O darwinismo de Josh N. Gray

John N. Gray, entrevistado:

Qual é do seu ponto de vista o mito convencional mais presente na nossa vida, hoje?

Penso que o mito convencional que as pessoas mais cultivam, e em função do qual vivem, hoje em dia, é a crença no progresso. Como já lhe disse, não sou um relativista radical, ou um pós-modernista, considero que existe progresso no campo do conhecimento, há progresso quanto ao crescimento do conhecimento humano, há progresso na ciência, há progresso na tecnologia, tais progressos são um facto.

O que não aceita é a ideia do chamado progresso humano?

Não há progresso do mesmo género na ética e na política. Na ciência e na tecnologia, aquilo que se ganha, normalmente não se perde, se obtivermos um melhor entendimento na astronomia ou na biologia, não o vamos perder na próxima geração. Na ética e na política, tudo o que se ganha pode perder-se e em regra acaba por se perder. Foi isso, obviamente, que pensaram os gregos antigos, os antigos romanos, os chineses da antiguidade, os antigos japoneses e indianos, foi o que todos eles pensaram. Só nos últimos 200 anos é que os seres humanos, na Europa e noutras partes do mundo começaram a pensar no progresso, no progresso humano, no progresso em matéria de ética e de política. No meu entender, esta crença convencional, que a maior parte das pessoas aceita actualmente é um erro, uma ilusão e pode revelar-se perigosa.

E é por isso que fez daquilo a que chama o “humanismo moderno” o seu principal alvo? O erro fundamental do humanismo é então a crença no progresso humano?

Sim, o erro fundamental do humanismo moderno é a crença no progresso, mas abarca a ideia mais geral de que o aumento do conhecimento é, por si próprio, libertador, os velhos mitos do Génesis e de Prometeu, o velho mito grego, daquele que foi preso numa montanha por ter descoberto o fogo, são mitos de uma grande profundidade e sabedoria. Isto não significa que se possa deter o avanço do conhecimento, não significa que se possa ou deva inverter esse avanço. Como ensina o Génesis, depois de se comer a maçã, não se pode descome-la, temos de aprender a viver com isso, mas temos de o fazer de olhos bem abertos. As pessoas costumam dizer, nós podemos usar o conhecimento apenas com propósitos benéficos. Quem somos “nós”? A humanidade não existe como uma unidade colectiva única, há milhões, dezenas de milhões, milhares de milhões de diferentes seres humanos com propósitos diversos, diferentes crenças e diferentes valores, todos os seres humanos têm necessidades conflituais e contraditórias, é impossível, portanto, usar o conhecimento exclusivamente para fins benéficos, haverá sempre, também, uma utilização destrutiva. O melhor a que podemos aspirar é a obter um equilíbrio mais inteligente, no sentido de usarmos o conhecimento de uma forma um pouco mais sensata, ou um pouco mais benigna.

Que papel desempenha o darwinismo, a teoria da selecção natural, na sua argumentação?

Bem, por vezes sou descrito como uma espécie de darwinista radical e é claro que aceito a teoria darwiniana. É a melhor teoria existente sobre o desenvolvimento dos seres humanos e da vida existente neste planeta, mas uso a teoria de Darwin no meu livro “Sobre humanos e outros animais” não por a considerar um dogma inabalável ou uma ortodoxia. É porque muitos humanistas modernos dizem-se darwinistas, mas de facto tratam Darwin como uma questão de fé, afirmam ao mesmo tempo que os seres humanos são diferentes de todos os outros animais, dizem que Darwin mostrou que os seres humanos, como outros animais, outras espécies, surgiram por via da selecção natural mas que, depois do nosso aparecimento, passámos a poder controlar o nosso destino, podemos decidir o que fazer das nossas vidas. O meu argumento contra isso é o de que se o darwinismo é verdadeiro, como acho que é, então as espécies não agem, os seres humanos não podem agir como uma única entidade, tal como não podem fazer os leões, nem os tigres, ou as baleias, não se pode dizer que a espécie dos tigres vai determinar o seu futuro e o mesmo vale para a espécie das baleias. Há imensas baleias, muitas baleias individuais, imensos genes de baleias e movem-se num fluxo evolucionário, num processo, as espécies não conseguem controlar os seus destinos e os seres humanos, neste sentido, não são diferentes dos outros animais. Claro que os seres humanos são diferentes de outros animais, em alguns aspectos, os seres humanos escrevem livros de filosofia…

E conseguem reflectir sobre isso, pensar sobre isso.

E também se podem iludir, a auto-ilusão, não o engano que já foi observado nos pássaros e até nos insectos, outros animais podem enganar-se uns aos outros, agora, a auto-ilusão parece ser um atributo exclusivamente humano. Práticas como a tortura parecem ser exclusivamente humanas, o genocídio parece ser exclusivamente humano, há alguns atributos exclusivos dos seres humanos, alguns deles destrutivos, ou outros, como a religião, que parecem ser também exclusivos, quanto à música, não sabemos, a filosofia, seguramente, os golfinhos, tanto quanto sabemos não escrevem livros de filosofia… Existem algumas características únicas nos seres humanos, mas todas juntas não implicam um corte radical entre os seres humanos e os outros animais. Repare, no cristianismo, os seres humanos têm alma e os animais não. Quando Deus criou o mundo, segundo o mito cristão, criou muitos animais, mas os seres humanos eram radicalmente diferentes, quando os seres humanos morrem sobrevive-lhes a alma, quando morrem os animais é apenas a morte. Esta crença de base na diferença radical entre humanos e outros animais parece-me ter sido transferida para o humanismo moderno, para o humanismo secular, mas está em contradição com o darwinismo, portanto, quando uso o darwinismo neste livro, uso-o como uma espécie de arma contra o humanismo moderno, que se afirma darwinista mas não assimilou o essencial da mensagem de Darwin.

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Obs: afastando-me um pouco dessa deturpação contemporânea do darwinismo, a relação de intimidade entre o mundo animal e humano fala muito mais do que pretende e vai além da mera subjugação do homem ao mundo animal, ou, do contrário, de uma elevação artificial da natureza animal à natureza humana (note a divisão das naturezas). A discussão envolve da atribuição dos fenômenos animais ao homem à moralização da relação homem-animal, a qual pode ser considerada um aspecto eminentemente iluminista, não obstante difundido enquanto novidade que decorre da proximidade contemporânea entre indivíduo e meio ambiente. A discussão mesma dos direitos dos animais corrobora não só a preocupação de Gray, mas também a ponderação essencialmente materialista. Se para Bentham o sofrimento – e não só a capacidade de raciocínio – é o alicerce do respeito animal, para Aristóteles o animal tem por função a serviência ao homem, em similaridade gritante entre sua tese e o judaísmo. O questionamento a que se pretende, porém, implica no seguinte: qual é o limite insustentável da equiparação homem-animal que traria o homem à condição animalesca, ao ponto de abandonar direitos humanos em favor dos novéis direitos animais? Em um momento futuro tentarei explicar o motivo pelo qual a possibilidade de um direito é a inibição do outro.