O cristianismo e o último bode expiatório

Completo aqui.

Confira aqui algumas das palavras de Girard, dentre outras que aguardam publicação. Por infelicidade, alguns dos textos sobre a tese de Girard merecem meu amadurecimento adequado diante dessa tese que de tão complexa explica a simplicidade do sistema vitimista. Já antes Girard afirmou: “Não tardará a aparecer um pensador que reformulará esse princípio [indulgência exacerbada às vítimas], conferindo-lhe um tom politicamente correto e uma forma mais virulenta, tornando-o mais anticristão numa caricatura ultracristã. Dizer que algo é, ao mesmo tempo, mais cristão e mais anticristão implica um conceito aparentemente estranho e despropositado que, no entanto, faz parte da experiência cotidiana. Os cristãos têm um termo para isso: o Anticristo. O termo ‘anticristo’ designa a ideologia que se pretende mais cristã que o Cristianismo, imitando-o de forma competitiva, entrando nessa rivalidade totalmente contrária ao próprio espírito do Cristianismo.”

Explico depois os motivos pelos quais a mão pútrida do liberalismo teológico tenta abraçar René Girard.

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[…] “Mas essa violência funda-se, essencialmente, numa ilusão. O sacrifício não tem, por si, o poder de gerar efeitos benéficos. Se estes acabam por se produzir, é por intermédio da crença generalizada que despeja os ódios sociais no inocente e aplaca uma sede de vingança irracional que a sociedade atribui a um deus, mas que vem dela mesma. Esta crença, por sua vez, vem do desejo mimético, que, se escolhe por objeto uma miragem, pode se satisfazer igualmente com uma miragem de causa quando se trata de explicar a origem dos males humanos.

Assim fecha-se o sistema: o mimetismo causa a insatisfação, a insatisfação causa os ódios, os ódios ameaçam a ordem social, a ordem social se restaura mediante o sacrifício do inocente, que então vira mais um deus no panteão do engano universal.

O ciclo sacrificial só é rompido uma única vez na História, com o advento do cristianismo. Cristo proclama a inocência das vítimas, a inocuidade dos sacrifícios, a falsidade dos deuses vingativos: ‘Todos os que vieram antes de Mim são ladrões.’ Ele substitui a vingança social pelo arrependimento individual, restabelecendo o nexo racional entre os atos e as conseqüências, antes nublado pela mitologia sacrificial. Da desmistificação do sistema antigo nasce não somente a consciência moral autônoma, mas a possibilidade do conhecimento objetivo da natureza: Cristo inaugura a primeira civilização – a nossa – que sabe haver mais justiça no perdão do que na vingança, mais verdade no nexo impessoal de causas e efeitos do que na atribuição de um poder maligno àqueles que desejamos matar.

A massa de documentos que Girard, paleógrafo de formação, submeteu a meticulosas análises de texto para comprovar sua teoria é impressionante: vai das primeiras mitologias indo-arianas às obras de Proust.

Não menos impressionante é a mudança de perspectiva que, sob o impacto da teoria girardiana, sofre a nossa visão das idéias e conflitos contemporâneos. O totalitarismo, por exemplo, aparece como o estado fatal a que caminha um mundo que, tendo rejeitado o antigo sistema mitológico sacrificial, não deseja pôr em seu lugar o cristianismo: não há saída senão voltar à matança de vítimas humanas, sob os nomes de ‘burguesia’, ‘judeus’, ‘reacionários’, ‘negros impuros’, ‘políticos corruptos’, etc. O nazismo surge, a essa luz, como uma oposição frontal ao cristianismo, preconizada por Nietzsche em páginas que defendem, abertamente, o retorno aos sacrifícios humanos. O socialismo, em contrapartida, é o simulacro que pretende substituir o cristianismo, sugando as energias cristãs para colocá-las a serviço da caça ao bode expiatório. Nas democracias capitalistas, o mais temível forma de anticristianismo é o ‘politicamente correto’, onde cada grupo, divinizando a própria autovitimização, se nomeia o sacerdote de novas vinganças sacrificiais.

Girard não diz isto em parte alguma, mas é altamente corroborador de suas interpretações o fato de que, de todos os povos discriminados e perseguidos, o único que não explora seus sofrimentos como meio para a conquista do poder de vingança é justamente aquele que mais vítimas forneceu à violência do século XX: o povo cristão, do qual pereceram pelo menos trinta milhões de membros no altar da perseguição religiosa – o jamais mencionado holocausto cristão.”