Das virtudes elencadas pelo bom cidadão

Como que acalentados pela nobreza da serviência eleitoreira, eis que de poucos leitores recebo alguns pares de indagações acerca das minhas preocupações antecedentes. De fato, o contato via Facebook facilita por demais uma proximidade deletéria entre escritor e leitor, ao ponto de tornar insuportável a relação atual que, nos idos do Blogspot, era impossível de ser concebida. Isso porque, se o questionamento é dado em vista do texto, o questionador questiona em acesso ridículo ao seu perfil. Ao enviar seu palavrório, conquanto se digna de grande importância a mim, quer-se entender que é de obrigatoriedade ética a resposta a que lhe devo, ao ponto de cobrar efusivamente as minhas ponderações. Porquanto não dou a mínima para quase a totalidade das mensagens a mim dirigidas, respostas são dadas seletivamente e devem ser consideradas, quid pro quo, um prêmio.

Disso se tem que um dos leitores questiona a minha incredulidade democrática: “não existe comprovação maior de cidadania que uma pessoa se disponibilizar para ser mesário nas eleições”. Donde se tem que o leitor pretende imputar nesse exercício as virtudes de apoio à democracia e às essencialidades mais elevadas do bureaucrate homme. Contudo, ainda que não tenha eu correspondido em nenhuma ocasião, é patente que todo e qualquer mesário esconde, em vista de uma superioridade moral, as consequências e benefícios concedidos pelo mesmo Estado que o estupra diariamente. Ato contínuo: referido leitor [certo eu que representante da maioria] esconde sordidamente os motivos pelos quais ele, nas virtudes do Bem, em verdade assume esse papel indisputável e, não fosse a obrigatoriedade do voto, faria rir meio mundo de frequentadores de churrasco em dia de eleição.

A tentativa é falha, uma vez que os benefícios são de conhecimento universal de quem está inserto nas paredes do funcionarismo público. Para não citar as vantagens impostas em lei federal, como a pretensão de prioridades amesquinhadas para fins de promoção em cargo público, eis que o pretendente a mesário soma às suas virtudes e nobreza a concessão de folga em dobro dos dias por ele suadamente ofertados ao Estado, incluídos os de treinamento, também conhecidos “dia do lanche gratuito’.

De maneira que o sujeito mesário, não obstante cheio de virtudes, e sabido eu que o questionador supracitado é um deles, convém a si a beleza cívica do bem-servir cidadão, mas sempre resvalado pelas benesses que acompanham o ofício. Diria eu que, não fossem os benefícios técnicos e de ordem trabalhista, mas não somente aqueles de saciamento da fome temporária, mesário seria cargo a ser disputado por moradores de rua e viciados em metanfetamina.

Ao que, num levante de lucidez perante as frases cheias de responsabilidade cidadã, exploro os benefícios do diálogo em pleno Facebook para atestar o óbvio: o indivíduo é funcionário público federal. Ora, o fato inegável de que praticamente todos os mesários orgulhosos do trato são funcionários públicos tem seu motivo premente: a que importa ao funcionário privado beneficiar-se pelo ócio que tende inevitavelmente a prejudicá-lo na vida empresarial? O que importa à empresa se o sujeito, pretendendo a promoção de cargo, resolveu em ato de amor patriótico beneficiar-se de folgas que custaram à empresa prejuízos antes não calculados?

Sabidos todos os funcionários públicos de que o Estado não se rege pelo mérito, consequentemente imaginam ser meritocrático, por pura e eficiente prestação de serviços públicos, que lhe seja cedida por lei a contraprestação daquilo outrora assumido uma virtude.

Concluo, portanto: a única maneira de um mesário visualizar o escopo de suas virtudes proclamadas é se, após, negar-se a usufruir das vantagens vinculadas ao ato patriótico e se, por fim, ignorar por completo tamanha virtude no momento em que pleitear a promoção de cargo. Ou, ainda, se assumir que é mesário somente para que consiga elencar em seu currículo os benefícios da lei, cumulados os bons dias de viagem na fruição da folga legal.

Virtuosos, decidam-se.