A Ancine e o Caos

O Caos, do History Channel, faz parte do rol de programas inseridos na grade da TV paga por meio de uma imposição da Ancine, também conhecida por “democratização da informação”, não obstante os discursos de valorização da cultura nacional e outras balelas essencialmente subdesenvolvidas. Por óbvio, segue o padrão do conhecido Pawn Stars e terá por isso sua sentença. A safadeza do dito Caos em sobreviver com dinheiro de impostos é diretamente proporcional à malandragem demonstrada no programa, ao que a comparação com a produção americana é inevitável, senão obrigatória diante de um programa televisivo que não sobreviveria com as próprias pernas não fosse sua relação parasitária com o Estado. De maneira que, de certo, Caos é reconhecido um orgulho nacional, principalmente por ser coercitivamente alocado nos horários de grande ibope, horários antes disputados por programas de qualidade intelectual incomparável. Mas não há crise diante da circunstância que faz dessa programação brasileira um problema também de comparação moral: a malandragem dos negociantes do Caos é explícita, por vez de uma corrupção fundamentalmente brasileira e que segue o estigma do negociante brasileiro enquanto proclamador de uma cultura de vagabundos, espertos e pobres ressentidos. Alterações posteriores de preços ao se deparar com um “rico comprador” é a praxe a que se tem notícia diária, conquanto o Caos bem consegue explicitar e referendar essa artimanha a qual considero um germe da delinquência. Citar todo o trejeito marginal é desnecessário, mas a efusividade dos aplausos ao novo programa finalmente nacional parte também dos resquícios do telespectador brasileiro em se deparar com os fundamentos morais mais elementares da estirpe. Ouso afirmar que o brasileiro que se delicia com a malandragem de Caos é o mesmo que não se importa em observar na sua tela um programa imposto pelo Estado. Caos será definitivamente um programa de sucesso.