intromissão das políticas de Estado na vida religiosa deve ser observada atentamente, principalmente no que concerne às estratégias do laicismo e da isonomia tributária.

Ora, a tributação sobre templos, senão prática eficaz de enforcamento das doações voluntárias, foi uma das principais armas dos estados comunistas perante o voluntarismo caracteristicamente cristão, principalmente por estender aos templos e às crenças a burocracia fiscal e a corrupção dos agentes públicos. Se a não tributação dos templos indica o caminho do Estado em não se intrometer nos assuntos religiosos, uma vez que a tributação é a maior das características de coerção estatal, de outra maneira a tributação progressiva inclusive sobre o volume bruto de dízimos e ofertas é o oposto cristalino e já amplamente testado.

É de se dizer que os fenômenos discursivos do ateísmo contemporâneo segue a tradição dos discursos do ateísmo de Estado do Século XX, principalmente no que concerne ao menosprezo das religiões e dá fé individualizada. Não obstante isso, o caráter eminentemente estatista dos grandes movimentos ateístas extrapolou sua viabilidade política e “educativa” para interferir aos poucos no ambiente familiar. Já Arendt nos avisou que a família é o maior problema do totalitarismo, assim como a fé religiosa. Se no passado a intromissão deletéria era oficializada pela burocracia, hoje toma caracteres de uma intromissão que visa, finalmente, a tutela do Estado nos assuntos familiares. Como espelho da Revolução Cultural, a petição dos ateus e agnósticos pelas interferências do Estado na família (a motivação é diversa e em regra possui caráter pietista) deve sempre ser analisada com base na dissimulação de qualquer movimento que pretenda ideologicamente sufragar ou diminuir a atuação religiosa. O ateísmo ativista, nada além de uma releitura da apatia intelectual do agnosticismo mas histericamente abraçado nos mitos do progressismo e da ciência-entidade, não sobrevive sem a interferência do Estado no cotidiano religioso, principalmente no que se refere aos símbolos básicos da fé majoritária expostos nos ambientes público e privado.

É certo que o ode à ciência enquanto entidade teve influência direta dos movimentos totalitários do século XX, inclusive na sequência das estruturas de convencimento cético, o qual tem rígida base filosófica. Denegrir não somente a religião, mas também a fé religiosa comporta a ampliação do ativismo à religião genérica, no momento tida por uma espiritualidade ao menos supersticiosa. Como que no afunilamento da coerção, a limitação periódica e crescente da manifestação religiosa não foi abandonada, ao que temos ultimamente o clamor ateísta, por exemplo, por uma educação desconexa dos fundamentos morais religiosos (a “pura educação”, diz-se). Nesse fito, a inferência do ateísmo militante não se limita ao mero juízo de valor e às discussões acadêmicas; ao contrário, passa da doutrinação caracteristicamente ideológica à alteração legislativa de reafirmação dos pressupostos científicos enquanto antagônicos à religião. O Estado Comunista sempre teve o hábito de se declarar o Estado Científico, no qual a religião não teria espaço.

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O apelo de G.K. Chesterton (falecido em 1936) é atual e faz todo sentido nestes dias em que ciência e religião tentam suprimir a validade uma da outra. Se essa rivalidade foi trazida nas costas do chamado Estado Científico, hoje a promove quem de fato tenta trazer à mesa do espírito e metafísica a rigidez da ciência (a “tecnologia supersticiosa”, a “ciência do progresso eterno”, o “discurso de que, no futuro, tal mistério religioso será solucionado cientificamente”), assim como o discurso da religião que transfere sua potência aos estudos meramente materialistas (a tese da Terra Jovem é um exemplo claro). Se esse rivalismo apenas e tão somente se curva à dicotomia tão esperada pelos ateus, consequentemente esvazia a produção teológica que em um esforço inútil transfere suas forças às discussões irrelevantes perante a fé cristã. Ainda que a criação mesma seja um problema eminentemente religioso – a preocupação científica é recente e sempre se escorou nos pressupostos já consolidados pela religião milenar, inclusive em Agostinho -, sua significação acadêmica é secular, incumbindo ao cristianismo se inteirar, quando se está a falar de teologia, somente das preocupações também teológicas. Longe de eu propor aqui uma conciliação amigável entre uma guerra que é de fato ideológica (e por isso insolúvel), faço coro a Chesterton de que “nesses dias somos acusados de atacar a ciência porque queremos que ela seja científica. Certamente não há nenhum desrespeito indevido em dizer ao nosso médico que ele é o nosso médico, não o nosso padre, ou a nossa esposa, ou nós mesmos.” Interprete como quiser.