A preocupação de Blinder, e também latina

Caio Blinder reside e vive do conforto americano, mas não abandona sua condição meramente latina. Dentre outros textos de cunho mais econômico, contudo em mesmo norte, abre ele caminho para os questionamentos eminentemente latinos, nos quais quer-se a popularização do voto americano e, melhor ainda, o fim dos colégios eleitorais. Indiretamente, e como sempre sem imputar a si mesmo a responsabilidade de tamanha aberração teórica, Blinder nos brinda com o óbvio do que espera de um brasileiro de alma brasileira.

Em 2012, afirmei:

“Dê-lhes o pão e terás o voto. Dê-lhes a República e terás o sufrágio como direito sacrossanto de eleger, talvez por um período caótico, aquele que pode manipular as instituições republicanas para sua perpetuação no Poder Executivo e aparelhamento das demais esferas de Poder. Dê-lhes o Brasil e terá o voto republicano obrigatório, que faz do inapto o mais feliz dos cidadãos, porquanto se antes era descartável politicamente hoje se transformou no principal e inevitável caminho de “seleção democrática”, de “exercício amplo da cidadania”, da “garantia da continuidade democrática da República moderna”.

É inegável que são existentes métodos e instituições que visam suprimir a falha irrefutável do voto republicano: chama-se, caros, Colégio Eleitoral; ou, mais precisamente, a institucionalização do voto indireto, que inibe consequentemente as regalias do assistencialismo e demais atividades perpetradas pelo presidencialismo.”

A obrigatoriedade do voto sequer é cogitada naquelas terras, o que não impede a perplexidade dos latinos que veem o sistema dos colégios eleitorais, justamente fundamentados no antipopulismo dos votos e do assistencialismo, uma forma de ilegitimação da vontade popular. Ignorantes da própria história de negação americana do povo enquanto coletividade apta a eleger um presidente, os latinos efusivamente imputam nos Colégios Eleitorais a conotação do “golpe”, do “desrespeito aos interesses do povo”.

Bem dizem que a imigração constante de latinos serviu para que o americano médio percebesse que o assistencialismo rege os tais, inclusive na oferta de votos de muleta, aqueles pelos quais é possível perceber no que se sustenta determinado candidato. Por óbvio, Obama está de mãos dadas com a minoria negra e latina, estes de fato a verdadeira preocupação no conjunto peculiar que envolve indiretamente o aumento exponencial dos gastos de Estado. A lição decorre do prisma das relações populistas que não encontram na América Latina nenhuma repressão, sendo certo ao homem político de que o Estado pode ou deve perpetrar o assistencialismo que, por fim, garante o ciclo pútrido do republicanismo.

O que me lembra o sensacional Latino Law Review, jornal estudantil de Harvard diretamente interessado na proliferação teórica do coitadismo. Em épocas passadas, era possível ter contato com artigos de ode a Fidel Castro, Che Guevara e Hugo Cháves. Estudos seríssimos sobre os benefícios do stalinismo na cultura latina e o motivo pelo qual o socialismo deveria ser cogitado enquanto sistema econômico viável aos EUA. Hoje, após deletados em massa os artigos mais condenatórios, pouco restou daquilo que no passado bem caracterizava a horda dos latinos em Harvard, claramente influenciados pela práxis ordinária de suas origens. A lista, contudo, ainda contém a resenha da evidência:

Are Your Papers in Order?: Racial Profiling, Vigilantes, and “America’s Toughest Sheriff”

Deporting Dominicans: Some Preliminary Findings

Arizona’s Desire to Eliminate Ethnic Studies Programs: A Time to Take the “Pill” and to Engage Latino Students in Critical Education About Their History

The Latina/o Academy of Arts and Sciences: Decolonizing Knowledge and Society in the Context of Neo- Apartheid

Comment: The Future of the Equal Educational Opportunities Act § 1703(f) After Horne v. Flores: Using No Child Left Behind Proficiency Levels to Define Appropriate Action Towards Meaningful Educational Opportunity

Note: Reciprocity Interest in Political Affiliation: Redefining the Political Community to Attain Just Principles in Immigration Reform

Comment:Latinos and S.B. 1070: Demonization, Dehumanization, and Disenfranchisement

De brinde, três estudos integrais:

“BRISAS DEL MAR”: JUDICIAL AND POLITICAL OUTCOMES OF THE CUBAN RAFTER CRISIS IN GUANTANAMO

THE “ARIZONIFICATION” OF IMMIGRATION LAW: IMPLICATIONS OF CHAMBER OF COMMERCE V. WHITING FOR STATE AND LOCAL IMMIGRATION LEGISLATION

REGROUPING AMERICA: IMMIGRATION POLICIES AND THE REDUCTION OF PREJUDICE

É certo que Blinder não ignora esses fenômenos, mas os investe na medida em que tem interesse político irrefutável em Barack Obama. Outrora declarado esquerdista, ler Caio Blinder é se inteirar dos sentimentos mais naturais do mundo latino que deleita nos discursos de minoria, contudo amplificados pela tendência crescente de justificar as regalias de Estado numa responsabilidade teórica que aparentemente afasta a selvageria dos países subdesenvolvidos. Em época de eleição americana, e sem culpa em cartório, vale tudo para reafirmar por lá o que faz do mundo latino a rabeira dos populistas da década de 30.