Rand e a perversidade do homem

O objetivismo de Rand significa, resumidamente, a objetividade moral da razão e, além, a objetividade da razão em face da realidade objetiva: aquela que existe mas que, quando ainda indescoberta, é tão somente ignorada pelo homem. A realidade seria, portanto, inegável, imutável e irrefutável, mantida em um estado inerte tão somente por sua ignorância da percepção externa ou, como dito, de seus fenômenos evidentes. Interpretações não alteram a realidade; são, sim, subjetividades perante sua imutabilidade. O teor dessa tese não merece descrédito e a minha simpatia pelas teses randianas parte do princípio de que Rand, ao propor uma estrutura de virtudes e uma moral racional, concebeu de Aristóteles aquilo que foi melhor explicado por Aquino. Ela, inclusive, credita a Aristóteles sua filosofia.

Ou seja, ainda que equivocada na elevação subliminar da razão a um status de “divinização” objetiva, fruto puramente humano, a estrutura de justificativa da racionalidade objetiva foi e é também uma estrutura pela qual se pode conceber a moral objetiva divina que, para os cristão, foi-nos revelada pelo Deus judaico. A objetivação é inegável; bastemos deduzir de sua estrutura qual seria o fundamento irremovível da virtude humana: a moral racional objetiva, da qual decorreria todas as outras virtudes? Ou a moral objetiva universal, consentida enquanto vontade divina e, no decálogo mosaico, então revelada diretamente por Deus?

Vejam a seguinte citação:

“Anarchy, as a political concept, is a naive floating abstraction: . . . a society without an organized government would be at the mercy of the first criminal who came along and who would precipitate it into the chaos of gang warfare. But the possibility of human immorality is not the only objection to anarchy: even a society whose every member were fully rational and faultlessly moral, could not function in a state of anarchy; it is the need of objective laws and of an arbiter for honest disagreements among men that necessitates the establishment of a government. Ayn Rand, “The Nature of Government,” The Virtue of Selfishness, 112.”

Quid pro quo, razão e moral são colocados lado a lado em uma relação direta de manutenção da estrutura social, forma pela qual a anarquia seria a inevitável constatação da oposição à objetividade de Rand. Contudo, a análise baseada na religião adéqua-se plenamente a essa equiparação objetiva, com o detalhe basilar de que a moral da sociedade mencionada somente se daria por meio da moral cristã. Enquanto que para Rand a imoralidade máxima é a negação deliberada das virtudes as quais foram por ela definidas (razão objetiva e realidade objetiva), ao religioso a imoralidade máxima decorre do descumprimento deliberado das virtudes que, uma vez reveladas, seriam descumpridas tão somente pela perversidade pecaminosa do homem.

A associação é imediata: de Rand, imoral seria o homem que subutiliza ou menospreza a razão para o entendimento da realidade objetiva (o que ocasionaria a perversidade moral inevitável) e, no aspecto religioso, o imoral que menospreza e deprime a moral objetivada na revelação divina.

Ainda que concepções intrinsecamente dissociadas e distantes, são complementares no momento em que a moral, sistematizada pela razão, tem no fundamento religioso sua manutenção teórica. Ao cristão, mesmo sendo a imoralidade uma relação direta entre a depravação humana total e suas consequências no âmbito metafísico/espiritual, a razão seria mero instrumento filosófico, enquanto que para o objetivista a razão seria o fim em si mesmo da moral e virtude humanas.

Importante notar que a maior crítica feita a Ayn Rand por aqueles que a admiram parte da ideia de que se uma vez objetivada a moralidade, também objetiva-se a imoralidade. Fecha-se o leque do subjetivismo e do relativismo, o qual não tem espaço no racionalismo randiano. O mesmo ocorre com a moral cristã: objetivada, sua transposição culminaria inevitavelmente na perversidade humana que, pelo relato de Gênesis, bem fez do homem aquele que deprava e aquele que é depravado para, por fim, reconhecer-se necessitado da misericórdia divina. Faltou a Rand apenas a extensão de sua ideia aristotélica à teologia ditada por Aquino. Mas tenho certeza que Rand não o ignorava por completo.