Firestone e o desprezo à mulher

falecimento de Shulamith Firestone ressalta novamente as discussões que na década de 70 simbolizavam as distinções cristalinas entre vítima e opressor. Retomando o ardor de sua causa, nada mais natural que o retorno da condição da mulher enquanto oprimida para fomentar as consequências do marxismo. Ao menos uma utilidade teve a louca: afirmou com todas as palavras que era impossível ser feminista nos pós-II Guerra e não ser socialista. A mulher tradicional, não obstante desprezada por Firestone, seria a mulher eminentemente cristã. A motivação da feminista foi bem expressada em The Dialetic of Sex, obra definitiva nos conceitos marxistas aplicados aos discursos das coitadas. A tese de seres cibernéticos criando bebês para afastar a mulher da opressão materna; o aborto enquanto “direito feminino ao próprio corpo”; o Estado como garantidor do sustento infantil em detrimento dos cuidados patriarcais; a proibição da gravidez porquanto “barbárie”; tais sugestões à mulher sensata não vieram de uma adolescente. Shulamith conseguiu unir a meninice marxista à histeria das impúberes.

Mas o ódio maior de Firestone não era contra o falo masculino e a opressão de um bafo-alfa em sua nuca; a feminista odiava mais a mulher que não reconhecia as virtudes de suas justificativas. Coitada como era, e tratando o assunto em uma visão estritamente vitimista, Shulamith argumentava que pior que o homem era a mulher que não a levava a sério. O ódio por ela alastrado enveredou para o desprezo das mulheres que a viam como piada. Da pregação de recomendações estapafúrdicas de eliminação das relações sexuais à guerra contra a família biológica, a feminista culminou seus dias finais de reclusão em uma negação constante da moda e do consumismo feminino. Shulamith Firestone, como todo bom marxista, tentou revolucionar o mundo, mas terminou a vida na desgraça da própria causa.