O que é uma universidade brasileira?

Concordo com Bertrand: a esquerda é gado histérico. A defesa, aliás, dos pontos assumidos por Bertrand fazem todo o sentido: a reforma agrária enquanto movimento político; o assistencialismo que fabrica vagabundos; a República conduz inevitavelmente ao totalitarismo; o ambientalismo é firula da politicalha; comunismo, nazismo e fascismo tem a mesma base ideológica socialista.

Agora vejam o que acontece quando o colocam em meio ao esterco:

http://www.youtube.com/watch?v=gQMRcM766xQ

O culto secular da razão: a anti-ciência – comentários sobre “A Filosofia e seu inverso”

Inicio este texto com a mesma citação com a qual finalizei o texto anterior: “O finito e o infinito são as primeiras categorias da razão, e não me refiro aos equivalentes matemáticos desses termos, que são apenas as traduções deles para um domínio especializado” (Olavo de Carvalho, p. 189).

O recado fala muito mais alto do que aparenta e expressa muito além da mera comparação entre infinitude e matemática. Aliás, a comparação é válida e se expressa no mesmo sentido das matérias científicas que, em uma análise de progressão metodológica, tiveram no rol de suas utilidades o mundo material ampliado à abstração científica total. Apesar de não ser o assunto a que tenho interesse em comentar neste momento, o empirismo científico, assim chamado, está em oposição evidente aos movimentos empiristas filosóficos, os quais carregam nomes como Aquino, Bacon, Mill, Aristóteles. Assim, entenda-se que quando cito o “empírico”, falo sim do empirismo científico, vinculado à metodologia, às percepções sensíveis dos sentidos do homem e que, atualmente, significa uma relação equivocada entre razão e os sentidos percebidos ou, excepcionalmente, os sentidos imaginados dentro de uma construção tecnológica fictícia.

Olavo de Carvalho, p. 190, afirma o seguinte:

“A experiência humana tomada como totalidade ilimitada é a mais básica das realidades, ao passo que o objeto de cada ciência é uma construção hipotética erigida dentro de um recorte mais ou menos convencional dentro dessa totalidade. Essa construção nada vale se amputada do fundo desde o qual se constituiu. O apego à autoridade da ‘ciência’, tal como hoje se vê na maior parte dos debates públicos, não é senão a busca de uma proteção fetichista, socialmente aprovada, contra as responsabilidades do uso da razão. O mais evidente sintoma disso é a facilidade, a trêfega e saltitante mudança de canal com que os porta-vozes da “ciência” transitam das atenuações relativistas e desconstrucionistas, para as quais todos os discursos são de algum modo, às proclamações de “fatos científicos” imunes a toda discussão, tão sagrados que seus contestadores devem ser excluídos do meio universitário e expostos à execração pública. O culta da ‘ciência’ começa na ignorância do que seja a razão e culmina no apelo explícito à autoridade do irracional.”

Aparentemente, a conotação dada por Olavo parte do pressuposto de divinização e abstração dos métodos científicos, forma pela qual a “ciência” tornou-se Ciência e, no intrigante respaldo racionalista, uma entidade como outra qualquer, onipresente nos sistemas e relacionamentos humanos e nomeada comumente enquanto uma unidade indissociável de teorias científicas imutáveis (a aparente tendência dessa “ciência” numa reformulação constante é falsa, mas explico em outro momento). Já se disse que a “ciência” enquanto entidade é a aniquilação total da própria mentalidade científica, uma vez que espera [sim, de “esperança”] dela fenômenos somente encontrados na religião.

Essa divinização está diretamente relacionada à já mencionada superstição materialista, a qual permanece intacta nos discursos justamente por estender seus tentáculos aos discursos religiosos. Como que sabidos de que a religião se mantém ao longo dos séculos por sua abrangência universal e infinita, utilizando dessa estratégia a ciência-entidade se manifesta no abstrato universal, inclusive imputando a si mesma a autoridade em assuntos historicamente religiosos. Deus, fé, moral, crença, milagres, culpa, bem, mal, pós-morte, condenação: a ciência divinizada tenta sem sucesso abranger, ponto-a-ponto, as teses trabalhadas por séculos de teologia e filosofia, no amestramento meramente tecnicista, sob o manto da razão e da lógica. Sem sucesso, pois os pontos abordados não ultrapassam o superficial, uma vez que o interesse real não é a suplantação religiosa por meio de inéditas teorias sobre o todo, mas a diminuição da religião em nome do utopismo meramente tecnológico que tem por fomento o desprezo ao homem religioso. A busca pela verdade e o cientificismo andam em lados opostos.

Olavo, p. 194:

“A partir do momento em que o universo cultural passou a girar em torno da tecnologia e das ciências naturais, com a exclusão concomitante de outras perspectivas possíveis, era inevitável que o imaginário das multidões fosse se limitando, cada vez mais, aos elementos que pudessem ser expressos em termos da ação tecnológica e dos conhecimentos científicos disponíveis. Gradativamente, tudo o que escape desses dois parâmetros vai perdendo força simbolizante e acaba sendo reduzido a condições de ‘produto cultural’ ou ‘crença’, sem mais nenhum poder de preensão sobre a realidade. O empobrecimento do imaginário é ainda agravado pela crescente devoção pública ao poder da ciência e da tecnologia, depositárias de todas as esperanças e detentoras, por isso mesmo, de toda autoridade. Isso não quer dizer que as dimensões supramateriais desapareçam de todo, mas elas só se tornam acessíveis ao imaginário popular quando traduzidas em termos de simbologia tecnológica e científica. Daí a moda da ficção científica, dos extraterrestres e dos deuses astronautas. Mas é claro que essa tradução não é uma verdadeira abertura para as dimensões espirituais, e sim apenas a sua redução caricatural à linguagem do imediato e do banal.”

A ciência, dessa maneira, convoca a si mesma: pela razão limitada à lógica, busca-se a verdade, mas a verdade pautada no limites do finito e na esperança das técnicas. A verdade da razão da ciência divinizada é a verdade suportada pela sensibilidade empírica e pela imaginação materialista, por fim a quimera de qualquer diálogo que exclui uma hora ou outra o estudo das leis e condenações morais universais. De maneira que essa verdade, uma vez que de fato buscada, como nos atenta a intromissão dessa “ciência” em assuntos totalmente religiosos, não obstante metafísicos, toma os contornos de uma busca incessante de meras “respostas” que, ainda que dentro daquilo que deveria ser uma escalada interminável, tem por conotação discursiva sua definitividade somente possível de ser revisada pela própria ciência.

Ao fundo do espetáculo de subjugação da razão à técnica e à lógica, a ciência-entidade transmuta a razão, outrora um dos componentes do estudo universal e religioso, para o afunilamento dos sistemas meramente experimentais, conquanto limitados às demonstrações de uma busca restrita à materialidade. Talvez por isso que, no início da própria concepção quântica, o quanticismo tivesse sido desconsiderado porquanto fábula alheia aos rigores dessa falsa racionalidade. Demócrito, recitado pelo atomismo, tem seu ode da ciência-entidade ofuscado pelo fato de que o átomo, uma vez teorizado, também buscava suas fontes na análise da constituição da alma humana.

Mesmo a negação de Demócrito de uma regência superior do cosmos é a negação que parte da análise da própria concepção do infinito e da análise do infinito em vista da existência humana. Justamente a preocupação religiosa, na qual se espelha o culto secular da razão, alimentado tão somente pela antes inexistente mas agora uníssona rivalidade contemporânea e imatura entre a ciência mesma e os fenômenos filosóficos e teológicos estudados há séculos.

A superstição materialista e outros conceitos sobre a ciência – comentários sobre “A Filosofia e seu inverso”

A decepção parcial de “A Filosofia e seu inverso”, de Olavo de Carvalho, é compensada pelo bojo total de obras do autor. Decepção, assumo, tão somente iniciada ao perceber que praticamente 1/3 da obra partiu das desavenças entre o autor e alguns dos escritores do Dicta & Contradicta, nomeados claramente nos primeiros capítulos do livro. Para alguns, não há mistério nem erro nessa investida quando o que se tem são textos selecionados sobre um tema em comum, não obstante emanados muitas vezes de embates reais e que geram, por fim, a real “dialética filosófica”. Esperando eu um verdadeiro compêndio de textos filosóficos, deparei-me com textos já publicados e que, muitas vezes veiculados na imprensa, não permitem de forma alguma a profusão daquilo que se viu no monumental “O Jardim das Aflições”, para não citar o recente “Maquiavel ou A confusão demoníaca“. Mas eis que como luz resplandecente a obra parece se desmembrar das briguinhas ameninadas do autor com seus desafetos, adentrando ao que realmente interessa: a relação filosófica entre a ciência, razão, lógica, discurso, fé, Deus, religião, existência. Na facilidade com que os primeiros textos foram mal selecionados, Olavo de Carvalho nos oferta uma excelente conversa em assuntos que estão atualmente em voga e que pululam constantemente nos debates universitários.

De fato, o cientificismo foi belamente abordado em “Ainda a ilusão corporalista”, no sentido mais amplo do fenômeno: naquilo que se observa por experiência, o materialista se arremete uma hora ou outra no empirismo dos sentidos e da imaginação tecnicista, ainda que o empírico esteja atrelado às insinuações não do mundo espiritual, mas do mundo material a nós nunca [ou para ser] revelado. De maneira que toda e qualquer criação imaginária, mas devidamente fundamentada na tecnologia e no aparato aparentemente científico, tem sua aceitação imediata e que corrobora qualquer ficção consubstanciada em meras possibilidades. Se existe a superstição espiritual, existe também a superstição materialista, esta em seu estado mais baixo.

Afirma Olavo, página 198:

“A redução do campo da experiência humana às dimensões manipuláveis pela ciência e pela tecnologia é totalmente incompatível com a estrutura da realidade, onde a existência do infinito, da eternidade e do incognoscível não é, de maneira alguma, uma situação provisória que o “avanço da ciência” possa vir a superar amanhã ou depois, mas um dado positivo permanente, que uma vez suprimido só pode resultar em deformações psicóticas e infantilismos grotescos, como o de tomar a mera esperança de provas científicas futuras como provas atualmente válida e incontestável. Mas o puerilismo epidêmico dos intelectuais materialistas chega mesmo ao cúmulo no instante em que o dr. Richard Dawkins, rejeitando como bárbaras as doutrinas tradicionais das religiões  – e, junto com elas, a tradição filosófica inteira de Sócrates e Leibniz – explica a origem da vida como possível intervenção de… deuses astronautas”.

O fenômeno das provas é corrente porque útil. Das formas mais brandas de superstição cientificista, é na tecnologia e no aparato evolucionista (para citar o sentido ordinário da palavra: “aquilo que vai do simples ao complexo”) que se desmembra a ânsia de teses que se iniciam na ciência imaginária, mas que se finalizam na suposição sentencial e imutável e, portanto, contrária à própria metodologia experimental. Ao menos se não estivesse abarcado pelo discurso científico, haveria aí a conotação da superstição pura e simples. Mas, do contrário, os pressupostos e credulidades da escalada tecnológica universal, e a qualificação da ciência enquanto entidade autônoma ao próprio homem, fez culminar a aparência científica em verdadeira defesa apologética dos discursos seculares. Não citada a religião, o supersticioso materialista tende a se redimir perante sua crença, uma vez que esta não se respalda no âmbito espiritual, apesar de estar nela espelhado.

A construção desse sintoma não teria sustento se não acompanhada da própria força basilar da ciência enquanto superstição, esta que, recentemente, consegue somente os créditos de uma busca científica se acoplada à retórica da lógica e razão. Ainda que em capítulo anterior àquele já citado, Olavo preparou belamente o terreno da análise dos traços ameninados do cientificismo no momento em que os vincula às experiências universais da existência humana, sem as quais a razão seria a simplicidade da mera lógica sistemática e do beabá dos questionamentos infindáveis.

Se a experiência conduz o homem aos fins últimos e aos meios relativos à sua existência, tentar atrelar a razão a ela própria, ciclicamente, enquanto fenômeno distinto da própria existência, é antecipar as concepções filosóficas básicas para negar, finalmente, a própria experiência humana. E é o que de fato tem ocorrido, considerados os recados dados pelos cientificistas quando a religião é tida por mera “experiência descartável” do homem comum. Por ser uma estratégia sempre de eliminação das causalidades da própria razão, utilizá-la por fim como uma técnica (porque a razão precisaria ser descoberta, diz-se) de elaboração de novas virtudes seria o estágio último do homem racional. Ayn Rand propôs esse absurdo, mas falhou em seu postulado ao reconhecer que a moralidade é intrínseca ao homem, assim como a razão.

A razão partiria da própria existência, forma pela qual a relação íntima entre o homem e a eternidade não estaria em exclusão existencial, mas em somatória. Mas absurdo maior está na própria sobrevalorização da lógica cartesiana sobre a razão materialista, e esta sobre a própria experiência existencial/religiosa, como que em uma cadência nauseante de discursos que culminaria no afunilamento da racionalidade na mera proposição sistemática de fenômenos “logicamente aceitáveis pela razão”. Seria este o homem puramente racional?  De forma alguma. Seria e é de fato o homem puramente empírico naquilo que tão só imagina ser fruto da escalada científica. Nada contra em chamá-lo o “homem puramente lógico”, este que imputa na mera técnica os alicerces da própria virtude racional, quando mais na esperança utópica da solução tecnológica. “Os círculos andam em ciclos, circulando, perambulando”.

No artigo próximo irei estender meus comentários ao capítulo anterior, “A ciência contra a razão”, neste em que Olavo de Carvalho já nos avisa: “O finito e o infinito são as primeiras categorias da razão, e não me refiro aos equivalentes matemáticos desses termos, que são apenas as traduções deles para um domínio especializado” (p. 189).