O culto secular da razão: a anti-ciência – comentários sobre “A Filosofia e seu inverso”

Inicio este texto com a mesma citação com a qual finalizei o texto anterior: “O finito e o infinito são as primeiras categorias da razão, e não me refiro aos equivalentes matemáticos desses termos, que são apenas as traduções deles para um domínio especializado” (Olavo de Carvalho, p. 189).

O recado fala muito mais alto do que aparenta e expressa muito além da mera comparação entre infinitude e matemática. Aliás, a comparação é válida e se expressa no mesmo sentido das matérias científicas que, em uma análise de progressão metodológica, tiveram no rol de suas utilidades o mundo material ampliado à abstração científica total. Apesar de não ser o assunto a que tenho interesse em comentar neste momento, o empirismo científico, assim chamado, está em oposição evidente aos movimentos empiristas filosóficos, os quais carregam nomes como Aquino, Bacon, Mill, Aristóteles. Assim, entenda-se que quando cito o “empírico”, falo sim do empirismo científico, vinculado à metodologia, às percepções sensíveis dos sentidos do homem e que, atualmente, significa uma relação equivocada entre razão e os sentidos percebidos ou, excepcionalmente, os sentidos imaginados dentro de uma construção tecnológica fictícia.

Olavo de Carvalho, p. 190, afirma o seguinte:

“A experiência humana tomada como totalidade ilimitada é a mais básica das realidades, ao passo que o objeto de cada ciência é uma construção hipotética erigida dentro de um recorte mais ou menos convencional dentro dessa totalidade. Essa construção nada vale se amputada do fundo desde o qual se constituiu. O apego à autoridade da ‘ciência’, tal como hoje se vê na maior parte dos debates públicos, não é senão a busca de uma proteção fetichista, socialmente aprovada, contra as responsabilidades do uso da razão. O mais evidente sintoma disso é a facilidade, a trêfega e saltitante mudança de canal com que os porta-vozes da “ciência” transitam das atenuações relativistas e desconstrucionistas, para as quais todos os discursos são de algum modo, às proclamações de “fatos científicos” imunes a toda discussão, tão sagrados que seus contestadores devem ser excluídos do meio universitário e expostos à execração pública. O culta da ‘ciência’ começa na ignorância do que seja a razão e culmina no apelo explícito à autoridade do irracional.”

Aparentemente, a conotação dada por Olavo parte do pressuposto de divinização e abstração dos métodos científicos, forma pela qual a “ciência” tornou-se Ciência e, no intrigante respaldo racionalista, uma entidade como outra qualquer, onipresente nos sistemas e relacionamentos humanos e nomeada comumente enquanto uma unidade indissociável de teorias científicas imutáveis (a aparente tendência dessa “ciência” numa reformulação constante é falsa, mas explico em outro momento). Já se disse que a “ciência” enquanto entidade é a aniquilação total da própria mentalidade científica, uma vez que espera [sim, de “esperança”] dela fenômenos somente encontrados na religião.

Essa divinização está diretamente relacionada à já mencionada superstição materialista, a qual permanece intacta nos discursos justamente por estender seus tentáculos aos discursos religiosos. Como que sabidos de que a religião se mantém ao longo dos séculos por sua abrangência universal e infinita, utilizando dessa estratégia a ciência-entidade se manifesta no abstrato universal, inclusive imputando a si mesma a autoridade em assuntos historicamente religiosos. Deus, fé, moral, crença, milagres, culpa, bem, mal, pós-morte, condenação: a ciência divinizada tenta sem sucesso abranger, ponto-a-ponto, as teses trabalhadas por séculos de teologia e filosofia, no amestramento meramente tecnicista, sob o manto da razão e da lógica. Sem sucesso, pois os pontos abordados não ultrapassam o superficial, uma vez que o interesse real não é a suplantação religiosa por meio de inéditas teorias sobre o todo, mas a diminuição da religião em nome do utopismo meramente tecnológico que tem por fomento o desprezo ao homem religioso. A busca pela verdade e o cientificismo andam em lados opostos.

Olavo, p. 194:

“A partir do momento em que o universo cultural passou a girar em torno da tecnologia e das ciências naturais, com a exclusão concomitante de outras perspectivas possíveis, era inevitável que o imaginário das multidões fosse se limitando, cada vez mais, aos elementos que pudessem ser expressos em termos da ação tecnológica e dos conhecimentos científicos disponíveis. Gradativamente, tudo o que escape desses dois parâmetros vai perdendo força simbolizante e acaba sendo reduzido a condições de ‘produto cultural’ ou ‘crença’, sem mais nenhum poder de preensão sobre a realidade. O empobrecimento do imaginário é ainda agravado pela crescente devoção pública ao poder da ciência e da tecnologia, depositárias de todas as esperanças e detentoras, por isso mesmo, de toda autoridade. Isso não quer dizer que as dimensões supramateriais desapareçam de todo, mas elas só se tornam acessíveis ao imaginário popular quando traduzidas em termos de simbologia tecnológica e científica. Daí a moda da ficção científica, dos extraterrestres e dos deuses astronautas. Mas é claro que essa tradução não é uma verdadeira abertura para as dimensões espirituais, e sim apenas a sua redução caricatural à linguagem do imediato e do banal.”

A ciência, dessa maneira, convoca a si mesma: pela razão limitada à lógica, busca-se a verdade, mas a verdade pautada no limites do finito e na esperança das técnicas. A verdade da razão da ciência divinizada é a verdade suportada pela sensibilidade empírica e pela imaginação materialista, por fim a quimera de qualquer diálogo que exclui uma hora ou outra o estudo das leis e condenações morais universais. De maneira que essa verdade, uma vez que de fato buscada, como nos atenta a intromissão dessa “ciência” em assuntos totalmente religiosos, não obstante metafísicos, toma os contornos de uma busca incessante de meras “respostas” que, ainda que dentro daquilo que deveria ser uma escalada interminável, tem por conotação discursiva sua definitividade somente possível de ser revisada pela própria ciência.

Ao fundo do espetáculo de subjugação da razão à técnica e à lógica, a ciência-entidade transmuta a razão, outrora um dos componentes do estudo universal e religioso, para o afunilamento dos sistemas meramente experimentais, conquanto limitados às demonstrações de uma busca restrita à materialidade. Talvez por isso que, no início da própria concepção quântica, o quanticismo tivesse sido desconsiderado porquanto fábula alheia aos rigores dessa falsa racionalidade. Demócrito, recitado pelo atomismo, tem seu ode da ciência-entidade ofuscado pelo fato de que o átomo, uma vez teorizado, também buscava suas fontes na análise da constituição da alma humana.

Mesmo a negação de Demócrito de uma regência superior do cosmos é a negação que parte da análise da própria concepção do infinito e da análise do infinito em vista da existência humana. Justamente a preocupação religiosa, na qual se espelha o culto secular da razão, alimentado tão somente pela antes inexistente mas agora uníssona rivalidade contemporânea e imatura entre a ciência mesma e os fenômenos filosóficos e teológicos estudados há séculos.