A superstição materialista e outros conceitos sobre a ciência – comentários sobre “A Filosofia e seu inverso”

A decepção parcial de “A Filosofia e seu inverso”, de Olavo de Carvalho, é compensada pelo bojo total de obras do autor. Decepção, assumo, tão somente iniciada ao perceber que praticamente 1/3 da obra partiu das desavenças entre o autor e alguns dos escritores do Dicta & Contradicta, nomeados claramente nos primeiros capítulos do livro. Para alguns, não há mistério nem erro nessa investida quando o que se tem são textos selecionados sobre um tema em comum, não obstante emanados muitas vezes de embates reais e que geram, por fim, a real “dialética filosófica”. Esperando eu um verdadeiro compêndio de textos filosóficos, deparei-me com textos já publicados e que, muitas vezes veiculados na imprensa, não permitem de forma alguma a profusão daquilo que se viu no monumental “O Jardim das Aflições”, para não citar o recente “Maquiavel ou A confusão demoníaca“. Mas eis que como luz resplandecente a obra parece se desmembrar das briguinhas ameninadas do autor com seus desafetos, adentrando ao que realmente interessa: a relação filosófica entre a ciência, razão, lógica, discurso, fé, Deus, religião, existência. Na facilidade com que os primeiros textos foram mal selecionados, Olavo de Carvalho nos oferta uma excelente conversa em assuntos que estão atualmente em voga e que pululam constantemente nos debates universitários.

De fato, o cientificismo foi belamente abordado em “Ainda a ilusão corporalista”, no sentido mais amplo do fenômeno: naquilo que se observa por experiência, o materialista se arremete uma hora ou outra no empirismo dos sentidos e da imaginação tecnicista, ainda que o empírico esteja atrelado às insinuações não do mundo espiritual, mas do mundo material a nós nunca [ou para ser] revelado. De maneira que toda e qualquer criação imaginária, mas devidamente fundamentada na tecnologia e no aparato aparentemente científico, tem sua aceitação imediata e que corrobora qualquer ficção consubstanciada em meras possibilidades. Se existe a superstição espiritual, existe também a superstição materialista, esta em seu estado mais baixo.

Afirma Olavo, página 198:

“A redução do campo da experiência humana às dimensões manipuláveis pela ciência e pela tecnologia é totalmente incompatível com a estrutura da realidade, onde a existência do infinito, da eternidade e do incognoscível não é, de maneira alguma, uma situação provisória que o “avanço da ciência” possa vir a superar amanhã ou depois, mas um dado positivo permanente, que uma vez suprimido só pode resultar em deformações psicóticas e infantilismos grotescos, como o de tomar a mera esperança de provas científicas futuras como provas atualmente válida e incontestável. Mas o puerilismo epidêmico dos intelectuais materialistas chega mesmo ao cúmulo no instante em que o dr. Richard Dawkins, rejeitando como bárbaras as doutrinas tradicionais das religiões  – e, junto com elas, a tradição filosófica inteira de Sócrates e Leibniz – explica a origem da vida como possível intervenção de… deuses astronautas”.

O fenômeno das provas é corrente porque útil. Das formas mais brandas de superstição cientificista, é na tecnologia e no aparato evolucionista (para citar o sentido ordinário da palavra: “aquilo que vai do simples ao complexo”) que se desmembra a ânsia de teses que se iniciam na ciência imaginária, mas que se finalizam na suposição sentencial e imutável e, portanto, contrária à própria metodologia experimental. Ao menos se não estivesse abarcado pelo discurso científico, haveria aí a conotação da superstição pura e simples. Mas, do contrário, os pressupostos e credulidades da escalada tecnológica universal, e a qualificação da ciência enquanto entidade autônoma ao próprio homem, fez culminar a aparência científica em verdadeira defesa apologética dos discursos seculares. Não citada a religião, o supersticioso materialista tende a se redimir perante sua crença, uma vez que esta não se respalda no âmbito espiritual, apesar de estar nela espelhado.

A construção desse sintoma não teria sustento se não acompanhada da própria força basilar da ciência enquanto superstição, esta que, recentemente, consegue somente os créditos de uma busca científica se acoplada à retórica da lógica e razão. Ainda que em capítulo anterior àquele já citado, Olavo preparou belamente o terreno da análise dos traços ameninados do cientificismo no momento em que os vincula às experiências universais da existência humana, sem as quais a razão seria a simplicidade da mera lógica sistemática e do beabá dos questionamentos infindáveis.

Se a experiência conduz o homem aos fins últimos e aos meios relativos à sua existência, tentar atrelar a razão a ela própria, ciclicamente, enquanto fenômeno distinto da própria existência, é antecipar as concepções filosóficas básicas para negar, finalmente, a própria experiência humana. E é o que de fato tem ocorrido, considerados os recados dados pelos cientificistas quando a religião é tida por mera “experiência descartável” do homem comum. Por ser uma estratégia sempre de eliminação das causalidades da própria razão, utilizá-la por fim como uma técnica (porque a razão precisaria ser descoberta, diz-se) de elaboração de novas virtudes seria o estágio último do homem racional. Ayn Rand propôs esse absurdo, mas falhou em seu postulado ao reconhecer que a moralidade é intrínseca ao homem, assim como a razão.

A razão partiria da própria existência, forma pela qual a relação íntima entre o homem e a eternidade não estaria em exclusão existencial, mas em somatória. Mas absurdo maior está na própria sobrevalorização da lógica cartesiana sobre a razão materialista, e esta sobre a própria experiência existencial/religiosa, como que em uma cadência nauseante de discursos que culminaria no afunilamento da racionalidade na mera proposição sistemática de fenômenos “logicamente aceitáveis pela razão”. Seria este o homem puramente racional?  De forma alguma. Seria e é de fato o homem puramente empírico naquilo que tão só imagina ser fruto da escalada científica. Nada contra em chamá-lo o “homem puramente lógico”, este que imputa na mera técnica os alicerces da própria virtude racional, quando mais na esperança utópica da solução tecnológica. “Os círculos andam em ciclos, circulando, perambulando”.

No artigo próximo irei estender meus comentários ao capítulo anterior, “A ciência contra a razão”, neste em que Olavo de Carvalho já nos avisa: “O finito e o infinito são as primeiras categorias da razão, e não me refiro aos equivalentes matemáticos desses termos, que são apenas as traduções deles para um domínio especializado” (p. 189).