O que nos ensinam os assassinos de mandiocas?

À evidência de que o humanismo persevera no mundo sempre com o apoio de discursos salvacionistas, em substituição das virtudes individuais pelos atos que se justificam coletivamente, é cristalina a necessidade do vegetarianismo em se impor não somente como um fenômeno de dieta, mas também como o espiritualismo que se expande infecciosamente a tudo e todos. Essa pretensão que coaduna a dieta ao espírito se tornou a sentença inefável do discurso vegetariano. Quando ainda restrito ao mero hábito alimentício, tinha o vegetarianismo o jargão da saúde plena e não apresentava o alimento enquanto caminho entre o homem e o divino. Contudo, como qualquer movimento que se subentende espirituoso, porém nunca religioso, eis que os vegetarianos incutiram na dieta a saúde não somente física, mas também espiritual. A mínima controvérsia em torno do vegetarianismo enquanto fator de espírito equivale a desrespeitar verdadeiras convicções religiosas, mas sob a cautela de não ser expressada as advertências de uma vida ecologicamente equilibrada.

Creio ter algumas dezenas de textos argumentando sobre o fenômeno, mas nada convence mais um humano que ver como determinada tribo africana guarda sua carne: cortando as patas do animal [sem anestesia, é bom que se explique], para assim não deixá-lo caminhar mato adentro. Crueldade! O vídeo, que faz chorar em prantos qualquer vegetariano, revela o motivo pelo qual o homem tende a ignorar o sofrimento animal quando o que existe entre seu estômago e o belo gado é a fome predominante. Recitando louvores de ode à civilização, questionam o pudicos: “eles não conhecem maneiras de conservação da carne?”. A higiene aflora na primeira investida, e o vegetariano que um dia condenou o homem ocidental agora preza pelo ocidentalismo quando o assunto envolve o primitivismo tribal.

“O homem evoluiu e não precisamos mais de carne”, diz o sábio. Outro, “a natureza humana é sempre assassina”, analisa o assassino de mandiocas. Mas apenas um dentre centenas, ainda que vegetariano, revelou o óbvio das entranhas de tamanha barbárie: “se não têm o que comer, que comam carne”.

Não os condeno. Na falta do que fazer, por que não encher o saco de praticamente toda a humanidade?

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