Comentários finais ao livro “A Filosofia e seu Inverso”, de Olavo de Carvalho

Impossível fazer uma análise mais apurada do desvirtuamento completo do que seria a razão sem falar do Iluminismo, movimento este que, se não fosse por seu expoente meramente revolucionário, teria passado em branco nos quesitos filosóficos. Isso porque de fato muitos dos atributos concedidos ao Iluminismo em verdade são atributos político-sociais, posteriormente estendidos às esferas religiosa e filosófica por influência direta da Revolução Francesa, a qual precedeu ideologicamente as revoluções russa e chinesa.

Concordo com Hannah Arendt quando afirma que o totalitarismo se concebe sempre na destituição das bases morais do homem, que, se politizadas, tomam os contornos de uma vida pública nobre e superior, tendo em vista a revelação secular de novas verdades supostamente nunca antes imaginadas. Esse é o ponto forte do iluminismo, o qual abarcou tantos movimentos distintos que unificá-los traria, por fim, a anulação da própria ideia modernista do homem iluminista.

De Rousseau a Voltaire, não se pode conceber o movimento iluminista enquanto arcabouço estruturado em fundamentos discursivos sólidos; antes, o iluminismo tem para si o mérito que tratou de influenciar a modernidade: ao estabelecer como parâmetro teórico a razão e, no caso de Locke, a experiência pela sensibilidade racional, o iluminismo não poderia se sustentar sem repensar a própria ideia de razão à época vigente, baseada em Aquino. A formulação, contudo, baseou-se nas características já comentadas nos textos anteriores: método e tecnologia fictícia.

Afirma Olavo:

“A famosa autonomia do pensamento, então, não consiste essencialmente em estar livre de autoridade clericais ou governamentais, mas em desprezar a coerção externa dos fatos. Tal é o sentido da ‘revolução copernicana’ do pensamento. Na ciência antiga, medieval e renascentista, a ordem total do mundo em que vivemos era o juiz soberano do conhecimento. A razão humana não passava de uma manifestação parcial e limitada dessa ordem total que, em nós, se reconhecia a si mesma na medida das nossas possibilidades, restando sempre um horizonte de mistério que recuava a cada novo avanço do conhecimento. Com Kant, a razão humana proclamava sua independência do mundo externo, mudando radicalmente o sentido da ‘verdade’. Antes, a verdade consistia na coincidência do pensado com a ordem dos fatos conhecidos. Agora, passava a ser a obediência a uma filtragem racional predeterminada, a um método livremente concebido pela razão por meio da análise kantiana de si mesma. O que quer que estivesse fora do método, por mais patente que fosse sua presença, era desprezado como irrelevante, nulo e por fim inexistente.

E ainda:

A França, antes de 1789, era o país mais rico e a potência dominante da Europa. A revolução inaugura o seu longo declínio, que hoje, com a invasão islâmica, alcança dimensões patéticas. A Rússia, após um arremedo de crescimento imperial artificialmente possibilitado pela ajuda americana, desmantelou-se numa terra-de-ninguém dominada por bandidos e pela corrupção irrefreável da sociedade. A China, após realizar o prodígio de matar de fome trinta milhões de pessoas numa só década, só se salvou ao renegar os princípios revolucionários que orientavam a sua economia e entregar-se, gostosamente, às abomináveis delícias do livre mercado. De Cuba, de Angola, do Vietnã e da Coréia do Norte, nem digo nada: são teatros de Grand Guignol, onde a violência estatal crônica não basta para esconder a miséria indescritível. Todos os equívocos em torno da idéia de “revolução” vêm do prestígio associado a essa palavra como sinônimo de renovação e progresso, mas esse prestígio lhe advém precisamente do sucesso alcançado pelas “revoluções” inglesa e americana que, no sentido estrito e técnico com que emprego essa palavra, não foram revoluções de maneira alguma.

O não aprofundamento de Olavo na ideia revolucionária talvez tenha dois motivos: ou ele planeja descrever melhor tal circunstância em momentos futuros, ou ele de fato reduziu a qualidade de “A filosofia e seu inverso” ao formar um compêndio de publicações de internet. O problema é que há muito mais a ser falado sobre um dos assuntos mais importantes da atualidade: até que ponto podemos considerar a liberdade enquanto precursora da libertação?

A distinção é feita por Arendt no excelente Da Revolução, obra infelizmente esquecida em muitos dos estudos sobre o tema. Já no segundo capítulo Hannah expõe a distinção essencial entre os movimentos que pretendem de uma forma ou de outra a liberdade que decorre da libertação, ou a libertação como fenômeno político na formulação histórica. Para ela, libertação e liberdade se confundem, porquanto a primeira está vinculada inevitavelmente à noção revolucionária. As distinções são sutis, mas não devem ser analisadas ao acaso. A libertação não sobrevive sem o apelo à liberdade [todavia o oposto é verdadeiro], de forma que todo e qualquer movimento revolucionário tutela para si a liberdade como fenômeno inevitável ao caos e à injustiça de outrora. Esse caráter libertador irresistível procede de uma ruptura se não total, ao menos parcial das virtudes caracteristicamente unânimes, de sorte que a libertação não sobrevive sem a tutela discursiva dos elementos da liberdade, ainda que já de antemão deturpados perante o afrouxo dos novos governos. Os sentimentos, portanto, de liberdade e libertação não são os mesmos e, se complementares, complementam a libertação enquanto movimento pautado na ideologia política. Disso se tem que as revoluções francesa e americana, a critério de análise exposto por Olavo e Arendt, decorrem diretamente do nexo discursivo em torno da liberdade, tendo por fim a virtude da ruptura, a primeira enquanto libertação (empresto aqui o conceito de Arendt para complementar o dizer de Olavo), a segunda enquanto liberdade.

Portanto, inevitável recorrer à obra de Isaiah Berlin, Two Concepts of Liberty, obra na qual foi explorado o conceito das liberdades positiva e negativa. Berlin explicita claramente que a liberdade negativa [v.g., from, to-] e positiva [to-] demonstram não somente duas facetas de um mesmo conceito filosófico, mas duas facetas antagônicas e entre si intragáveis, ao ponto de serem de fato opostamente vinculadas sob um mesmo aspecto conceitual, contudo nunca conciliáveis na abertura revolucionária. Isso porque a liberdade positiva, prelecionada em Rousseau, antecipa as concepções iniciais mas hoje alastradas da liberdade enquanto concessão. Para o melhor entendimento do assunto, recomendo Estudos sobre a Humanidade, de Berlin, uma vez que não pretendo aqui expor o que se encontra definido nessa excelente obra.

Disso se amplia a caracterização das revoluções americana e francesa: a primeira se vincula ao espectro da liberdade conceitual e a segunda, no clamor chamativo da libertação em nome da liberdade, ainda que suas consequências sejam (e foram) desastrosas e o germe das demais revoluções caracteristicamente libertárias. Ora, mesmo os regimes totalitários, como bem descreveu Arendt em Origens do Totalitarismo, contêm e abarca a libertação, isso em vista da criação da novas formulações estatais de supressão das liberdades [negativas].

Nesse contexto, explicarei em um momento futuro as distinções entre o “governo de Paulo de Tarso” e o Estado Iluminista, hoje unânime.

Pretendia expor outros dois textos acerca da recente obra de Olavo de Carvalho, mas não será necessário, justamente por entender que a obra foi por demais supérflua e preguiçosa em alguns dos assuntos os quais considero de maior importantes. Ao relê-la, percebi que aprofundar pontos por mim tido insuficientes não seria de forma alguma comentar o livro, mas dar-lhe uma conotação hermenêutica até mesmo diversa. E pelo diverso, prefiro assumir a responsabilidade diante de eventuais equívocos ao invés de imputá-los como decorrentes da obra de Olavo.

Filosofia e seu inverso soma-se com presteza às grandes obras de análise aos movimentos revolucionários, apesar de ter seu início na “guerra dos egos”, não obstante totalmente desnecessária. Sinceramente, que futuros embates irrelevantes não voltem a macular as obras de Olavo de Carvalho.