Voto e impostos

Não é por demais ingênuo acreditar na paixão de uma multidão. O voto, assim como a dita “cidadania”, não envolve somente aqueles sentimentos mais nobres de um cuidado virtuoso do todo, mas também um sentido parasitário de responsabilização temporária numa relação estritamente infantil entre o político e o politizado. As discussões mesmas das propostas de cada candidato chegam a brilhar os olhos de um ardor [temporário] de preocupação com a democracia republicana. Porque de fato é assim mesmo como a coisa funciona: a democracia subsiste em ciclos deletérios e a república, na politicagem que se diz de grande importância. Essa paixão totalmente irrelevante perante a política toma contornos ainda mais animalescos quando o que se percebe é a tendência crescente do brasileiro em conscientizar-se enquanto cidadão. Na falta da moral, procura-se a política e, na falta de política, procura-se por conscientização. Por isso não estranho aqueles que dizem que a verdadeira cidadania está na sonegação de impostos. Na falta de sonegar um voto [porquanto obrigatório] e na dor-de-cabeça de ter de se justificar perante um burocrata, por que não atingir o mal pela raiz? O desespero dos políticos de palanque é ver seus cuidados tão nobres se esvaindo conforme evaporam os recursos privados da tramoia. O político é, em suma, um nobre: sustentado pela corte, por fim inútil ao reinado e, em regra, um semianalfabeto de grande carisma.