A carta de J.R.R. Tolkien a seu filho

Carta de nº 250 do livro As Cartas de J.R.R. Tolkien. Leia [quase] tudo aqui.

“[…] Contudo, você fala de ‘fé alquebrada’. Isso é completamente outra questão: em último caso, a fé é um ato de vontade, inspirado por amor. Nosso amor pode ser esfriado e nossa vontade desgastada pela demonstração de deficiências, tolice e até mesmo pecados da Igreja e seus ministros, mas não acredito que alguém que já teve fé retroceda por essas razões (menos de todos alguém com qualquer conhecimento histórico). ‘Escândalo’ no máximo é uma ocasião de tentação – como é a indecência à luxúria, que não a cria mas a estimula. É conveniente porque tende a desviar nossos olhos de nós mesmos e de nossas falhas para encontrar um bode expiatório. Mas o ato de vontade da fé não é um único momento de decisão final: é um ato > estado permanente indefinidamente repetido que deve continuar – de modo que oramos pela ‘perseverança final’. A tentação à ‘descrença’ (que realmente significa rejeição de Nosso Senhor e de Suas afirmações) está sempre lá dentro de nós. Parte de nós anseia em encontrar uma desculpa para tal fora de nós. Quanto mais forte a tentação interna, mais fácil e severamente ficaremos ‘escandalizados’ com os outros. Creio que sou tão sensível quanto você (ou qualquer outro cristão) aos ‘escândalos’, tanto do clero quanto da laicidade. Sofri dolorosamente em minha vida com padres estúpidos, cansados, apagados e até mesmo maus; mas agora sei o suficiente sobre mim para estar ciente de que não devo deixar a Igreja (que para mim significaria abandonar a lealdade ao Nosso Senhor) por semelhantes razões: eu deveria deixar caso não acreditasse e não mais acreditaria, mesmo se eu nunca tivesse encontrado qualquer um nas ordens que não fosse tão sábio como pio. Eu deveria negar o Sagrado Sacramento, isto é: chamar Nosso Senhor de fraude em Sua face.”

Protógenes se recorda de quando dormia abraçado com o ursinho Ted

O Excelentíssimo Deputado Protógenes Queiroz, mais conhecido como “deputado burrinho”, nos oferta mais uma de suas pérolas. Não costumo aqui relatar as verborragias  da Alta-Canalha, mas esta é impagável. Eis que o comunista nos avisa: o filme Ted deveria ser proibido. Os motivos da Excelência são claros:

“Nós ainda somos uma população um pouco superior a esses princípios. Somos tão superiores que temos Fenrando Meirelles produzindo para eles. Somos tão superioes que levaram também o José Padilha, que está lá fazendo a reedição do ‘Robocop’. ‘Cidade de Deus’ mostra uma dura realidade do flagelo social das favelas brasileiras e da população pobre. Mas não diz que viver em favela é bom, que quem consumir droga vai viver bem, se roubar ou matar não acontece nada.”

E ainda:

“Quero alertar a população brasileira que nós não aceitamos esse tipo de enlatado americano. Todos no cinema estão consumindo pipoca e guaraná, enquanto na tela os personagens consomem droga. Essa mensagem é danosa para a sociedade. Produzir esse tipo de filme para ter uma veiculação abaixo da maioridade põe em risco todos os princípios de educação e cultura do país. No Brasil estamos longe de admitir isso.”

Ressentimento, desilusão, anti-americanismo? Não. Protógenes Queiroz lembrou-se de quando, ainda na infância, dormia enlaçado ao urso-amigo.

Os motivos de Gorbatchov

De 2min30 em diante, Gorbatchov explica seus motivos: autoritarismo de Estado, burocracia, pobreza e o atraso em comparação aos países desenvolvidos.

Sobre a reforma democrática de 1985: liberdade religiosa e de imprensa, multipartidarismo, concessão de terras privadas aos camponeses, privatização, “legalização” das empresas (porque já existentes e atuantes no conhecido “mercado negro soviético”), economia de mercado, autodeterminação dos povos soviéticos.

Em entrevista a Charlie Rose, Gorbatchov explicou sobre o que era a tal “democracia” citada em seu discurso: “sim, falava da democracia inglesa”.

Comentários finais ao livro “A Filosofia e seu Inverso”, de Olavo de Carvalho

Impossível fazer uma análise mais apurada do desvirtuamento completo do que seria a razão sem falar do Iluminismo, movimento este que, se não fosse por seu expoente meramente revolucionário, teria passado em branco nos quesitos filosóficos. Isso porque de fato muitos dos atributos concedidos ao Iluminismo em verdade são atributos político-sociais, posteriormente estendidos às esferas religiosa e filosófica por influência direta da Revolução Francesa, a qual precedeu ideologicamente as revoluções russa e chinesa.

Concordo com Hannah Arendt quando afirma que o totalitarismo se concebe sempre na destituição das bases morais do homem, que, se politizadas, tomam os contornos de uma vida pública nobre e superior, tendo em vista a revelação secular de novas verdades supostamente nunca antes imaginadas. Esse é o ponto forte do iluminismo, o qual abarcou tantos movimentos distintos que unificá-los traria, por fim, a anulação da própria ideia modernista do homem iluminista.

De Rousseau a Voltaire, não se pode conceber o movimento iluminista enquanto arcabouço estruturado em fundamentos discursivos sólidos; antes, o iluminismo tem para si o mérito que tratou de influenciar a modernidade: ao estabelecer como parâmetro teórico a razão e, no caso de Locke, a experiência pela sensibilidade racional, o iluminismo não poderia se sustentar sem repensar a própria ideia de razão à época vigente, baseada em Aquino. A formulação, contudo, baseou-se nas características já comentadas nos textos anteriores: método e tecnologia fictícia.

Afirma Olavo:

“A famosa autonomia do pensamento, então, não consiste essencialmente em estar livre de autoridade clericais ou governamentais, mas em desprezar a coerção externa dos fatos. Tal é o sentido da ‘revolução copernicana’ do pensamento. Na ciência antiga, medieval e renascentista, a ordem total do mundo em que vivemos era o juiz soberano do conhecimento. A razão humana não passava de uma manifestação parcial e limitada dessa ordem total que, em nós, se reconhecia a si mesma na medida das nossas possibilidades, restando sempre um horizonte de mistério que recuava a cada novo avanço do conhecimento. Com Kant, a razão humana proclamava sua independência do mundo externo, mudando radicalmente o sentido da ‘verdade’. Antes, a verdade consistia na coincidência do pensado com a ordem dos fatos conhecidos. Agora, passava a ser a obediência a uma filtragem racional predeterminada, a um método livremente concebido pela razão por meio da análise kantiana de si mesma. O que quer que estivesse fora do método, por mais patente que fosse sua presença, era desprezado como irrelevante, nulo e por fim inexistente.

E ainda:

A França, antes de 1789, era o país mais rico e a potência dominante da Europa. A revolução inaugura o seu longo declínio, que hoje, com a invasão islâmica, alcança dimensões patéticas. A Rússia, após um arremedo de crescimento imperial artificialmente possibilitado pela ajuda americana, desmantelou-se numa terra-de-ninguém dominada por bandidos e pela corrupção irrefreável da sociedade. A China, após realizar o prodígio de matar de fome trinta milhões de pessoas numa só década, só se salvou ao renegar os princípios revolucionários que orientavam a sua economia e entregar-se, gostosamente, às abomináveis delícias do livre mercado. De Cuba, de Angola, do Vietnã e da Coréia do Norte, nem digo nada: são teatros de Grand Guignol, onde a violência estatal crônica não basta para esconder a miséria indescritível. Todos os equívocos em torno da idéia de “revolução” vêm do prestígio associado a essa palavra como sinônimo de renovação e progresso, mas esse prestígio lhe advém precisamente do sucesso alcançado pelas “revoluções” inglesa e americana que, no sentido estrito e técnico com que emprego essa palavra, não foram revoluções de maneira alguma.

O não aprofundamento de Olavo na ideia revolucionária talvez tenha dois motivos: ou ele planeja descrever melhor tal circunstância em momentos futuros, ou ele de fato reduziu a qualidade de “A filosofia e seu inverso” ao formar um compêndio de publicações de internet. O problema é que há muito mais a ser falado sobre um dos assuntos mais importantes da atualidade: até que ponto podemos considerar a liberdade enquanto precursora da libertação?

A distinção é feita por Arendt no excelente Da Revolução, obra infelizmente esquecida em muitos dos estudos sobre o tema. Já no segundo capítulo Hannah expõe a distinção essencial entre os movimentos que pretendem de uma forma ou de outra a liberdade que decorre da libertação, ou a libertação como fenômeno político na formulação histórica. Para ela, libertação e liberdade se confundem, porquanto a primeira está vinculada inevitavelmente à noção revolucionária. As distinções são sutis, mas não devem ser analisadas ao acaso. A libertação não sobrevive sem o apelo à liberdade [todavia o oposto é verdadeiro], de forma que todo e qualquer movimento revolucionário tutela para si a liberdade como fenômeno inevitável ao caos e à injustiça de outrora. Esse caráter libertador irresistível procede de uma ruptura se não total, ao menos parcial das virtudes caracteristicamente unânimes, de sorte que a libertação não sobrevive sem a tutela discursiva dos elementos da liberdade, ainda que já de antemão deturpados perante o afrouxo dos novos governos. Os sentimentos, portanto, de liberdade e libertação não são os mesmos e, se complementares, complementam a libertação enquanto movimento pautado na ideologia política. Disso se tem que as revoluções francesa e americana, a critério de análise exposto por Olavo e Arendt, decorrem diretamente do nexo discursivo em torno da liberdade, tendo por fim a virtude da ruptura, a primeira enquanto libertação (empresto aqui o conceito de Arendt para complementar o dizer de Olavo), a segunda enquanto liberdade.

Portanto, inevitável recorrer à obra de Isaiah Berlin, Two Concepts of Liberty, obra na qual foi explorado o conceito das liberdades positiva e negativa. Berlin explicita claramente que a liberdade negativa [v.g., from, to-] e positiva [to-] demonstram não somente duas facetas de um mesmo conceito filosófico, mas duas facetas antagônicas e entre si intragáveis, ao ponto de serem de fato opostamente vinculadas sob um mesmo aspecto conceitual, contudo nunca conciliáveis na abertura revolucionária. Isso porque a liberdade positiva, prelecionada em Rousseau, antecipa as concepções iniciais mas hoje alastradas da liberdade enquanto concessão. Para o melhor entendimento do assunto, recomendo Estudos sobre a Humanidade, de Berlin, uma vez que não pretendo aqui expor o que se encontra definido nessa excelente obra.

Disso se amplia a caracterização das revoluções americana e francesa: a primeira se vincula ao espectro da liberdade conceitual e a segunda, no clamor chamativo da libertação em nome da liberdade, ainda que suas consequências sejam (e foram) desastrosas e o germe das demais revoluções caracteristicamente libertárias. Ora, mesmo os regimes totalitários, como bem descreveu Arendt em Origens do Totalitarismo, contêm e abarca a libertação, isso em vista da criação da novas formulações estatais de supressão das liberdades [negativas].

Nesse contexto, explicarei em um momento futuro as distinções entre o “governo de Paulo de Tarso” e o Estado Iluminista, hoje unânime.

Pretendia expor outros dois textos acerca da recente obra de Olavo de Carvalho, mas não será necessário, justamente por entender que a obra foi por demais supérflua e preguiçosa em alguns dos assuntos os quais considero de maior importantes. Ao relê-la, percebi que aprofundar pontos por mim tido insuficientes não seria de forma alguma comentar o livro, mas dar-lhe uma conotação hermenêutica até mesmo diversa. E pelo diverso, prefiro assumir a responsabilidade diante de eventuais equívocos ao invés de imputá-los como decorrentes da obra de Olavo.

Filosofia e seu inverso soma-se com presteza às grandes obras de análise aos movimentos revolucionários, apesar de ter seu início na “guerra dos egos”, não obstante totalmente desnecessária. Sinceramente, que futuros embates irrelevantes não voltem a macular as obras de Olavo de Carvalho.

A mão compreensiva do jurista e jornalista

A vulnerabilidade do Direito está em sua destreza em colocar-se na tangente nos questionamentos que lhe são pertinentes. Ora, a afirmação corriqueira de que “as palavras jurídicas são por demais elitistas” corrobora consequentemente a mediação entre o estudo jurídico e o coloquialismo meramente verborrágico. Explico: o jurista [e quando o cito, falo do jurista nos fatos e não no diploma] que analisa os discursos de ministros enquanto um verdadeiro arcabouço complexo de termos, estruturas e minuciosidades e que, após a leve indagação por uma jornalista acerca da complexidade evidente das palavras utilizadas, releva a ciência jurídica ao patamar da expressão “o Direito deveria ser mais popular”, age como um dissimulado qualquer ou, do contrário, imagina o Direito nas rédeas das conversas de bar. Imagino os motivos para a covardia, uma vez que é chic adentrar no oceano da popularização. Assumir que o Direito se afasta da simplificação é assumir, decorrentemente, que as decisões de ministros em nada interessam ao povaréu, o que não deixa de ser uma advertência também à jornalista: se não entende algumas das palavras proferidas pelos ministros, que vá à biblioteca mais próxima e consulte o melhor dos dicionários. Meus pêsames a você, jornalista, se se declara de tal forma sem saber o significado de palavras como “cotejo”, “bojo”, “exordial”, “petição”. Prefiro acreditar que ambos, jornalista e jurista, dissimulavam uma mão piedosa e compreensiva sobre a cabeça do povo carente de bons livros, porém sempre consciente de política e contra o voto nulo [rs].

Firestone e o desprezo à mulher

falecimento de Shulamith Firestone ressalta novamente as discussões que na década de 70 simbolizavam as distinções cristalinas entre vítima e opressor. Retomando o ardor de sua causa, nada mais natural que o retorno da condição da mulher enquanto oprimida para fomentar as consequências do marxismo. Ao menos uma utilidade teve a louca: afirmou com todas as palavras que era impossível ser feminista nos pós-II Guerra e não ser socialista. A mulher tradicional, não obstante desprezada por Firestone, seria a mulher eminentemente cristã. A motivação da feminista foi bem expressada em The Dialetic of Sex, obra definitiva nos conceitos marxistas aplicados aos discursos das coitadas. A tese de seres cibernéticos criando bebês para afastar a mulher da opressão materna; o aborto enquanto “direito feminino ao próprio corpo”; o Estado como garantidor do sustento infantil em detrimento dos cuidados patriarcais; a proibição da gravidez porquanto “barbárie”; tais sugestões à mulher sensata não vieram de uma adolescente. Shulamith conseguiu unir a meninice marxista à histeria das impúberes.

Mas o ódio maior de Firestone não era contra o falo masculino e a opressão de um bafo-alfa em sua nuca; a feminista odiava mais a mulher que não reconhecia as virtudes de suas justificativas. Coitada como era, e tratando o assunto em uma visão estritamente vitimista, Shulamith argumentava que pior que o homem era a mulher que não a levava a sério. O ódio por ela alastrado enveredou para o desprezo das mulheres que a viam como piada. Da pregação de recomendações estapafúrdicas de eliminação das relações sexuais à guerra contra a família biológica, a feminista culminou seus dias finais de reclusão em uma negação constante da moda e do consumismo feminino. Shulamith Firestone, como todo bom marxista, tentou revolucionar o mundo, mas terminou a vida na desgraça da própria causa.